Para o diretor Eric Valença, peça traz temas repudiados para alguns e visto natural por outros. Após ser encenada em circuito alternativo, espetáculo estreia em teatro no Janeiro de Grandes Espetáculos

A programação do Janeiro de Grandes Espetáculos está repleta de peças e companhias cênicas já conhecidas e consolidadas pelo público. Entretanto, ao mesmo tempo em que o festival abre as portas para esses talentos ele possibilita que novas montagens ganhem projeção e destaque dentro de uma grade heterogênea. A peça de nome curioso Eu Gosto Mesmo do Pezinho de Galinha Porque Eu Como a Carninha e Limpo o Dente Com a Unhinha, da companhia Alô Produções, é um desses exemplos. Fruto de um processo contínuo de união de atores, figurinista, direção, técnicos de som e criação e execução de luz, o espetáculo domiciliar ganha corpo em cena no teatro pela primeira vez dentro da grade do festival.

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A peça que estreou em 2015, até então, havia se apresentado no Festival de Inverno de Garanhuns, em um galpão, e realizou um circuito paralelo, sem lei e incentivo, com amigos de outras regiões do Estado, dentro das casas de pessoas conhecidas que queriam ter a possibilidade de assistir uma montagem domiciliar. No Recife realizaram apresentações no Atelier de Cássio Bomfim, situado na Rua da Aurora, chegando a se apresentar em uma noite para 80 pessoas. Desta vez, o desafio é levar a montagem para um espaço cênico. “Trazer isso para um teatro é maravilhoso. Pezinho de galinha é super aberto e jovem, os textos não são cartesianos, permite um monte de improvisação, para criar jargões, lidar com qualquer adversidade que aconteça naquele momento em cena”, explica Eric Valença, diretor e ator da peça, em entrevista à O Grito!.

Valença fez dois meses de pesquisa in loco para desenvolver peça.

Formado em cinema, ele começou ainda cedo nas artes por meio da dança e, perto de se graduar, acabou tomando gosto pelo teatro. Inquieto e atento às questões sociais e políticas, Valença define sua arte como militante. “Falar das coisas que estão erradas e fazer refletir me interessam mais. O objetivo é utilizar da obra como um instrumento comunicador, que as pessoas saiam e pensem no outro, se ponha no lugar do próximo e se perguntem, porque as coisas são e estão assim?”, justifica.

A inquietude de Eric assume lugar na montagem que propõe a contar dramas de personagens da vida real, que satirizam temas como a prostituição, as delegacias de polícia, as questões políticas, religiosas e sociais. Em cena, estão cinco histórias interligadas, interpretadas por Eric Valença e a atriz Nínive Caldas que se dividem em dois monólogos cada e atuam juntos em um dos atos. O nome da montagem, Eu Gosto Mesmo do Pezinho de Galinha Porque Eu Como a Carninha e Limpo o Dente Com a Unhinha, na concepção do diretor do espetáculo sugere algo indigesto, assim como os temas abordados na peça. “Se eu ver um pé da galinha dentro da panela, eu não como, fico com nojo. Mas tem pessoas que adoram e a consideram uma iguaria. A peça também traz assuntos repudiados por alguns e ao mesmo tempo visto como natural para outros”, afirma.

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Embora já existisse um roteiro, o texto visto em cena é resultado de uma longa pesquisa realizada por Eric Valença, que, como nômade, percorreu vários lugares do país em busca de retratos que mostrassem a realidade brasileira. O ator que prefere ser diretor, conta que os personagens não são mocinhos e nem vítimas, mas sim pessoas com todos os seus contrários e contrastes. “Minha linha de criação é a cocriação. Apesar de ter escrito o roteiro, não tinha construído ainda o texto. Sendo assim, fui em busca da construção do “Pezinho” e me infiltrei na Igreja universal – passei um mês indo para todos os cultos; frequentei o Centro Clarice Lispector e visitei a delegacia da mulher”, relata Valença. O processo de preparação da peça durou cerca de dois meses, entre as visitas in loco e a montagem do texto.

Peça foi encenada em domicílio.

O responsável por esse espetáculo, assim como a trilogia O Grito da Porteira do Mundo Quer Avançar,que se apresentou no ano passado no festival Outubro ou Nada, é o grupo Alô produções, que surgiu em 2015, mesmo ano da primeira apresentação do “Pezinho de Galinha”, da vontade de abordar os temas sociais e políticos que incomodavam o grupo. “A necessidade de ter voz e de ter a sorte de conhecer pessoas que toparam fazer parte disso, como a atriz, Laís Vieira e Tati Azevedo; na criação e execução de luz, de Luciana Raposo; Ana Garcia, na assessoria de imprensa; Carol Monteiro, no Figurino; Rogério Alves, na fotografia; Lili Rocha, no trabalho de corpo, assim como Cássio Bomfim, que cedeu o espaço para as apresentações no apartamento e da atriz Nínive Caldas, parceira em cena, responsável também pela companhia existir, além de outros nomes”, explica Eric Valença.

Alô produções, que completa três anos em 2018, nasceu do desejo de realizar um trabalho sem recurso, utilizando o que tinham em mãos e contando com a entrega de todos os envolvidos. Mais maduros, o grupo pertencente à cena alternativa teatral, passa a correr atrás de editais e capacitação de recursos para se consolidar entre os principais grupos de teatro do Estado.
Para quem quiser conferir o espetáculo Eu Gosto Mesmo do Pezinho de Galinha Porque Eu Como a Carninha e Limpo o Dente Com a Unhinha, a apresentação será neste sábado, às 18h no Teatro Marco Camarotti, no Recife.

Fotos de Renato Filho/Divulgação.

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