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Papo de Quadrinho elege as Melhores HQs de 2012

Mantendo a tradição, Papo de Quadrinho indica os melhores quadrinhos lançados no ano que acabou.

Como toda lista, esta obviamente tem falhas e critérios. Em primeiro lugar, só foram consideradas as HQs lidas pelos editores (e está muito longe de cobrir a totalidade de lançamentos do ano).

Em segundo, o fato de que não foram avaliados os relançamentos. Por isso, quadrinhos sensacionais como Diomédes (Lourenço Mutarelli, Quadrinhos na Cia) e Grandes Astros: Superman (Grant Morrison/Frank Quitely, Panini), por exemplo, ficaram de fora.

Por último, neste ano o blog selecionou os melhores em outras categorias (livros, filmes, seriados, games – a serem publicados nos próximos dias) e, portanto, reduziu cada lista a cinco itens.

E no dia 7 de janeiro, vamos publicar as Melhores HQs de 2012 na opinião dos leitores. Não perca!

Veja quais foram as Melhores HQs de 2012 para o Papo de Quadrinho:


HABIBI (Craig Thompson, Quadrinhos na Cia)

Com a peculiar sensibilidade que imprime a seus trabalhos, Craig Thompson (Retalhos) narra uma história de amor que atravessa décadas ao mesmo tempo em que traduz para os ocidentais os verdadeiros princípios da fé islâmica. Dodola e Zam, uma jovem e um bebê escravos, refugiam-se num navio em pleno deserto. Para passar o tempo, Dodola conta histórias como no conto As Mil e Uma Noites. Mas o mundo fora do refúgio é duro, e ambos acabam sucumbindo à crueldade dos homens antes que voltem a se encontrar.

ASTRONAUTA-MAGNETAR (Danilo Beyruth, Panini)

Dando início à série Graphic MSP, Danilo Beyruth explora e aprofunda as características que transformaram o Astronauta num dos personagens mais queridos de Mauricio de Sousa: a ousadia e a solidão. O intrépido investigador depara-se com um evento raro no cosmos, uma magnetar, último estágio de uma estrela moribunda. Ao investigá-lo, um problema com a nave faz dele um náufrago espacial. O Astronauta vai buscar nas lembranças da infância na fazenda do avô a coragem para sair desta situação.

Leia resenha completa aqui: http://revistaogrito.com/papodequadrinho/2012/10/21/astronauta-magnetar-razao-e-sensibilidade/ 

NEONOMICON (Alan Moore/Jacen Burrows, Panini)

Homenagem do bruxo dos quadrinhos a H.P. Lovecraft. Moore mistura elementos da narrativa sobrenatural do escritor – que teve sua obra publicada no início do século passado – com uma trama policialesca. É a oportunidade para introduzir alguns dos elementos mais presentes nos trabalhos do quadrinhista: sexo e drogas. A impressão de Neonomicon foi proibida na Indonésia e China, o que fez a Panini lançar a HQ em capa cartonada para viabilizar o preço.

Leia resenha completa aqui: http://revistaogrito.com/papodequadrinho/2012/08/16/neonomicon-de-alan-moore-tributo-a-h-p-lovecraft/ 

WILSON (Daniel Clowes, Quadrinhos na Cia)

Clowes é conhecido por sua crítica sutil aos costumes da sociedade americana. Se em Mundo Fantasma ele mirou numa geração perdida de jovens, em Wilson seu alvo é o americano de meia idade. Wilson é uma coleção ambulante de defeitos: egoísta, insensível, intrometido, grosseiro, rancoroso. Mas é na linguagem que o livro de destaca: a história é narrada em tiras de uma página, cada uma num estilo diferente de arte, que formam a epopeia de um medíocre.

Leia resenha completa aqui: http://revistaogrito.com/papodequadrinho/2012/02/27/wilson-e-uma-divertida-colecao-dos-defeitos-humanos/ 

PAGANDO POR SEXO (Chester Brown, WMF Martins Fontes)

Obra autobiográfica de Chester Brown, Pagando por Sexo é praticamente um tratado sociológico em defesa da prostituição. Cansado das desilusões amorosas, e tímido demais para batalhar o sexo casual, Brown opta por pagar pelo prazer. No percurso, ilustra as principais dúvidas de quem não tem experiência no assunto: onde procurar, como tratar a profissional, como fazer o pagamento, quanto as aventuras pesam no orçamento, e por aí vai. O autor aproveita diálogos com os amigos para rebater pontos de vista contrários à prostituição e ainda traduz toda a impessoalidade com que trata o tema numa arte minimalista.

