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“Morphine”: Dramas pessoais e experiências narrativas

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Conforme anunciado aqui, neste fim de semana aconteceu o lançamento oficial de Morphine, novo trabalho do quadrinhista Mario Cau, durante a Gibicon, em Curitiba.

O selo “Pieces apresenta” já diz tudo: o álbum nasceu como uma história estendida dos primeiros trabalhos do autor. Na mosca! Morphine não só marca a volta do Cau à produção independente, como também evidencia o que ele faz de melhor: expor o emocional de personagens jovens à procura de seu lugar no mundo. É também palco de experiências narrativas que vêm se tornando uma marca registrada do autor.

Para não restar dúvida, a tatuagem no braço da personagem Lara estampa a peça do quebra-cabeça que falta na capa da primeira edição de Pieces.

Morphine é uma banda de rock alternativo e, como não poderia deixar de ser, a HQ é embalada por várias canções – deste grupo e de outros. Morphine é também o nome da casa noturna da HQ, para qual convergem os protagonistas e todos seus dramas pessoais.

Há aqui um elemento novo e, até onde me lembro, inédito na obra de Mario Cau. A tecnologia e as redes sociais fazem parte da rotina dos protagonistas e em vários momentos viram recursos narrativos.

O que chama atenção, porém, é a crítica embutida. Na balada inaugural de Morphine, Alex observa o vazio dos frequentadores: “É só olhar para status atualizados, tweets e coisas do tipo… Todo mundo tem certeza. Todo mundo é crítico, e toda opinião proferida parece verdade absoluta”.

Mais atual e certeiro que isso, impossível.

Morphine tem 112 páginas, capa colorida, miolo em preto e branco, e preço de R$ 20. Vale o investimento.

“Morphine”, de Mario Cau, sai em setembro

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Depois da premiada adaptação de Dom Casmurro pela Devir e de Terapia, pela Novo Século (projeto financiado pelo Catarse), Mario Cau volta a publicar de forma independente.

Morphine, seu mais recente trabalho, tem lançamento previsto para o evento de quadrinhos Gibicon, de Curitiba, em setembro.

Pela sinopse, o autor mantém-se fiel ao estilo que o consagrou: as relações humanas. E levando em conta as páginas divulgadas (veja galeria abaixo), Cau continua explorando formas inovadoras de narrativa, a exemplo de Terapia.

A HQ explora os conflitos do início da fase adulta dos amigos Lennon, Bruno, Alex, Diana e Lara, tendo como pano de fundo a inauguração da casa noturna que dá título à obra.

Com roteiro e arte de Cau, Morphine tem 112 páginas, capa colorida e miolo em preto e branco. O preço não foi divulgado.

Para os mais afoitos (este editor entre eles), a HQ entra em pré-venda nesta segunda-feira (21), no site do autor, com preço especial e direito a brindes.

 

“O Doutrinador”: justiça pelas próprias mãos

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O Doutrinador é mais um exemplo, entre muitos, da relevância da internet para a produção independente de quadrinhos.

O designer gráfico Luciano Cunha percorreu a via crucis de todo quadrinhista talentoso com uma ideia na cabeça e um pincel na mão. Bateu à porta de várias editoras e recebeu as negativas de praxe.

No seu caso, há uma agravante. O Doutrinador é protagonizado por um tipo específico de justiceiro: um assassino a sangue-frio de políticos corruptos e daqueles que se empoleiram no poder para benefício próprio.

No primeiro tratamento da obra, lembra Luciano no posfácio, ele manteve não só a aparência das vítimas, conhecidos políticos brasileiros, mas também seus nomes verdadeiros. Não é mesmo o tipo de trabalho que uma editora aceitaria.

A saída foi publicar na internet, já com mudanças, primeiro na linha do tempo do autor no Facebook, depois numa fanpage (que conta hoje com mais de 34 mil seguidores), e finalmente num site próprio.

Os primeiros capítulos de O Doutrinador começaram a ser postados em abril de 2013. Dois meses depois, as manifestações de rua que se espalharam por todo o país potencializaram a audiência do personagem.

Nem dá para chamar de “golpe de sorte”. À sua maneira, tanto a obra de Luciano quanto os protestos têm a mesma origem: o descontentamento com seguidos desmandos da classe política.

Com a popularidade crescente e a história concluída – e ainda sem uma editora interessada – Luciano partiu para a produção independente e lançou seu personagem em versão impressa, uma edição caprichada com 84 páginas, papel de qualidade, capa e miolo coloridos.

Nossa opinião

O Doutrinador é uma obra de ficção e, como tal, deve ser analisada pelo seu caráter simbólico. A obra expressa o justo sentimento de revolta contra o Estado burocrático, corrupto e injusto, que cobra altos impostos e não oferece a contrapartida adequada em saúde, educação, segurança e bem-estar.

