Detalhe da exposição verdee no Muda (Foto: Marcelo Lyra)

INQUIETUDE QUE MUDA
Novo espaço no Recife agrega produções locais num só lugar e dá pista para revelar efervescência cultural que a cidade vive

Por Emídia Felipe
Colaboração para a Revista O Grito!, em Recife

Seja lá onde estiver, o poeta baiano Castro Alves deve estar feliz. Uma casa onde ele morou no Recife agora é ponto de encontro de artes: o Espaço Muda, que, até que alguém reclame o contrário, se mostra como o novo fenômeno cultural da cidade. Aberto há seis meses, já caiu nas graças dos jornalistas da área, apareceu na MTV, virou queridinho de quem faz e consome teatro e entrou na agenda de quem apenas se alimenta dessas coisas que alegram a alma.

Resultado de um investimento de quase R$ 100 mil, sonhos, trabalho e dedicação, o Muda é iluminado de luz verde na Rua do Lima, em Santo Amaro, bairroda área central do Recife, praticamente vizinho dos dois maiores jornais do estado. Apesar de não ser o primeiro – nem será o último – a engrossar o circuito de points descolados que estão metamorfoseando a área, chama a atenção pela sua pluralidade. Apresenta propostas que envolvem artes visuais, teatro, música, cinema, literatura e gastronomia.

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Depois de se encantar com a fachada, obra da artista plástica Thainne Cavalcanti, o visitante entra no primeiro ambiente, uma galeria de arte, que se estende da sala ao corredor, onde o visual não muda (esse verbo pode ser muito usado aqui) somente com os quadros móveis. Instalações e as paredes também são usadas. Estas aliás, são incansavelmente pintadas e repintadas. Com portas para este mesmo corredor, está um brechó, para felicidade das meninas, com roupas, sapatos e acessórios. Passos adiante, uma saleta onde estão os freezers e o caixa. Dois ou três passos depois, o bistrô, onde também fica o banheiro, e, por último e com o maior espaço da casa, a área de
apresentações.

“Aqui no Recife tínhamos uma gama de manifestações culturais acontecendo, mas desconectadas. E no Espaço Muda nós juntamos tudo”, diz Feó

De início, como contam a proprietária do lugar, Paulina Albuquerque, e seu parceiro de empreitada, Jorge Feó, a busca dos dois era por um lugar para ensaios, privilégio apenas de grandes grupos de teatro ou de quem paga a pauta dos espaços privados, da prefeitura ou do governo estadual. Ela, atriz; ele, diretor. Apaixonada pela Rua da Aurora, Paulina queria algo pela área. Mas os dois sempre esbarravam em galpões comprados por uma grande construtora – em alguns anos, certamente veremos espigões por lá. Foi quando apareceu a casa da Rua do Lima, nº 280, no início do ano passado.

Construção
Com o dinheiro que Paulinha juntou  desde os 16 anos – hoje ela tem 30 – e o conhecimento dos dois em trabalhos de produção, a ideia foi tomando forma. Paulina e Jorge têm outros talentos. Na moda, ela também é estilista e ele criativo da Seaway, que acabou por se tornar uma patrocinadora da aposta da dupla. Só que era preciso mais. Eles perceberam que tinham nas mãos algo que ia muito além de um lugar para ensaiar.  “Aqui no Recife tínhamos uma gama de manifestações culturais acontecendo, mas desconectadas. E no Espaço Muda nós juntamos tudo”, conta o diretor.

Para realizar o projeto, buscaram a parceria da estilista Carol Monteiro e da curadora Giovanna Simões, e contaram com os serviços do arquiteto Diogo Viana, do chef  Hugo Souza e de contadores. Mesmo assim, ainda foi preciso bater muito a cabeça. “Tivemos que lidar na marra com coisas que nunca tínhamos feito na vida”, conta Feó, ao falar sobre trâmites burocráticos como as pendências do prédio junto à Compesa, estatal que cuida do abastecimento de água e saneamento em Pernambuco.

Todos os espaços têm peças recicladas, colhidas em ferros velhos e lojas de móveis usados. Nas mãos dos artistas e do arquiteto, elas se transformaram em poderosos objetos de decoração, valorizados por uma boa iluminação e inspirados principalmente no que eles, especialmente Paulina, viam em cidades como Rio de Janeiro, Nova York e Berlim. Feó destaca que a prática da reutilização de materiais, móveis e roupas é comum na Europa e que o Muda prova como também é aplicável, com sucesso, por aqui. Eles aproveitaram ainda a beleza histórica da casa. O piso original, por exemplo, foi descoberto embaixo da cerâmica colocada recentemente. Mesmo machucados, os ladrilhos verdes enriqueceram o ambiente.


Foto: Emídia Felipe

Cada ambiente tem sua cabeça. A Galeria Muda é gerida por Giovanna Simões – que está de saída, mas haverá outra pessoa. O Espaço Moda é cuidado por Carol Monteiro. O Espaço Galpão é a área de Jorge Feó. Quem toma conta do bristrô Beco da Muda – que figurou entre os indicados da Veja Recife este ano – é Paulina que, aliás, dá conta de tudo. Todo o caixa do lugar passa por ela, inquieta. “Paulina tem ideias de cinco em cinco minutos, é um inferno”, brinca o amigo Feó.

Essa liga que Paulina e Feó criaram tem atraído cada vez mais elementos. Feó conta dos planos para fazer isolamento acústico no Espaço Galpão, cujo tempo de apresentação de bandas mais “animadas” é reduzido para evitar incômodo à vizinhança ainda muito residencial que há por ali: “Não esperávamos que o pessoal da música fosse nos abraçar tanto”. Na verdade, o poder de atração do espaço e de seus projetos inovadores – como o Curta Teatro e o Camarim-up – parecem mesmo inesperados. Na quinta-feira passada, por exemplo, circularam pelo menos 300 pessoas e foi preciso realizar duas sessões do Curta Teatro, ambas lotadas.

Um movimento que acabou chamando a atenção da mídia. Apesar da vizinhança, “Os jornais não vieram fácil”, revela o diretor. “Quando viram que tínhamos regularidade e que as pessoas estavam vindo, começaram a vir também”. No fim do mês passado, graças à ligação com a cantora Catarina Dee Jah, o programa Na Pista, da MTV, levou o Muda para a TV, em uma reportage que mostrou dicas de passeios noturnos  e festas na cidade.

O vaivém no local é, em maior parte, por gente ligada às artes, como as amigas Domitila Menezes, 23 anos, e Iara Sales, 25. Elas trabalham com produção. Encantada pela aura do lugar e consumidora de teatro e música, Domitila, que mora em Olinda, vai pelo menos duas vezes por semana ao Espaço Muda. Já Iara curtia os ambientes pela primeira vez na quinta-feira passada. “Vim deixar uns cartazes uma vez, mas saí rápido. Hoje vim ver detalhes de uma exposição que vou participar, de um coletivo que também envolve gente de São Paulo e Salvador. Resolvi ficar”. Mas nem só de gente da área vive o Muda.

Quinze dias atrás, Ricardo Souza e Mônica Cavalcanti – ambos de 42 anos – entraram no Muda por engano; iam para o N.A.V.E, também na Rua do Lima, ver o show de um amigo. Gostaram tanto do engano que resolveram voltar e experimentar. “É muito bom”, atesta o funcionário público. “A energia é muito boa”, complementa a administradora e professora universitária”. O desafio agora é cuidar de tantos fãs. “Nossa prioridade agora é o relacionamento com os clientes”, conta Feó.

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