Muitos eventos de quadrinhos neste fim de semana

Impressiona a quantidade de convites para lançamentos, sessões de autógrafos e bate papos com autores de quadrinhos que chegam toda semana. Esta, porém, superou todas.

Para quem gosta do gênero, Papo de Quadrinho organizou esta pequena agenda (veja os flyers na galeria abaixo). Pena que alguns acontecem no mesmo dia e horário.

E se ainda tem alguém que acha que o mercado brasileiro não está aquecido, melhor rever seus conceitos…

Hoje, dia 9

Dossiê HQ: bate papo entre autores e leitores. Participação de Ricardo Tokumoto (Ryotiras), Luís Felipe Garrocho (Quadrinhos Rasos), Paulo Crumbim (Quadrinhos A2) e Cristina Eiko (Quadrinhos A2). Moderação de Magno Costa (Oeste Vermelho).

Na Gibiteria (Praça Benedito Calixto, 158), a partir das 19h.

Como na Quinta Série: Lançamento da HQ de Daniel Ribatski pela Balão Editorial, durante a Feira de Arte Impressa da Livraria Tijuana.

Na Galeria Vermelho (Rua Minas Gerais, 350), a partir das 19h.

Holly Avenger e LEDD vol.2: Lançamento do primeiro volume da Edição Definitiva da HQ de Marcelo Cassaro e Érica Awano, e do segundo volume da HQ de J.M. Trevisan.

Na Geek (Alameda Santos, 2152 – loja 122), a partir das 19h.

Amanhã, dia 10

Picles – Piadas do Fim do Mundo: lançamento da segunda HQ coletiva organizada pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP).

Na Comix Book Shop (Alameda Jaú, 1998), a partir das 14h.

Seu Turno – A Aventura Começa: Lançamento da HQ de Éder Gil, Raff Ribeiro e Fernando dos Santos, pela Editora Jambô (projeto selecionado pelo ProAC 2011).

Na Comix Book Shop (Alameda Jaú, 1998), a partir das 14h.

Ida e Volta: lançamento da HQ independente de Raphael Fernandes (Ditadura No Ar), Doug Lira, Pedro Pedrada e Rafa Louzada.

No Monkix (Rua Augusta, 1492 – loja 21), a partir das 16h.

A Máquina de Goldberg: Lançamento da HQ de Vanessa Barbara e Fido Nesti, pela Quadrinhos na Cia.

Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073), a partir das 16h.

Ano de Portugal no Brasil: bate papo com Laudo Ferreira sobre o tema “Auto da barca do inferno: Gil Vicente em quadrinhos”, que o autor adaptou pela Editora Peirópolis.

Na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37), a partir das 16h.

Nova HQ de Gustavo Duarte sai pela Quadrinhos na Cia.

Os livros em quadrinhos que Gustavo Duarte publicou nos últimos anos se destacam por dois aspectos: a ausência de textos e o caráter independente.

É o caso das premiadas , Táxi e Birds. Com um traço característico e extremamente expressivo, as histórias têm um forte poder narrativo mesmo sem diálogos. As três publicações foram lançadas sem o selo de uma editora.

Monstros! é o primeiro trabalho de Gustavo Duarte que foge a um dos padrões: será lançada no dia 1º de outubro pela Quadrinhos na Cia., o selo de quadrinhos da editora Companhia das Letras.

A outra “marca registrada” do autor foi mantida: trata-se de mais uma HQ “muda”. Monstros! é uma homenagem aos filmes catástrofe japoneses ao estilo Godzilla. Nesta versão, Tóquio foi trocada pela cidade de Santos, no litoral de São Paulo, e o improvável herói é um pescador e contador de “causos”.

Monstros! tem 88 páginas, formato 18 x 25,5 cm, capa colorida, miolo em preto e branco e preço de R$ 34,50.

Em tempo: no último dia 11, o quadrinhista anunciou em seu blog que deixou de colaborar com o diário esportivo Lance! depois de 12 anos.