Expressa, também, a dificuldade de certos grupos e pessoas em conviver no ambiente democrático. Ao assumir o papel de juiz, júri e carrasco, por conta própria e sem legitimidade, o Doutrinador adquire ares de fascismo e age da mesma forma, ou pior, do que aqueles que combate.

O Doutrinador é o terrorista V num regime democrático; é o Justiceiro que mata corruptos, mas ignora o bandido comum. Com o personagem da Marvel, guarda mais uma coincidência: sua motivação política nasce da perda pessoal; sem ela, talvez continuasse cego às injustiças sociais.

Luciano tem traço preciso e domínio narrativo. Ousa na diagramação, nos ângulos e faz bom uso dos recordatórios. O Doutrinador é uma obra que merece ser lida, conhecida, não só pelo esforço do autor em publicá-la, mas também por suas qualidades como narrativa gráfica.

O personagem tem o direito de ser julgado pelos leitores. Um julgamento que o próprio Doutrinador nem sempre garante às suas vítimas.

Vale o Investimento: “O Quarto Vivente”, de Luciano Salles

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por Gabi Franco, especialmente para o Papo de Quadrinho

O ano é 2.177 e o mundo já não existe mais como você o conhecia.

Há uma nova ordem cartográfica mundial, pois em 2.089 um reagrupamento das placas tectônicas praticamente esmigalhou a Europa e a Ásia em pequenas ilhas. O Brasil foi um dos países que fraternalmente acolheu os sobreviventes do estrago. Do que sobrou da França, mais especificamente.

Neste futuro, existem novos países chamados de Repúblicas Federativas Fraternais, ou Repúblicas Socialistas Fraternais e as UFs, Uniões Fraternais, países que, como o Brasil, receberam sobreviventes do grande cataclisma, e foram se reorganizando conforme a demanda.

Movimentos revolucionários, guerrilhas, religiões, partidos, agremiações e outras formas de agrupamentos foram, de modo gradual e natural para a época, dissipando-se. O planeta e sua nova configuração foram a base de uma severa mudança no pensamento da humanidade.

No Brasil não foi diferente. Já não agimos como antigamente. Já não nos alimentamos como antes, não falamos o bom e velho português como antes! Não nos comportamos, nos vestimos e, o mais importante: já não nos relacionamos mais como costumávamos fazer. Não há mais interesse na socialização e interação, e assim como o planeta, o homem fragmentou-se, perdeu sua característica de animal social.

O coletivo não existe mais. Todos pensam e vivem somente pra si.
A casualidade, a imprevisibilidade da vida não existe. Todos os nossos atos são friamente pré-calculados, às vezes, mesmo antes de sermos concebidos. Nossa morte é planejada logo no ato do nascimento: a própria concepção como conhecemos não existe.

Famílias existem, mas os gêneros, não mais.

Filhos são escolhidos e gerados com alto padrão de qualidade genética em programas patrocinados pelo governo, que remunera as pessoas a fim de recolher material genético da mais alta eficiência. A expectativa de vida do brasileiro é de 108 anos.

De quatro poderes, as autoridades se resumiram a apenas um: a Políciamável, com policiais que utilizam poder telecinético em vários níveis.

É nesse Brasil distópico e magistralmente idealizado que esbarramos em Juliett- e em sua insatisfação constante com os rumos da humanidade -, que culmina em uma decisão radical que pode impactar seu futuro e que nos faz refletir sobre o nosso.

Logo na primeira leitura a HQ causa estranheza pela forma como é escrita (em uma espécie de dialeto brasileiro do futuro), mas aos poucos vamos criando empatia com a personagem central e partilhando de seus sonhos e frustrações, nos identificando com sua inadequação àquela realidade e reconhecendo-nos em cada quadrinho.

Fica impossível falar mais sem dar spoilers ou sem implicar em uma explicação pessoal e intransferível.

Essa é a segunda HQ autoral de Salles, lançada da mesma forma independente queo o HQzine Luzcia, a Dona do Boteco, no ano passado.

O Quarto Vivente é uma HQ de ficção científica visualmente linda, e seu roteiro traz grandes doses de filosofia e poesia. Quem gosta do gênero vai identificar ali influências de Moebius, Phillip K Dick, Jodorowsky, Paul Pope, Orwell, Tezuka, David Lynch, Lourenço Mutarelli, Laerte, entre outros, tanto na arte como no roteiro, ambos desenvolvidos pelo autor, Luciano Salles. Vale o investimento.

Quem quiser conhecer mais sobre o autor e seus trabalhos pode acessar seu blog. Para adquirir a revista, acesse diretamente o site de compra neste link.

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