APENAS UM CARA
Na semana em que chega ao Brasil para mais shows, novo disco e biografia mostram outras faces de Paul McCartney

Por Juliana Simon
De São Paulo

Não precisa ser um fã doente do fab-four para achar uma heresia perguntar “quem é Paul McCartney”, como fizeram vários twitteiros jovenzinhos durante o Grammy. Até hoje sabemos que é um dos grandes gênios da música e fez parte da maior banda de rock de todos os tempos. Mas ao ouvir o novo CD Kisses On The Bottom e ler a biografia mais completa e mais recente do astro do rock, #whospaulmccartney faz até sentido.

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Quem poderia imaginar que Paul lançasse um CD jazzístico? A primeira audição é só estranheza. Músicas lentas num ritmo piano bar, um presente ótimo para os saudosos dos anos 1950. E, aqui reconhecemos, esse também é McCartney: um senhor de quase 70 anos, com todo o direito, vontade e crédito (seja com os fãs, seja o bancário mesmo) para se arriscar em regravações de músicas de sua infância e juventude. Mesmo assim, Kisses On The Bottom é um choque e demora a descer.

Ignorando a sede pelo bom e velho rock, que sabemos como Paul pode fazer, o disco merece uma audição carinhosa e tranquila. Seja pela viagem no tempo, seja por conhecer o que inspirou aquele jovem de Liverpool. No final, conseguimos identificar nas melodias e versos aquela aura romântica que sempre permeou as composições de McCartney.

Destaque incontestável é a original “My Valentine”, que ganhou um clipe dirigido por Paul e com as presenças de Natalie Portman e Johnny Depp.

Não será a primeira vez que Paul surpreende, lembrai-vos das experimentações new wave dos anos 1980. Dar a cara à tapa é uma marca da carreira solo do músico e isso nunca o fez perder fãs. É infantil esperar que McCartney insista no estilo Beatles. Primeiro porque eram quatro cabeças no grupo e nada seria o que foi sem os outros três. Dois porque quase metade do setlist dos shows é desse passado e ficamos plenamente satisfeitos em matar a nostalgia assim. Aliás, sorte nossa esse amor recente de Paul pelo Brasil. Três visitas em três anos.

Coraçãozinho: Amor recente de Paul pelo Brasil o fez fazer três visitas em três anos (Fotos: Mary McCartney)

O beatle é um homem
Haja coração para ler as mais de 600 páginas de  A Intimidade de Paul McCartney, de Howard Sounes. Não pelo volume de texto, mas pelo de informações e pela verdade nua e crua de que o ex-beatle não é a pessoa mais legal do universo.

É a pesquisa mais completa feita sobre vida e carreira de Paul e uma viagem indispensável aos fãs de música, de rock, dos Beatles e, claro, do músico. Nela são desmistificadas inúmeras passagens da vida de Paul. A morte de sua mãe não foi nem mais, nem menos sofrida que a de qualquer pessoa comum. A reunião com Lennon não foi feita em um “click” e a relação era muito menos passional e doentia do que foi falado até hoje. “Yesterday” foi só o começo da genialidade das letras e da arrogância de Paul em relação aos colegas. Os Beatles não fumaram um baseado no Palácio de Buckingham, e sim um inocente cigarrinho. E muito mais.

Pós-Beatles, as histórias continuam surpreendentes. Paul era um chefe cruel com seus músicos no Wings e com colaboradores dos álbuns solo. A vida familiar em seu primeiro casamento, os escândalos do segundo, tudo faz parte da figura Paul e é possível identificar a influência de cada momento em suas músicas e apresentações.

Paul, afinal, é mesmo feito de carne, osso e muito ego. Não chega efetivamente a decepcionar, mas a figura fica um pouco menor no pedestal. Isso até apertar o play em “The Fool On The Hill” ou relembrar de “Live And Let Die” ao vivo. McCartney é só um homem. Comum de sentimentos, genial em sua arte.

PAUL MCCARTNEY
Kisses On The Botton
[Hear Music, 2012]

Nota: 7,5

“My One And Only Love”

A VIDA ÍNTIMA DE PAUL MCCARTNEY
Howard Sounes
[BestSeller/Record, 700 págs, R$ 69,90 / 2011]
Tradução de Patrícia Azeredo

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