Gustavo Duarte conversou com o Papo de Quadrinho sobre o novo projeto:

Monstros! é seu primeiro livro em quadrinhos por uma editora, confere? Como se deu isso?

Sim. É algo que vem desde 2009, quando lancei a !. A partir daí, vários editores começaram a falar comigo. E o primeiro deles foi o André Conti, agora meu editor na Companhia. Desde então, sempre que a gente se encontrava falávamos sobre trabalhar juntos no futuro. Depois de lançar três álbuns independentes, achei que seria legal fazer algo com uma editora.
Daí sentamos, falei sobre a idéia central da HQ e fechamos.

Em termos criativos, você sentiu alguma diferença entre publicar um livro independente e por uma editora?

Não. Nenhuma. A única diferença do processo foi ter que mostrar o roteiro para o André antes de começar a desenhar. Ele aprovou de primeira e deu algumas sugestões que acabaram gerando boas cenas na HQ.

E quanto a todo o resto (impressão, distribuição, divulgação), é melhor?

Isso só poderei saber quando o livro estiver pronto e nas livrarias. O livro sai agora no dia 1º de outubro. E espero que esteja em todas as livrarias. Mas pela produção acredito que vá ser tudo muito bacana. A minha opção pela Companhia foi por isso. Existe sempre um cuidado gráfico e uma ótima distribuição. Gramatura, impressão, tipo de papel. Foi tudo escolhido para fazermos o livro da melhor forma possível. Isso é legal de estar numa boa editora.

Veremos outros livros seus independentes ou a tendência é passar a publicar pela Companhia das Letras?

Acho que teremos as duas coisas. Uma não inviabiliza a outra.

Parece que a saída do Lance! pegou você de surpresa. Alguma chance de voltarmos a ver suas charges em alguma publicação diária de grande circulação?

Sim. Foi uma surpresa depois de 12 anos de trabalho. É uma pena, pois, apesar de mal pago, era um trabalho que gostava e fazia com muita dedicação. Mas vamos em frente. Quanto a voltar a publicar periodicamente em algum jornal, revista ou site, é algo que eu gostaria, sim. Mas não sei se vai acontecer. O que aconteceu comigo não foi um fato isolado.  A imprensa passa por uma crise feia, em que cada vez se demite mais e se publica e opina menos. Torço para que este momento seja passageiro e que não só eu como outros cartunistas voltem a ter espaço de verdade em publicações diárias.

HQs na Bienal do Livro de SP: Mais lançamentos

Nesta postagem, reunimos alguns lançamentos dispersos por várias editoras. O destaque fica para Habibi, da Quadrinhos na Cia., e Pagando por Sexo, da WMF Martins Fontes. Confira:

Habibi – Quadrinhos na Cia. (672 páginas, R$ 57)

De Craig Thompson, mesmo autor de Retalhos, é um dos lançamentos mais aguardados do ano. Thompson se baseou no clássico As Mil e Uma Noites para contar a saga de Dodola e Zam, duas crianças fugitivas que crescem juntas no deserto e, para passar o tempo, contam histórias. Por elas, passam questões que vão da origem do islamismo e suas tradições à crítica social, ecologia e os conflitos entre religião e amor.

Pagando por Sexo – WMF Martins Fontes (296 páginas, R$ 47)

Premiada obra autobiográfica do quadrinhista canadense Chester Brown, ocupou o primeiro lugar da lista de mais vendidos do New York Times. Desiludido com o que ele chama de “amor romântico” e sem traquejo social para conquistas casuais, Brown decide se tornar frequentador assíduo de prostitutas. Mais que isso: o autor se convence que este tipo de relacionamento é mais legítimo que o amor entre duas pessoas, e defende seu ponto de vista com uma lógica férrea em debates com amigos e conversas com suas companheiras (breve, resenha aqui no Papo de Quadrinho).

Pinóquio – Globo Livros Graphics (192 páginas, R$ 75)

Versão sombria do clássico infantil criada pelo francês Winshluss (pseudônimo de Vincent Paronnaud), codiretor do longa animado Persépolis. Em vez do ingênuo boneco de madeira, o protagonista é um super robô criado por Gepeto para fins militares. Sombrio, circula por lugares sórdidos e conhece o pior da humanidade. No lugar do Grilo Falante entra Jimmy Barata, único personagem com falas no livro.

