UMA FLÂNEUR EM BUSCA DO SAGRADO
Conhecido como escritor voador, Cees Nooteboom lançou seu novo livro no Brasil este mês
Por Rafael Dias

PARAÍSO PERDIDO
Cees Nooteboom (trad. Cristiano Zwiesele do Amaral)
[Companhia das Letras, 153 págs, R$ 32]

“Um certo alguém abandonou a sua casa nos Jardins numa noite quente de verão; perfume de jacarandá e magnólia, pesado e úmido. Nos Jardins residem os ricos, com empregados que vêm de longe, jardineiros, cozinheiras; levam ao menos duas horas no trajeto, e isso duas vezes ao dia. São Paulo é uma cidade grande. Se chove, os ônibus circulam a passo ainda mais lento.” Esse “certo alguém”, ser diáfano, quase impalpável, é Alma, jovem brasileira de origem alemã que carrega o fio condutor do livro Paraíso Perdido, romance do holandês Cees Nooteboom. O fato inusitado – protagonista e cenários paulistanos descritos por um estrangeiro – não desvirtua o brilhantismo e a fluidez da narrativa que toca em pontos centrais como alteridade, transcendência e violência urbana.

Mais recente obra de Nooteboom, conhecido como o “escritor voador”, Paraíso Perdido foi publicado em 2004, mas só agora sai em versão em português pela Companhia das Letras – o quarto título prensado no País. O lançamento foi ensejado pela vinda do autor holandês ao Brasil este mês por ocasião da Festa Literária de Parati (Flip), onde dividiu os holofotes com nomes hypados como Ingo Schulze, Neil Gaiman e Richard Price. Na cidade fluminense, concedeu entrevistas a jornais e TVs e reafirmou se interesse por uma prosa eminentemente lírica. Explicou a concepção do livro e afirmou que, obviamente, teve de fazer uma viagem a São Paulo para poder descrever, com fidedignidade, a paisagem de arranha-céus e os contrastes sociais entre as mansões luxuosas e os slums, como chama as favelas paulistanas.

No livro, há uma estreita ligação com as questões sociais, a materialidade (riqueza versus pobreza) e uma maneira de captar uma realidade, mesmo que na “superfície”. Em certo momento, Nooteboom parece incutir, ainda que brevemente, uma crítica à desigualdade social, o “apartheid” e o preconceito entre classes. Mas, como um ponto de fuga, a história parece apontar mais para o valor metafísico que para o real – elemento, aliás, inescapável à obra de Nooteboom, carregada de simbolismos, metáforas, elipses e um ar místico desde O (Des) Caminho Para Santiago e Rituais. Alma, sua face angelical e etérea, é que assume esse papel por ora, como uma flâneur que perambula pelas ruas de São Paulo em busca de uma epifania sagrada que a salve da desgraça e da finitude da vida.

Para cumprir sua sina, Alma passa por provações antes de alcançar o elixir. Estudiosa de história das artes e de imagens de anjos, ela é uma jovem de classe média paulistana, moradora do Jardins, que deseja descobrir o mundo fervorosamente. Incauta em suas andanças, entra na favela paulistana de Paraisópolis, na qual acaba sendo violentada e estuprada por um bandido. Marcada por essa experiência triste, ela viaja com sua amiga Almut, também de ascendência alemã, para a Austrália. Lá, tentará renovar suas esperanças ao encontro da espiritualidade e do divino – um pretexto para um escape para dentro de si mesma. Em paralelo à trama, o crítico holandês Erik Zondag, internado em um spa na Ásutria com estafa e esgotamento nervoso, reencontra um antigo affaire com quem teve um caso espiritual.

Em comum, as histórias se entrelaçam para falar de um tema velho – vida carnal em oposição ao plano abstrato, além da mortaldiade, se é que existe. Nooteboom, no entanto, areja o tema com ironia e tratamento suave com pequenas doses de filosofia e passagens poéticas. A escolha do nome da favela (Paraisópolis) e os diálogos entre Alma e Almut espelham levemente o auto-deboche. Num trecho do livro, enquanto planejavam a viagem, Almut sugere que as duas estudassem fisioterapia para assim poderem dar a volta ao mundo. E Alma responde: “em prostíbulos, você quer dizer”. É essa maneira de lidar com as incertezas da vida, sob olhar maduro e compenetrado, sem o peso denso de uma rocha, que faz do livro uma pequena preciosidade. Com um estilo simples, o livro encanta pela sublimação pelas palavras. As páginas, quando folheadas, parecem nuvens-cirros. E desembocam numa epifania bonita e cativante.

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