BALZAQUIANO, MAS VANGUARDISTA
Blondie lança box comemorativo e faz turnê mundial para reverenciar o próprio sucesso do Parallel Lines, disco que mudou os rumos da música e do conceito de Diva
Por Talles Colatino

O rock construiu sua história tentando traçar linhas paralelas ao blues e ao jazz. Mas se sustentar como gênero somente com essas bases seria um tanto demais para uma vertente que tinha uma urgência que sobreviveria a décadas, sob a condição da renovação. Há trinta anos, o rock chegava a mais um de seus limites e exigia um novo fôlego. Ou onda. A new wave coloriu e debochou o rock como tentativa de reergue-lo pós a era punk. Há trinta anos, artistas como Depeche Mode, Siouxie And The Banshees, The Go Go’s, New Order, Cyndi Lauper e Smiths redefiniam o panorama do rock, traçando novamente aquelas mesmas linhas paralelas a novas realidades musicais e estéticas. Há trinta anos, o disco que sintetizaria o início dessa nova história do rock emplacava a banda ícone desse movimento. O Parallel Lines serviu ao Blondie e ao legado da new wave como uma luva. De pelica e super bem costurada.

A banda que tinha a ex-coelhinha da Playboy Deborah (Debbie) Harry como frontwoman já começava a sentir o sabor do reconhecimentos através dos singles dos seus dois primeiros álbums, o homônimo Blondie (1976) e Plastic Letters (1977). Deles saíram clássicos como “X-Offender”, “In The Flesh” e “Denis” que já alcançavam posições significativas nos charts do Reino Unido e da Austráália. O Parallel Lines, sob a produção de Mike Chapman, que produziria mais três álbuns do Blondie e o primeiro disco solo de Debbie, catapultou a banda ao topo do sucesso, chegando ao primeiro lugar no Reino Unido e à sexta posição no top americano. Pensar a importância do Parallel Lines na carreira do Blondie é ser completamente direcionado para o que a banda iria mostrar de melhor dali para frente, como banda e como precursora da nova onda.

O arrasa-quarteirão do disco tem como single o frágil “Heart Of Glass”, a mais farofa do Blondie delineou a estética sonora da new wave ao conceber sintetizadores como principal instrumento melódico e ao tratar com bom humor de um amor que não deu certo. Hit certeiro em discotecas. No Brasil, o sucesso, também foi sentido, a balada foi tema da novela Pai Herói (1979), da Rede Globo. “Heart Of Glass” foi responsável a reafirmar o destaque de Debbie como símbolo feminino máximo do rock, desde Janis Joplin. A diferença é que se tratando de uma loira gostosa, o impacto perante ao público foi bem diferente. Mulheres queriam ser e os homens simplesmente queriam Deborah. A sensualidade natural e o inegável talento a tornou musa de um gênero que ainda não estava acostumado com divas.

Mas Parallel Lines não é só “Heart Of Glass”. Definitivamente. Dele o Blondie conseguiu emplacar ainda as memoráveis “Sunday Girl”, “Pictures This”, “Hanging On The Telephone” e “One Way or Another”. Mas perdidas no meio de tantas pérolas se encontram ainda singles em potenciais, como a divertida “I’m Gonna Love You Too”. Canções como “I Know But I Don’t Know” e “Will Anything Happen” ainda respiravam do punk visceral do início dos anos 70. Faixas como “Fade Away and Radiate” e “11:59” ficam responsáveis pelo ar vanguardista do Parallel Lines. São músicas com apresentam camadas sonoras mais oníricas que seriam ainda muito exploradas por bandas como The Smiths e New Order mais tarde.

Para celebrar o balzaquiano trabalho, o Blondie inciou mês pasado uma turnê mundial comemorativa. Nada confirmado ainda na América Latina. E no último dia 24 foi lançado na gringa Parallel Lines – 30th Anniversary Edition, edição comemorativa e limitada do disco que traz como bônus a versão do single de 7″ para “Heart Of Glass”, a versão francesa de “Sunday Girl”, remixes inéditos e um DVD com videoclipes e apresentações da banda em programas de TV.

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