A dura e precoce descoberta do fardo da culpa
Por Rafael Dias

O garoto skatista Alex (Gabe Nevins) tem apenas 16 anos, é filho único de pais divorciados da classe média e dono de uma personalidade introvertida. Sente-se confortável nela, até certa medida, mas deseja, ainda que reservado, romper com a mesmice das andanças de sempre no percurso escola, shopping e casa. Em conversa com um amigo, ouve falar de um tal de Paranoid park, um local misterioso e underground, perto da linha férrea na periferia de Portland (EUA), onde se reúnem os skatistas mais velhos e experientes para treinar manobras nas rampas. Numa noite, Alex vai o parque e se envolve em um acidente que vitima um segurança, atropelado por um trem. Teria sido um crime, ou apenas o fardo da moralidade do mundo que Alex acabara de receber por subtração? Pois é essa a dúvida que paira em Paranoid Park, novo filme de Gus Van Sant.

O diretor, contudo, não tem o mínimo interesse em elucidar a natureza do “crime”. Não é essa a idéia que se perpassa. Importam, sim, os reflexos que esse sentimento de culpa e expiação provoca no inexperiente Alex, que se vê tomado, de assalto, por um turbilhão de descobertas naturais da idade, como a sexualidade perante a perda da virgindade com a sua namorada, e a importância do círculo de amizades. Acrescente-se a isso (o pior de tudo) ser obrigado a desvendar o lado cruel e obsceno da realidade de uma forma abrupta, sem dó, numa ação que nem ele mesmo sabe testemunhar a favor ou contra. Réu de sua própria consciência, Alex precisará se libertar de algum modo, senão corre o risco de perder a própria sanidade. Uma coisa é certa: sua vida, a partir daquele episódio trágico, nunca mais será a mesma.

Van Sant cria para a adaptação do romance de Blake Nelson uma narrativa fluida, que ora retrocede, ora avança, interrompe, seguindo o fluxo narrativo da mente de Alex, cuja saída só vê uma: sem ter a quem contar o segredo, decide escrever em um diário para expurgar seus fantasmas. A condução não-linear é, nesse sentido, o trunfo do filme. Dá margem para que adentremos no interior angustiado do adolescente, suas agruras e medos, numa atmosfera cercado pela sugestão, marca registrada de Van Sant, que injeta pausas e licenças poéticas sutis. Numa das cenas mais belas, filmada em super 8, acompanhamos em slowmotion a câmera flutuar captando os movimentos sinuosos dos skateboarders e suas expressões – um conjunto rico em significados que se espraiam para fora da tela. É verdade que Paranoid Park não é o filme mais ousado em termos de experimentação visual e temática da filmografia de Van Sant, se comparado, por exemplo, a Gerry ou mesmo Elefante. Guarda, no entanto, uma generosidade e uma força onírica infelizmente raras no cinema atual.

PARANOID PARK
Gus Van Sant
[Paranoid Park, FRA/EUA, 2007]

NOTA: 9,0

Sem mais artigos