Revista O Grito!

Papo de Quadrinho — O Grito! Blogs – Quadrinhos

Tag: ficção científica

Papo de Quadrinho viu: “Deep Breath” de Doctor Who

who

Em respeito aos leitores do blog, este texto não contém spoilers

Rodeado de expectativa, estreou ontem na BBC o primeiro episódio da nova temporada de Doctor Who, apresentando o ator Peter Capaldi que interpretará o Doutor.

Para quem não conhece ou apenas ouviu falar da série, Doctor Who é um dos seriados mais bacanas já produzidos, um verdadeiro ícone da TV inglesa, que figura no Guinness World Records como a série de ficção científica televisiva de mais longa duração no mundo, embora seja relativamente nova para o público brasileiro.

O Doutor é um Senhor do Tempo, um alienígena capaz de viajar através do tempo e do espaço em sua nave chamada TARDIS (Time and Relative Dimensions in Space), nave com a curiosa forma de uma cabine telefônica britânica da década de 1960.

Para manter a série, toda vez que é necessário trocar o ator que interpreta o personagem principal, ele sofre uma regeneração,  poder fictício que permite ao Doutor mudar a aparência, atitude, gosto, mas manter a memória – na prática, uma desculpa para trocar o ator e refrescar a série. Na última temporada, o ator Matt Smith deu lugar a Peter Capaldi.

Deep Breath é o episódio que abre a oitava temporada moderna da série e mantem a tradição de brincar com essa mudança e explorar os atributos do novo ator. A principal mudança desta vez diz respeito a idade dos atores, já que o anterior era bem mais novo: Matt Smith, tinha 28 anos quando se tornou o Doutor, Peter Capaldi tem 56.

dw1Tudo começa com a Tardis sendo cuspida por um dinossauro em pleno centro de uma Londres vitoriana. O novo-velho Doutor aparece desorientado e vai sendo reapresentado ao público, apoiado por personagens já conhecidos da série como a reptiliana Madame Vastra e sua esposa humana, Jenny Flint, além de seu criado atarracado, o sontariano Strax.

Brincadeiras de roteiro com a aparência, sotaque (Capaldi é escocês) e idade, são a tônica do episódio. Enquanto o Doutor tenta entender seu novo corpo, precisa investigar e desvendar uma série de assassinatos. Ao mesmo tempo, procura recuperar a confiança de sua parceira, Clara Oswald (Jenna-Louise Coleman), que após a regeneração não o reconhece física e emocionalmente.

dw2O episódio mantem a fórmula que faz de Doctor Who um sucesso entre os nerds: equilibra boa ação, fantasia, terror, piadas e citações que remetem à própria série e claro, personagens carismáticos.

Pelo que percebemos, teremos um Doutor um pouco diferente do anterior, mais agressivo, talvez mais durão. Outro destaque é a bela abertura que foi criada Billy Hanshaw, fã da série que trabalha com design de animação e caiu nas graças dos produtores.

Para conhecer melhor, conheça o canal oficial de Doctor Who na BBC e o site de fã Doctor Who Brasil.

 

3ª Odisseia de Literatura Fantástica

cartaz
Após décadas de esforços, o Brasil vive um período de consolidação editorial dos gêneros fantásticos, como são conhecidos o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica. Novos escritores e editoras dedicadas à Literatura Fantástica surgem por todo o país, enquanto a massa de leitores cresce a cada dia.

Para aproveitar esse excepcional momento de nossa literatura, a Argonautas Editora, criada por Duda Falcão e Cesar Alcázar, idealizou ao lado de Christopher Kastensmidt um evento que visa reunir escritores, editores e leitores de diversas localidades do país com o intuito de solidificar o cenário Fantástico brasileiro, além de transformar Porto Alegre em um pólo do Fantástico nas artes.

Serviço:
Onde: O Memorial do Rio Grande do Sul, um prédio histórico no Centro de Porto Alegre.
Quando: 11 a 13 de abril de 2013.
Na sexta-feira (dia 11 de abril) o evento ocorrerá das 10h00 até às 19h00; e no sábado e domingo das 14h00 às 19h00.

