HERÓI DA RESISTÊNCIA
Marcelo Campos volta a batalha de trabalhar com quadrinhos no Brasil com a terceira edição de Quebra-Queixo

Por Lidianne Andrade
Colaboração para a Revista O Grito!, em Recife

Diante de tantas ligas, bandidos, ladrões e mocinhos, mais um herói na luta contra o crime no mundo dos quadrinhos não faria muita diferença. Talvez nada de novo, exceto o fato do personagem Quebra-Queixo ser um herói peculiar e a história ambientada numa Rio de Janeiro futurista, onde o autor faz uma crítica social e política embalada com muita aventura. A cidade não é glamourosa e mergulhada na escuridão de morcegos de Gotham City, mas é a megametrópole Nova Fronteira passando por problemas que o anti-herói tenta solucionar através do seu trabalho para a Força Zero (justiceiros independentes com permissão para matar). E eis que a ideia final apareceu quando o autor teve um sonho com o personagem. “Mapeei conscientemente os elementos para o QQ. Uma estética kitsch, pobre e podre, com cara de filme trash cult”.

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O personagem principal foi criado por Marcelo em 1983 e já teve dois volumes publicados. Nesta terceira edição, Quebra-Queixo Technorama Volume 3 (Ed. Devir 128 pág.) traz seis histórias sobre o personagem contadas com roteiros e ilustração de diferentes autorias. Dentre os participantes: Octavio Cariello, Roger Cruz, Fati Gomes, Jefferson Costa, Arthur Fujita e Eduardo Ferigato e ainda com participações especiais de Roger Cruz, Brücke Caribé e Tainan Rocha. Trata-se de uma exagerada e divertida sátira aos super-heróis americanos.

Em entrevista à Revista O Grito!, Marcelo explicou o porquê de passar a bola para outros autores. “Acho que já fiz muita coisa. Já desenhei, fiz animação, ilustração publicitária, ilustração editorial. Tenho muita coisa na cabeça e quero direcionar meus esforços pra criar alguma coisa em arte, cultura e educação. E acho que os álbuns do QQ podem fazer mais para outros”, explica. “Não tenho nenhuma vontade de controlar o personagem ou impedir versões, interpretações, na verdade gosto disso. Gosto de ver como outros caras vão trabalhar sobre coisas que imaginei”, complementa o ilustrador.

Personagem e autor se interligam?. “O povo aqui me chama de cavalo. Sou meio truculento às vezes. Não tenho muito jeito com gente. Não sei conversar direito. Às vezes falo coisas que são consideradas brutas, sei lá. Eu acho que sou um bom pai, chefe, essas coisas. Mas sempre tomo caminhos que as pessoas não entendem muito, pelo menos no começo. Acho que nestes sentidos me pareço com ele. Muitos dizem isso, mas eu acho que sou mais parecido com o parceiro do QQ, o Sapão.”, brinca Marcelo.

Já com seis prêmios no currículo, Quebra-Queixo não deve sair da vida dos leitores por algum tempo ainda. “Penso em no futuro fazer algo diferente com o personagem, tenho algumas idéias, mas elas ainda não estão tão fixas assim. Mas seria algo diferente, um tipo de “outra versão” do QQ. Não descartamos mais um álbum da série Technorama. Temos muitos alunos talentosos por aqui e quero dar oportunidade à eles para que publiquem”, conta Marcelo.

Um brasileiro do lado de lá
No ramo da ilustração desde 1984, Marcelo já fez muita coisa legal para os aficionados em quadrinhos. Por quase quatro anos ilustrou caixas de brinquedos da Estrela (Comandos em Ação) e assinou roteiro e desenho de várias histórias em quadrinhos de personagens como He-Man, Thundercats, Galaxy Rangers, Centurions, Bravestarr, Xuxa, Angélica, Faustão e Sérgio Mallandro. Os quadrinistas da geração 2000 devem muito a Campos, pois foi ele quem primeiro rompeu as barreiras norte e sul na América ao ser o primeiro o primeiro brasileiro a ingressar em uma grande editora de HQs dos EUA, a DC Comics, e também o primeiro brasileiro e ser desenhista oficial de um título famoso do meio, a Liga da Justiça.

Os sonhos de criança realizados não terminam por ai: foi desenhista e arte-finalista de outros importantes títulos da DC e Marvel Comics como Superman, Teen Titans, Extreme Justice, Lanterna Verde, Spiderman, Thor, Homem-de-Ferro, X-Men, Vingadores e outros e na Dark Horse ilustrou o personagem O Máskara. Apesar do emprego dos sonhos, sempre tentou deixa o fã escondido quando trabalhava. “Sempre gostei desse tipo de linguagem, da atração que a criação de realidades fantásticas exercem nas pessoas, o porquê da necessidade de acrescentar fantasia à realidade. Talvez por eu sempre estar envolvido com o lado de dentro deste tipo de coisa na maior parte da minha vida como profissional e nem sempre como fã tenha me feito criar um certo distanciamento, ou pelo menos com um olhar diferente sobre tudo isso”, explica.

Campos morou em Três Lagoas (MS) até os 14 anos, quando se mudou para Lins, no interior de São Paulo. Nasceu numa família ligada à arte, com gente ligada à música, literatura, pintura e até cinema. Por isso, seu interesse pela ilustração começou cedo.

O interesse pelas artes veio como prazer pessoal, um hobby diário. Entrou para o mundo dos quadrinhos acidentalmente em 1984, em um concurso de uma editora em São Paulo chamada Maciota, que procurava novos artistas e histórias para publicar. Marcelo e o irmão haviam criados HQs ao estilo Heavy Metal, revista-fetiche com histórias repletas de sexo e violência, a maioria europeia. Enviaram e a história foi publicada. Os editores começaram a pedir mais e mais histórias. “Meu irmão continuou na música, na época morávamos no Rio de Janeiro e tínhamos uma banda de rock por lá. As histórias acabaram chamando a atenção de editores da Abril que me convidaram a mudar para São Paulo e a trabalhar com isso”, conta.

Para a agenda de 2010 de Campos, cinco HQs já estão na agulha: ZETZ, Fim do Mundo em Quadrinhos, A Dama do Martinelli e Spin. Tem ainda projetos com a empresa Quanta, fundada a alguns anos, com mais projetos envolvendo alunos e empresa.

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