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Neonomicon, de Alan Moore, é banida de biblioteca nos Estados Unidos

A diretora-executiva do sistema de bibliotecas de Greenville, no estado da Carolina do Sul, decidiu retirar as duas cópias da HQ atendendo à reclamação de uma mãe.

Beverly James anulou a decisão um comitê que avaliou Neonomicon após a reclamação. O comitê havia sugerido manter o quadrinho no catálogo levando em conta “os reviews, listas de recomendação, a reputação do autor e o fato de o livro ter ganhado o prêmio Bram Stocker (concedido a obras de horror)”.

Antes de decidir pelo banimento, James leu Neonomicon e o considerou “desagradável”. Grupos em defesa da liberdade de expressão nos Estados Unidos vêm se manifestando desde o início da polêmica e consideram a decisão de Beverly James como “censura”.

O caso teve início em junho do ano passado, quando a mãe de uma adolescente de 14 anos reclamou do conteúdo erótico do quadrinho, escrito por Alan Moore e desenhado por Jacen Burrows.

A garota retirou Neonomicon da seção de livros adultos. As regras da biblioteca de Greenville permitem que maiores de 13 anos possam ter acesso a esta seção com um tipo especial de cartão, que contempla a autorização dos pais.

Por ocasião do lançamento de Neonomicon no Brasil, Papo de Quadrinho apurou que a Panini teve dificuldades em imprimir o livro na Indonésia e na China.

Também por aqui aconteceu um caso semelhante: em 2009, O Nome do Jogo, de Will Eisner, foi recolhida de uma biblioteca no Espírito Santo pelo mesmo motivo.

Neonomicon é uma homenagem de Alan Moore ao escritor H.P. Lovecraft e foi incluída na lista de Melhores HQs de 2012 do Papo de Quadrinho.

Neonomicon, de Alan Moore: Tributo a H.P. Lovecraft

O roteirista britânico é um dos nomes mais conhecidos e reverenciados pelos leitores de quadrinhos. Enquanto existir a arte sequencial, será sempre lembrado como o criador de Watchmen.

H.P. Lovecraft igualmente dispensa apresentações – pelo menos para os fãs da literatura de terror e ficção científica. O escritor americano viveu no início do século 20 e seus contos e novelas vêm influenciando muitos livros e filmes desde então.

Não é de se estranhar, portanto, que a obra destes dois criadores viesse um dia a se encontrar – aliás, mais estranho é ter demorado tanto.

Neonomicon, que chega ao Brasil neste mês, é a concretização deste encontro. A edição da Panini reproduz o encadernado da Avatar Press lançado em 2010, que reúne as duas partes do prelúdio O Pátio – com roteiro de Anthony Johnston baseado num conto do Moore – e as quatro da história principal – todas com arte de Jacen Burrows.

Em O Pátio, o leitor antevê o que está por vir: uma trama policialesca que envolve a investigação de assassinatos bizarros e aparentemente sem conexão entre si. Somente o agente do FBI Aldo Sax, adepto da “Teoria da Anomalia”, consegue conectar os pontos.

Tudo aponta para uma droga chamada Aklo, que Sax vai descobrir, da pior maneira, não se tratar de um simples psicotrópico.

Anos se passam e dois outros agentes, Gordon Lamper e Merril Brears, continuam investigando os assassinatos bizarros. Brears é a única com conhecimento para perceber a relação entre os locais, as referências e modus operandi com a obra de Lovecraft. Há um furo em sua teoria, porém: alguns dos crimes datam do início do século 20, antes mesmo da publicação dos livros do autor americano. Quem influencia quem?

O livro todo é um tributo de Moore a H.P. Lovecraft. Em linhas gerais, a trama principal pinça elementos de vários contos: a cidade em que se passa O Pátio vem de O Horror em Red Hook; o caráter investigativo, do clássico O Chamado de Cthulhu; os homens-peixe e o culto a eles, de A Sombra de Innsmouth.

Há também vários elementos dispersos ao longo da HQ que fazem referência direta ao universo criado por Lovecraft. Os mais iniciados na obra do americano certamente vão adicionar mais prazer à leitura ao identificar estes elementos.

A arte de Jacen Burrows é precisa e valorizada pelas cores de JuanMar. Mas o que chama mesmo atenção é a diagramação. O Pátio é toda produzida em dois quadros verticais por página e provoca uma sensação um tanto claustrofóbica. Neonomicon, com poucas exceções, foi desenhada com quatro quadros horizontais de mesmo tamanho; sem por um lado, dá impressão de linearidade, por outro parece juntar quadros de diferentes páginas.

Sexo

Alguns estudiosos alegam que a sexualidade – ou a repressão dela – é algo latente em toda obra de Lovecraft. Moore, bem ao seu estilo, escancara esta sexualidade na orgia ao culto de Dagon do qual os agentes Lamper e Brears caem vítimas.

Estas cenas mais explícitas quase custaram caro aos leitores brasileiros. Uma fonte da Panini ouvida pelo Papo de Quadrinho contou que a ideia inicial era lançar Neonomicon com capa dura. Para viabilizar o custo, a impressão seria feita na Indonésia.

O parceiro, porém, recusou o trabalho por causa do conteúdo erótico. A segunda opção da editora, a China, só imprimiria com a aprovação do Ministério da Cultura, num trâmite burocrático que levaria mais de um mês e ainda correria o risco de ser recusado.

A opção foi produzir aqui mesmo no Brasil com capa cartonada, o que resultou num preço bastante atrativo.

Neonomicon tem 188 páginas, capa e miolo coloridos e custa R$ 24,90. A edição brasileira começa a ser vendida dia 20 de agosto. Vale muito o investimento.

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