Os Melhores Inimigos – Editora Ática (128 páginas, preço não divulgado)

Primeiro volume da trilogia em quadrinhos que analisa as origens da tensa relação entre os Estados Unidos e países do Oriente Médio. Este volume parte da pirataria otomana no Mediterrâneo, passa pelas Guerras Mundiais, pela Guerra Fria e pelas divisão Oriente Médio. Roteiro do especialista em islã, Jean-Pierro Filiu, e arte de David B.

Os Meninos de Marte – Melhoramentos (48 páginas, R$ 35)

Novo livro de Ziraldo, marca a comemoração de seu aniversário de 80 anos, comemorado em outubro próximo. Com seu estilo de narrar histórias singelas, o autor concentra no protagonista Martim, um marciano, a importância de se avaliar as pessoas pelo que elas são, e não pela aparência. Ziraldo participa de sessões de autógrafos nos dias 11, 12 e 18, às 15h30, e 19, às 11h, no estande da Melhoramentos.

SERVIÇO:

A Bienal do Livro de São Paulo acontece de 9 a 19 deste mês no pavilhão do Anhembi. O ingresso custa R$ 12 — professores, bibliotecários, profissionais do livro, maiores de 60 anos e crianças com até 12 anos não pagam.

Para chegar, prefira o metrô. Há traslado gratuito para o pavilhão nas estações Barra Funda e Tietê. O estacionamento costuma ser caro e lotado.

Mais informações aqui.

Avenida Paulista, de Luiz Gê: Um espetáculo visual

Avenida Paulista é provavelmente uma das histórias menos lidas e mais aclamadas da história dos quadrinhos brasileiros. Em boa parte porque, originalmente, foi uma encomenda para a Revista Goodyear, de circulação restrita a clientes, revendedores, distribuidores e outros públicos ligados à empresa.

Publicada em 1991 com o nome Fragmentos Completos, esta edição lançada pela Quadrinhos na Cia. é, portanto, a primeira vez em que a história chega ao público em geral. E que história!

Luiz Gê dispensa apresentações. Ao lado de Laerte, Angeli, Glauco e outros, foi um dos expoentes no novo quadrinho brasileiro surgido nos anos 1980. Seu estilo característico é um espetáculo visual, principalmente na construção de grandes cenários.

Avenida Paulista é resultado de uma ampla pesquisa história e iconográfica, e conta a história dos primeiros 100 anos da avenida-símbolo de São Paulo. Seu nascimento é resultado direto do crescimento econômico da cidade com a cafeicultura e a chegada das ferrovias. E, assim, Gê vai narrando sua evolução desde uma travessia de bois, passando pela transformação em point da aristocracia paulistana, com seus bulevares e casarões, até o atual estágio de centro nervoso do capitalismo financeiro.

Toda essa trajetória, Luiz Gê o faz com um misto de ficção e realidade, de cenários e situações surrealistas. Um dos recursos mais bem empregados para ilustrar a velocidade das transformações se dá no descolamento de alguns personagens no tempo, como se a avenida tivesse vida própria e pudesse mudar toda sua paisagem num atravessar de ruas. Textos intercalados aos quadrinhos vão completando o entendimento do leitor com o pano de fundo histórico e social.

O único ponto negativo é que, na penúltima parte, a narrativa assume um tom panfletário desnecessário. O neoliberalismo é apontado como o culpado pela deterioração da avenida. Gê cita o aumento das dívidas pública e externa no início dos anos 1990, mas não lembra que a inflação era superior a 1.000% ao ano; lamenta a privatização das empresas de telecomunicação, mas não menciona a universalização da telefonia no País; afirma que “por sorte” o Brasil se desvencilhou do neoliberalismo, mas não assume que sem a estabilidade do Plano Real os governos seguintes não teriam nem base sobre a qual crescer.

Felizmente, na última parte o autor retoma o tom otimista e prevê um mundo mais humano, participativo, de tecnologia voltada ao bem-estar – e traduz tudo isso num visual quase bucólico de morros retomando o lugar dos edifícios envidraçados. Um futuro melhor, sem dúvida.

Avenida Paulista tem 88 páginas, capa e miolo coloridos, formato 21 x 27 cm e preço de R$ 39. Vale o investimento.

