PAUL NO RECIFE: “POVO ARRETADO”
Balbuciando palavras em pernambuquês, amolecendo os corações mais duros e fazendo homenagens no palco, Paul McCartney fez show memorável

Por Rafaella Soares
Da Revista O Grito!, no Recife

Fotos Marcos Hermes

Difícil encontrar predicados que não sejam superlativos para descrever o show que o sir Paul McCartney realizou no Recife, na noite deste sábado (21), no Estádio do Arruda, Zona Oeste do Recife. Mais de 50 mil pessoas (de acordo com a polícia militar) lotaram o Estádio José do Rêgo Maciel, para prestigiar a turnê On The Run em sua única escala no Nordeste. A noite tinha até motivos expressivos para transformar a cidade em um caos impraticável, mas a ausência de ocorrências violentas e transtornos maiores colaborou para o desfecho positivo do que pareceu um folhetim, envolvendo prefeitura, Secretário de Turismo, descrença, alvoroço e logística ímpares para tão curto tempo.

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Esquivando-se alguns ruídos de comunicação entre produção e equipe de apoio, que não tinham uma única informação para dar sobre acesso para compradores online, portadores de necessidades especiais e imprensa, tudo correu bem. O serviço de ônibus saído do Shopping Tacaruna (Expresso Paul McCartney) foi de grande valia – pelo menos a ida, experimentada por esta que vos fala, prestou o serviço com muita fluidez.

Era surreal conceber que a vizinhança pacata estava recebendo um evento de tal dimensão, em termos de pessoas empenhadas para realizá-lo e atenção recebida pela mídia. Um clipe com momentos de toda a carreira do beatle é transmitido nos telões de led, ao som de versões atuais de músicas do quarteto de Liverpool. Às 21h35, ao apagar das luzes, com um atraso de apenas 5 minutos, vemos Paul subir ao palco com seu indefectível terninho, acompanhado de Wix Wickens (teclados), Brian Ray (baixo e guitarra), Rusty Anderson (guitarra) e Abe Laboriel (bateria).

A abertura é matadora: “Magical Mistery Tour”, seguida de “Junior’s Farm”, “All My Lovin'”, “Jet” e “Got To Get You Into My Life”. Naturalmente carismático, ele já entra com a platéia na palma da mão. Nem precisaria o cantor balbuciar algumas expressões em português. E não poderia ser diferente. São cinco décadas colecionando clássicos, moldando os rumos da música. “E aí, pernambucanos?”, saldou. “Povo Arretado!”. O público delira, os flashes espocam. O repertório não privilegia uma única fase musical, disco, década ou formação de banda. “Sing the Changes”, “Let Me Roll It”, “Paperback Writer”, formam uma colcha de retalhos coerentes, por sabermos serem compostas por uma mesma pessoa – a última coisa de que podemos rotulá-las é serem “silly love songs”.

Ao piano, Macca inicia um belo set. A épica e inigualável “The Long And Winding Road”, seguida de “My Valentine”, homenagem feita para a recente esposa, Nancy Shevell. A escolha parece ser um mea culpa para “Maybe I’m Amazed”, executada em seguida “This song I wrote for Linda”, diz ele, sem precisar acrescentar nada. Arrepiante. “And I Love Her” – com direito à desajeitada e bem humorada reboladinha vem depois, mas sem interromper as homenagens.

Paul relembra recentes episódios de luta pelos direitos humanos vividos em Nova Iorque e toca “Blackbird”, aplaudida e cantada em coro, para então falar do parceiro de toda uma vida, John Lennon, e mandar “Here Today”. “Essa canção é pro John, é sobre uma conversa que não tivemos”. Até uma pessoa endurecida ficaria com nó na garganta neste momento.

Já empunhando um bandolim, Paul e banda executam “Dance Tonight”, a indefectível “Mrs Vanderbilt” e “Eleanor Rigby”, como se ainda precisasse, a esta altura da vida, afirmar que é um dos maiores compositores pop que o século XX conheceu. Chega a vez de “Something”, dedicada à George Harrison, numa levada despojada. Belas fotos da dupla em p&b são exibidas no telão. Mas a coleção de hits é infindável: “Yellow Submarine”, em medley com “Ob-La-Di Obi-La-Da” (com direito à máscaras distribuídas entre o público), “Back in USSR”, “I’ve Got A Feeling”, “A Day in The Life”, “Give Peace a Chance” – acompanhada pela platéia, que exibia os dedos em V. O número com explosões em “Live and Let Die” pode ter mais de trinta anos, mas ainda é um dos pontos altos das apresentações.

O bis também fica no campo do irrepreensível: “Let it Be”, “Hey Jude” “Lady Madonna”, “Day Tripper” “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Golden Slumbers” e a apoteótica chuva de papéis, obrigando todo mundo a se despedir com “The End”. A promessa de até logo de Paul, em português esforçado, é um alento maior do que os rumores de que essa pode ser sua última turnê na América Latina.

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