Vale o Investimento: Terra Verde

terraverde-capa-baixa

A Floresta Amazônica é uma área encravada em nosso país, palco de antigas discussões acaloradas e de conflitos mortais. Graças a toda essa beleza, violência e segredos, não é exagero dizer que a Amazônia está no imaginário de estrangeiros e de brasileiros, sobretudo a população urbana do Sudeste do país, que tem pouco ou nenhum contato com a floresta e está há anos luz de sua realidade.

Este editor que vos fala teve um pequeno contato com a Amazônia, graças aos belíssimos romances do manauara Milton Hatoum, que deleitam o leitor e aguçam ainda mais o interesse nesse ambiente.

Suas populações, o cotidiano, as contradições de como a exploração dos amplos recursos naturais seguem em contraste com a necessidade da preservação de bio espécies, colocam a Amazônia nos noticiários das maiores cidades do Brasil, ora falando dos conflitos, ora reafirmando sua posição como tesouro do planeta.

É neste cenário que Terra Verde – conto vencedor do III Festival Universitário de Literatura na categoria Novela – surge.

Relançado pela editora Draco em um livro simples, com uma bela capa, Terra Verde se apropria da imensidão do cenário e conflitos amazônicos para levar uma nova equipe de exploradores à floresta. A Amazônia dos garimpeiros, índios, aventureiros e prostitutas, é o lugar onde aliens aportam para aprender sobre nosso mundo, nossas espécies e evoluir eles mesmos, em novos estágios de existência.

O Explorador, que utiliza um humano como hospedeiro, precisa sobreviver diante do conflito entre garimpeiros e índios. Sensibilizado com os problemas da humanidade, esse Explorador será obrigado a escolher entre os propósitos que o trouxeram a esse mundo ou transformar para a comunidade que conheceu.

No limite preciso e entre a narrativa da realidade e a ficção científica, a história é muito bem conduzida. Os personagens interessantes, parecem ter saído das páginas dos jornais que tratam dos conflitos reais, mostrando as angústias de homens e mulheres que vivem nesta região.

Roberto Causo se destaca novamente com um texto seguro, fluído, usando a ficção científica como uma metáfora que dá voz aos explorados e dispõe a sociedade brasileira – no papel de extraterrena – exigindo desta sociedade uma decisão: agir ou se omitir sob o perigo de não “evoluir” como espécie. Por todos esses elementos, Terra Verde é um livro instigante, divertido e vale o investimento. Mais informações no site da editora Draco.

Vale o Investimento: “O Quarto Vivente”, de Luciano Salles

Capa-da-frente-550x777

por Gabi Franco, especialmente para o Papo de Quadrinho

O ano é 2.177 e o mundo já não existe mais como você o conhecia.

Há uma nova ordem cartográfica mundial, pois em 2.089 um reagrupamento das placas tectônicas praticamente esmigalhou a Europa e a Ásia em pequenas ilhas. O Brasil foi um dos países que fraternalmente acolheu os sobreviventes do estrago. Do que sobrou da França, mais especificamente.

Neste futuro, existem novos países chamados de Repúblicas Federativas Fraternais, ou Repúblicas Socialistas Fraternais e as UFs, Uniões Fraternais, países que, como o Brasil, receberam sobreviventes do grande cataclisma, e foram se reorganizando conforme a demanda.

Movimentos revolucionários, guerrilhas, religiões, partidos, agremiações e outras formas de agrupamentos foram, de modo gradual e natural para a época, dissipando-se. O planeta e sua nova configuração foram a base de uma severa mudança no pensamento da humanidade.

No Brasil não foi diferente. Já não agimos como antigamente. Já não nos alimentamos como antes, não falamos o bom e velho português como antes! Não nos comportamos, nos vestimos e, o mais importante: já não nos relacionamos mais como costumávamos fazer. Não há mais interesse na socialização e interação, e assim como o planeta, o homem fragmentou-se, perdeu sua característica de animal social.

O coletivo não existe mais. Todos pensam e vivem somente pra si.
A casualidade, a imprevisibilidade da vida não existe. Todos os nossos atos são friamente pré-calculados, às vezes, mesmo antes de sermos concebidos. Nossa morte é planejada logo no ato do nascimento: a própria concepção como conhecemos não existe.