“Wilson” é uma divertida coleção dos defeitos humanos

Daniel Clowes é “o” cara! No início dos anos 1990, então com quase 30 anos, conseguiu captar os anseios (ou a falta deles) de toda uma geração em Mundo Fantasma. Vinte anos depois – portanto, entrando na casa dos 50 –, Clowes pinta o pior retrato possível da meia-idade em Wilson, personagem que dá nome ao livro em quadrinhos lançado neste mês pela Quadrinhos na Cia.

Wilson, o personagem, é uma coleção ambulante dos maiores defeitos do ser humano: egoísta, insensível, intrometido, grosseiro, rancoroso. Fica fácil entender, logo de cara, porque ele é tão solitário.

Ainda assim, é difícil não se identificar com ele nas passagens em que fala, às claras e na cara, aquilo que só temos coragem de dizer pelas costas.

Claro que de sua posição privilegiada, o leitor acaba rindo de cada situação que Wilson cria com quem der o azar de cruzar seu caminho (aqui cabe uma nota pessoal: li quase toda a HQ no metrô, com fones de ouvido, e pelos olhares ao redor acredito que gargalhei uma ou duas vezes sem perceber).

Em seu mais recente trabalho, Clowes inova também no uso da linguagem dos quadrinhos. Cada página de Wilson foi concebida como uma tira cômica, de sentido completo, com meia dúzia de quadros. Isso fica ainda mais evidente na preocupação do autor em dar a cada página/tira um título e um estilo artístico único, como se cada uma tivesse sido produzida por um desenhista diferente.

Porém, no conjunto, as páginas formam uma história completa, uma aparente busca do incorrigível Wilson por redenção. Depois de barbarizar pela vizinhança e testemunhar a morte de seu pai, a sensação de vazio o invade; ele parte em busca da ex-mulher e descobre que, quando ela o deixou, estava grávida e deu a criança para adoção.

Dentro de sua ótica egocêntrica, Wilson acha que pode recomeçar a vida em família – ele só esquece de perguntar se as partes envolvidas estão dispostas a conviver com ele.

Assim como em Mundo Fantasma, ao final Clowes deixa transparecer sua visão pessimista (ou realista) do mundo. Neste sentido, Wilson lembra a rebelde Enid: se você passa a vida inteira afastando as pessoas, seu destino poderá ser bem solitário…

Apesar do grande conhecimento de causa, Clowes parece não padecer do mesmo mal de seu personagem. Pelo menos é o que diz a autobiografia na última página: ele mora com sua mulher, um filho e um cão. Isso só demonstra o alto grau de sensibilidade e percepção do autor, seja para retratar uma geração inteira seja para capturar a vida de uma única pessoa.

Wilson, o livro, é divertido, instigante e inteligente. Tem 80 páginas, capa e miolo coloridos, formato 20 x 27 cm e preço de R$ 39,00. Vale o investimento.

HQ faz ótima adaptação de O Retrato de Dorian Gray

O romance de Oscar Wilde está entre meus livros preferidos. Confesso que meu primeiro contato com a obra não foi dos melhores. Peguei-a para ler ainda muito jovem e o clima homoerótico das primeiras páginas me fez desistir. Só mais tarde voltei a ela e fui perceber seu verdadeiro significado.

Para quem não conhece a trama, trata-se de uma variante do mito de Fausto. O jovem Dorian Gray, belíssimo, rico e aristocrata, apaixona-se de forma febril pelo próprio retrato, pintado pelo amigo e protetor Basil Hallward.

A paixão transforma-se em ciúme da própria imagem e Gray deseja do fundo do coração que ela passa a sofrer em seu lugar não só a passagem do tempo, mas também todas vicissitudes causadas por seus desvios de caráter.

Enquanto Gray mantém a aparência jovem e inocente, o quadro – escondido no sótão de sua mansão, longe da vista de todos – reflete a verdadeira podridão de sua alma. Ainda mais depois que Gray torna-se discípulo do hedonista Lorde Henry Wotton e decide tomar da vida todos os prazeres que ela tem para oferecer.

Em O Retrato de Dorian Gray, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, o escritor e desenhista francês Stanislas Gros faz uma ótima adaptação da obra de Wilde.

