TIRAS PARA FALAR DO MUNDO
Coletânea faz resgate da obra de Fábio Zimbres

Por Lidianne Andrade
Da Revista O Grito!, em Recife

Ler tiras boas em jornal as vezes é um hábito momentâneo: mas a considerar a recente safra de autores, alguns bastante experimentais, as coletâneas de tiras se tornaram item indispensável para fãs de quadrinhos. A editora Zarabatana resgatou as tiras do desenhista e ilustrador Fabio Zimbres, que eram publicadas na Folha de São Paulo entre 99 e 2001, com o lançamento de Vida Boa (Zarabatana, 166 pág., R$ 39), já nas livrarias. Com isso tirou da efemeridade, uma obra experimental das HQ’s que merece ser conhecida.

Vida Boa foi criada para um concurso de tiras feito pelo jornal paulista, com Laerte entre o grupo de jurados. A série narra o dia a dia do desempregado sem otimismo, Hugo. O personagem passa a maior parte do tempo refletindo sobre as mazelas da vida, um pensador vagabundo. Lidas em seqüência, as tiras formam uma história maior. “O personagem não foi inspirado em ninguém além das coisas que eu vejo por aí. Acho que há muitos livros que se dedicam acompanhar os minutos e o passar do tempo e a ler o que se passa na cabeça e na vida dos personagens (como o livro Os Ratos, do Dyonélio Machado). Não poderia dizer que um em especial me levou a isso, já que o esquema geral da tira surgiu improvisadamente”, conta Fabio em entrevista à Revista O Grito!

O cenário na história é quase sempre o mesmo, como uma continuação, uma novela. “O que me interessava mais eram as sensações e as reflexões que certas situações podem sugerir”, comenta o autor. “Tinha a sensação de ficar esticando um segundo da vida do personagem em vários minutos ou horas. Cada um daqueles pensamentos provavelmente são flashes instantâneos que nós todos temos e eu acabava desdobrando em várias tiras. Publiquei a tira por mais de um ano e no final se passaram dois dias na vida dele”, conta.

Tanto para Vida Boa como para todas as suas obras o artista trabalha com imediatismo, criando muitas vezes sem rascunho. “Gosto das coisas que têm essa tensão, uma carga nervosa de ser feita de urgência, de ser feita ao mesmo tempo em que é criada. Não se ganha tempo com isso, mesmo pulando as etapas de roteiro e rascunho. Acho que levo o mesmo tempo ou mais de uma produção nos moldes mais clássicos”, explica.

Infância no desenho
Fabio teve a sorte de ter um pai desenhista e tinha muito material em casa. O paulista começou copiando revistas da Turma da Mônica e da Disney, os conhecidos personagens Pateta e Mickey Mouse. Sua primeira opção não foi as artes, começou cursando arquitetura na USP. “No final só tinha disciplina de engenharia e eu não ia ter saco pra acabar!”, diz. Foi morar em Porto Alegre onde, em 1991, onde cursou Artes Plásticas.

Começou publicando tiras na Folha de São Paulo, prêmio ganho em um concurso que se inscreveu apenas com a insistência do amigo Allan Sieber (editor de revistas em quadrinhos e autor de Vida de Estagiário, entre outros). De lá para cá o currículo aumentou bastante.  Já expôs em Buenos Aires, São Paulo, Lisboa e Nova York. Já publicou quadrinhos e ilustrações na Comix 2000, Que Suerte, Rosetta, Ragu, Dundum, Suda Meri K, Lapin, Complot, Lapiz Japones, entre outras publicações. Atuando como freelancer, o artista gráfico paulista ilustrou diversos livros, como Panamá o Las Aventuras de mis Siete Tios (ilustrações para o poema de Blaise Cendrars) e Música para Antropomorfos.

Por aí corre uma fama muito louca sobre Zimbre: escreve apenas uma vez por ano, mas quando escreve merece aplausos, com personagens sempre marcantes e intelectualmente interessantes, como Prof. Rororo e o coitado do Pato em Marte “É que eu demoro muito pra produzir uma história e também não tenho um veículo que me pague pra produzir, então minha produção tem que se adequar ao meu tempo de sobra, que não é muito. Pouco tempo mais lerdeza dá nisso: poucos trabalhos”.

Entre seus trabalhos, a música merece um destaque pela excentricidade da encomenda. A banda Machanics deu a Fábio algumas músicas instrumentais para que a partir dali criasse uma história em quadrinhos. Elas seriam a trilha sonora da HQ. Quando Zimbres terminou, a banda fez as letras para cada música, baseando-se nos quadrinhos. Só isso já faria de Música para Antropomorfos uma obra interessante, mas a coisa não para por aí. O ilustrador criou um roteiro surreal, com boa estrutura, espontâneo, com bastante elogio da critica. Ouvir o CD enquanto a historia é lida dá uma nova roupagem a experiência.

Atualmente Fábio mantém o Maudito Fanzine no site cybercomix.com.br. É freelance de ilustração, design gráfico e quadrinhos. Faz parte do cast da independente editora gaúcha Edições Tonto, por onde você pode comprar seus trabalhos. Comenta algo sobre um futuro trabalho. “Tenho que começar a pensar num livro que me foi pedido mas não sei ainda o que se será nem quando sairá. Só sei que não será muito longo, umas 20 páginas, mais uma revista. Acabei de fazer uma historinha curta de 3 páginas para uma publicação em Portugal. Uma experiência rara de desenhar a partir do roteiro de outra pessoa, não sei quando sai.”

Se pretende retormar o personagem de Vida Boa, o Hugo, Fábio já tem uma resposta. “Poderia retomar o Hugo tranquilamente mas precisaria de um veículo pra me obrigar a isso”. Fica a deixa.

Para acessar: www.fzimbres.com.br

Sem mais artigos