OS MORANGOS SILVESTRES DE CAIO FERNANDO ABREU
Coletânea de contos do escritor gaúcho falecido em 1996 revela os desencantos de uma geração ainda embebida pela ilusão
Por Rafael Dias

Na definição do próprio autor, trata-se, em quase sua totalidade, de um “livro de horror”. Nesta seleta, estão diluídos, às vezes numa atmosfera noir, seres desprezíveis, de roedores a assassinos sanguinários, perseguições e passagens que beiram o absurdo. Mas o que há de aterrador em Pedras de Calcutá, terceira coletânea de contos de Caio Fernando Abreu publicada em 1977, é mais que isso: é a projeção de um interior torturado pelo pavor psicológico, um “eu” esmagado entre o real esfacelado e o fantástico sombrio. Desvela, no que há de mais subjetivo e grotesco, a beleza primitiva e o sentimento de revolta e amargura de uma geração ainda embebida pela ilusão, no exato momento antes de ser engolida pelo “mofo”.

Relançado pela editora Agir, que vem reeditando desde 2005 a obra do escritor gaúcho, falecido em 1996 em decorrência da AIDS, o livro é uma jóia preciosa da bibliografia do autor. Anterior a Morangos Mofados, obra-prima aclamada pelo público, Pedras de Calcutá resguarda grande parte das angústias e das interrogações que viriam a permear a sua escrita logo adiante em seu auge, porém com uma ressalva. Enquanto que no primeiro a asfixia e a náusea já se haviam instalado, neste captamos o instante pré-desencanto da juventude dos lisérgicos anos 70, oprimida pela censura político-ideológica do regime militar, que assistiria à ruína dos ideais da contracultura e ao chamado fim das utopias. Envolta pela paranóia e pela deserção, a obra é metaforicamente como um grito de estertor mudo, quase insano. É , em si, um dos últimos clamores conscientes de seus personagens, ainda com o viço dos morangos silvestres.

Haveria aí uma referência a Bergman e a sua viagem ao encontro dos porões de si mesmo? Pode ser. Afinal, é muito comum no estilo de Caio Fernando Abreu a recorrência a intertextos, citações e epígrafes, além de uma descrição cinematográfica, recurso híbrido muito presente neste livro. Toma como ponto de partida, por exemplo, um poema de Mário Quintana para falar da força aparentemente distante (“minha pedra de Calcutá”) dos anônimos. Cita ainda Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, de quem foi fã confesso, para emoldurar suas narrativas curtas e ágeis e os fluxos de pensamento.

Dividida em duas partes, a coletânea compila 19 contos que tratam de temas variados, interligados por temas como solidão, amor, dor e sensação de estar à margem. Seus personagens trafegam entre a neurose cotidiana ( Divagações de uma marquesa) à insanidade progressiva (Uma história de borboletas). São, no todo, mais interrogações e catarses que descobertas. Porém, revelam, com uma poesia urgente, a escuridão luminosa do leito do rio que desembocaria em Morangos mofados.

PEDRAS DE CALCUTÁ
Caio Fernando Abreu
[Agir, 132 págs, R$ 29,90]

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