A HQ reúne as principais passagens do livro e deixa a leitura agradável tanto para quem conhece como para quem nunca teve contato com o original. Mais que isso: com seu traço simples e narrativa fluida, Gros acrescenta à trama referências literárias e estéticas suas e do próprio Wilde.

Como exemplo, o autor misturou frases de Lorde Henry tiradas do livro com citações niilistas de Nietsche (esta informação foi retirada do posfácio e tendo a acreditar nela, já que nunca li Nietsche). Há referências também a Baudelaire e ao romance Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos.

Gros lança mão de um interessante recurso narrativo para representar o que mais instiga no leitor do livro de Wilde: imaginar a decadência da alma de Dorian Gray refletida no retrato a cada novo crime, infâmia ou vida destroçada.

Na HQ, a partir de determinado ponto, o último quadro de todas as páginas ímpares é dedicado a esta degradação, de forma que o leitor pode acompanhar quem é o verdadeiro Gray – a despeito da imagem angelical que estampa no restante da página.

Curioso notar que, no fundo, O Retrato de Dorian Gray é uma obra conservadora. Em que pese Wilde ser um adepto da beleza e do prazer em detrimento da moral ou das convenções sociais, não permite o mesmo a seu personagem. Ou, se permite, não deixa de alertar o leitor do dano que isto provoca à alma.

O Retrato de Dorian Gray tem 72 páginas, capa e miolo coloridos, formato 20,5 x 27 cm e preço de R$ 34,50. Vale o investimento.

2012: O que vem por aí pela Quadrinhos na Cia.

O selo de quadrinhos da Companhia das Letras promete muitos e bons títulos para o ano novo.

Entre republicações e inéditos, o destaque vai para a produção nacional. No primeiro caso, a editora programou um clássico dos quadrinhos brasileiros: Avenida Paulista, de Luiz Gê, publicado originalmente em 1991 e que narra os 100 anos da famosa travessia de São Paulo.

Outras republicações são: Rê Bordosa Total, que reúne pela primeira vez num único livro todas as histórias da famosa personagem de Angeli; Três Amigos Completos, encadernado com as tiras produzidas por Angeli, Laerte e Glauco; e Diomedes, reunião de três trabalhos de Lourenço Mutarelli: A Soma de Tudo, O Dobro de Cinco e O Rei do Ponto, publicados originalmente pela Devir.

Angeli e Larte ganham também livros inéditos com publicação de suas tiras mais recentes: Lixos da História e Manual do Minotauro, respectivamente.

A Quadrinhos na Cia dá sequência à publicação de obras produzidas em conjunto por novos nomes do romance e dos quadrinhos. É o caso de Campo em Branco (Emílio Faria e DW Ribatski), Vishnu (José Ronaldo Bressane Júnior e Fábio Cobiaco), Guadalupe (Angélica Freitas e Odyr Fernando Bernardi da Silva) e A máquina de Goldberg (Vanessa Barbara e Fido Nestri).

Sem desmerecer todo o novo catálogo de autores brasileiros, a grande expectativa fica mesmo para dois badalados títulos internacionais que a editora vai trazer para o Brasil.

O primeiro é Wilson, de Daniel Clowes (Mundo Fantasma), previsto para março. O livro acompanha a vida do personagem título por décadas e é um interessante exercício narrativo, em formato de tiras de uma página, com sentido completo, e que vão formando o mosaico de um homem medíocre e reclamão.

O outro é Habibi, de Craig Thompson (Retalhos), livro com quase 700 páginas e que levou mais de seis anos para ser concluído. Habibi conta a história dos órfãos Dodola e Zam nos desertos do Oriente Médio e retrata os costumes das religiões islâmica, judaica e cristã.

O retorno em grande estilo de Mutarelli

Imagine que suas lembranças sejam fotografias guardadas num álbum; imagine, também, que você coleciona fotografias de outras pessoas numa caixa. E que, num dado momento da vida, já velho, você embaralhe o conteúdo do álbum e da caixa a ponto de não mais distinguir quais lembranças são suas e quais são dos outros.

Esta metáfora é o coração de Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, que marca a volta de Lourenço Mutarelli a um dos gêneros que o consagrou: os quadrinhos.

A mistura das imagens-lembranças não só faz parte da história do protagonista como também define todo o estilo narrativo do livro.

