DOCE FELICIDADE DOS FEIOS
Filme com números abaixo dos padrões hollywoodianos encanta e faz piada com American Way of Life
Por Fernando de Albuquerque

Os acostumados ao product placement bem hollywoodianos, capitaneados por Sandra Bullocks e Lindsay Lohans da vida, ficam abismados ao saber que “Pequena Miss Sunshine” é uma produção genuinamente americana. Com orçamento bem abaixo dos padrões convencionais e dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris o filme (para usar uma conceituação bem moderna) se insere na categoria de indie movie que desde os anos 80 vem se caracterizando como um catálogo de patologias. Evidenciando personagens deslocados, invariavelmente patéticos, traumatizados por seu entorno, com traços gritantes de suas “anormalidades”, Pequena Miss Sunshine é gargalhada garantida e também promete uma boa dose de lágrimas às almas mais sensíveis.

O longa narra a viagem de uma típica família de classe média envolta numa crise financeira sem tamanho, mas que tenta a todo custo manter-se de pé enquanto instituição. Seus membros são malucos inofensivos. Olive (a mini-atriz Abigail Breslin), caçula da família Hoover, é a personagem que desencadeia todos os fatos apresentados. Ela foi classificada e deseja concorrer ao concurso de beleza na Califórnia. A partir daí os personagens tem suas vidas apresentadas: o pai (Greg Kinnear), um fracassado escritor de auto-ajuda; a mãe (Toni Collette), uma dona-de-casa com subemprego; o avô (Alan Arkin), viciado em heroína e criador da apresentação da neta, que o adora; o tio (Steve Carell), que acaba de tentar suicídio porque seu namorado o deixou pelo expert número 1 em Proust no país, já que Carell é o número dois; e o irmão (Paul Dano), fã de Nietzsche, que decidiu parar de falar por um ano em homenagem ao filósofo alemão. Nada perto do american way of life.

Pois é para um concurso de miss mirim na Califórnia que todos vão, numa acolhedora Kombi amarelo gema que não passa marcha e faz os personagens literalmente correr atrás do que desejam. O automóvel se converte no personagem principal do filme que, quase à la Ettore Scola, procura enquadrar mais de um personagem na câmera. Como é tradição nos road movies, o grupo passará por transformações ao longo do percurso, superando barreiras psicológicas, atualizando elos afetivos gastos e aceitando a imperfeição da vida.

“Pequena Miss Sunshine” é completamente correto na sua gramática cinematográfica. A subversão da película se dá na história e não precisa de uma linguagem “inovadora”, ou mesmo tresloucada, para se fazer entender. Ele fere por completo qualquer complexo de superioridade e excelência do espectador mais arrogante. E está repleto do que poderíamos chamar “pessoas completamente normais”.

Nem de perto o filme é redentor. Do começo ao fim o sentimento de perda (loser) perpassa a narrativa que acaba por cativar ao abordar temas pesados (adolescência problemática, fracasso profissional, homofobia, suicídio, desilusão amorosa e drogas) sem perder o senso de humor. Tudo graças a um elenco talentoso e bem dirigido, além de diálogos precisos.

Mas o filme acaba mal, deixando o espectador aliviado. Mesmo dando tudo errado para a família Hoover eles saem ganhando. A convivência forçada dá unidade à uma relação completamente desgastada e caída na frustração. Mas se Pequena Miss Sunshine não se agarrase a um fio de otimismo no final da história seria um filme especializado em mostrar a perversidade dos adultos em castrar a infância de seus filhos para realizar seus ideais de sucesso, fabricando uma geração de crianças plastificadas e pasteurizadas, tanto na beleza como nas atitudes para enfrentar seus conflitos.

PEQUENA MISS SUNSHINE
Jonatan Dayton e Valerie Faris
[EUA, 2007]
NOTA: 10

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