O único elemento mais ou menos linear é o texto. De resto, ele se mistura ou é intercalado com cenas fora de ordem, de contexto, de diferentes personagens. Da mesma forma que fotografias misturadas.

Mutarelli criou uma história composta com quadrinhos de um quadro só, cada qual numa página. Não há conexão, continuidade ou relação de causa e efeito entre eles.

Este opção estilística é essencial para destacar a arte gráfica primorosa Mutarelli e, ao mesmo tempo, aumenta o clima surreal da história: um aposentado que leva uma vida regrada perde a esposa num acidente banal e dias depois tem um contato imediato de primeiro grau!

O próprio narrador, filho do casal, já não é tão jovem – ele relata os fatos dez anos depois da morte do pai – e mal presenciou os presenciou. Então, é provável que também ele esteja misturando versões e lembranças (dele, do pai e de outros).

Uma imagem recorrente no livro lembra um retrato do velho pai. À medida que ela se repete, o homem envelhece, ganha novas texturas, perde a nitidez. Seu olhar fixo desconcerta o leitor, o coloca no camarote para assistir à sua degradação física e mental.

Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente é retorno de Mutarelli em grande estilo. A Companhia das Letras fez justiça à sua relevância numa edição caprichada formato landscape (27,5 x 21 cm), capa dura, colorida e impressa papel pólen bold. O preço é R$ 44,50.

É um livro para ler e reler muitas vezes, tentando descobrir conexões entre imagem e texto que não existem. Essas tentativas vãs colocam o leitor num papel ativo na história, ao tentar, ele próprio, encontrar uma lógica nas fotos embaralhadas.

Nesta sexta-feira (16), tem sessão de autógrafos de Mutarelli na loja O Cara dos Quadrinhos, na Galeria do Rock, em São Paulo.

Vale o investimento: Asterios Polyp, de David Mazzucchelli

Bem sucedido, inteligente, culto, sarcástico, egocêntrico, arrogante. Este é Asterios Polyp, arquiteto que tem sua casa incendiada por um raio justamente no dia em que completa 50 anos.

O incidente faz com que ele parta, desprovido de recursos, em viagem para uma cidade simples, uma vida simples, um trabalho simples – uma busca por si mesmo, uma reflexão sobre tudo que o fez chegar até aquele ponto.

O enredo principal é intercalado por flashbacks que ilustram a trajetória de Asterios desde o nascimento, sua carreira, casamento e divórcio. O improvável narrador destas passagens é o irmão gêmeo natimorto de Asterios, Ignazio.

A “presença” deste irmão que nunca existiu, mas que insiste em povoar seus pesadelos, explica muita coisa sobre o Asterios – sua visão binária de um mundo formado por opostos e a estranha sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa.

Entre muitas referências artísticas e filosóficas, uma premissa interessante do livro é a de que as pessoas são feitas de diferentes padrões e que, em alguns casos, conseguem projetar seu padrão sobre outras, influenciando-as ou, no melhor dos casos, mesclando-se a elas.

Não bastasse a intensidade do roteiro, Mazzucchelli transgride a linguagem dos quadrinhos utilizando as próprias ferramentas do meio. Em Asterios Polyp, todos os recursos gráficos estão a serviço da narrativa.

O formato dos balões e o tipo das letras dizem muito a respeito dos personagens; molduras e cores – ou a ausência delas – acentuam as situações do roteiro; em momentos de tensão ou ternura, os tais “padrões” de que são feitas as pessoas ficam mais evidentes; um holofote imaginário conduz o leitor a quem é o centro das atenções.

Apesar da aparente complexidade, a leitura flui naturalmente e convida a novas releituras para que se descubram detalhes até então despercebidos.

Asterios Polyp é uma história de redenção. Assim como Orfeu, o protagonista desce ao inferno para recuperar sua amada – com a diferença que, neste caso, olhar para ela pode significar sua própria salvação.

O livro foi lançado no Brasil numa edição caprichada pela Companhia das Letras no mês passado. Tem 344 páginas, formato 19,7 x26 cm, capa e miolo coloridos e preço de R$ 63,00. Vale o investimento.

Papo de Quadrinho recomenda duas ótimas resenhas sobre o livro: a de Érico Assis, no blog da Companhia das Letras, e a do Delfin, no site Universo HQ.

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