Famílias existem, mas os gêneros, não mais.

Filhos são escolhidos e gerados com alto padrão de qualidade genética em programas patrocinados pelo governo, que remunera as pessoas a fim de recolher material genético da mais alta eficiência. A expectativa de vida do brasileiro é de 108 anos.

De quatro poderes, as autoridades se resumiram a apenas um: a Políciamável, com policiais que utilizam poder telecinético em vários níveis.

É nesse Brasil distópico e magistralmente idealizado que esbarramos em Juliett- e em sua insatisfação constante com os rumos da humanidade -, que culmina em uma decisão radical que pode impactar seu futuro e que nos faz refletir sobre o nosso.

Logo na primeira leitura a HQ causa estranheza pela forma como é escrita (em uma espécie de dialeto brasileiro do futuro), mas aos poucos vamos criando empatia com a personagem central e partilhando de seus sonhos e frustrações, nos identificando com sua inadequação àquela realidade e reconhecendo-nos em cada quadrinho.

Fica impossível falar mais sem dar spoilers ou sem implicar em uma explicação pessoal e intransferível.

Essa é a segunda HQ autoral de Salles, lançada da mesma forma independente queo o HQzine Luzcia, a Dona do Boteco, no ano passado.

O Quarto Vivente é uma HQ de ficção científica visualmente linda, e seu roteiro traz grandes doses de filosofia e poesia. Quem gosta do gênero vai identificar ali influências de Moebius, Phillip K Dick, Jodorowsky, Paul Pope, Orwell, Tezuka, David Lynch, Lourenço Mutarelli, Laerte, entre outros, tanto na arte como no roteiro, ambos desenvolvidos pelo autor, Luciano Salles. Vale o investimento.

Quem quiser conhecer mais sobre o autor e seus trabalhos pode acessar seu blog. Para adquirir a revista, acesse diretamente o site de compra neste link.

5 Perguntas para Roberto Causo

causo_foto-prateleiraO paulista Roberto Causo é um escritor de FC (ficção científica) de uma nova geração de bons autores nacionais e recentemente lançou pelo selo Pulsar da Editora Devir.

O Papo de Quadrinho conversou com Causo e perguntou um pouco sobre a obra e suas principais influências. Confira!

1) Fale brevemente sobre tua carreira.

Comecei a escrever ficção científica e fantasia em 1985, e a publicar profissionalmente em 1989. Desde então, nunca deixei de publicar pelo menos um conto por ano. Minhas histórias já apareceram em livros e revistas de 11 países, entre eles, Argentina, China, Cuba, França, Grécia, Portugal, República Checa e Rússia. Já publiquei mais de vinte livros, contando as antologias que organizei e algumas histórias que apareceram como livros virtuais para Kindle, e mais de setenta histórias em vários formatos e veículos.

Também colaborei com a área de cultura da Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e Jornal da Tarde, e das revistas Cult, Isaac Asimov Magazine, Dragão Brasil, Ciência Hoje, Livro Aberto (onde mantive uma coluna sobre FC e fantasia), Locus (dos EUA) e Quark, entre outras. Tenho uma coluna sobre o assunto no Terra Magazine, a revista eletrônica do Portal Terra.

2) Porque escolheu o gênero ficção científica, que historicamente sempre foi considerado menor na literatura?

Justamente por discordar dessa opinião. É preciso enfrentar esse tipo de preconceito escrevendo e produzindo material de qualidade. A ficção científica é um gênero privilegiado para se discutir a realidade em que vivemos, de maneira crítica e levando em conta a ciência e a tecnologia, hoje os condicionais mais fortes das mudanças sociais e políticas. Ao mesmo tempo é uma literatura que fornece um senso do maravilhoso e que faz a gente olhar para situações que vão além do imediato – o universo, o futuro distante, outras possibilidades de existência.

3) Quais foram as principais influências que ajudaram a criar o plot de Glória Sombria?

No romance, o herói Jonas Peregrino enfrenta enxames de naves robôs dos alienígenas conhecidos como tadais. Essa ideia acho que tirei da série alemã Perry Rhodan, que existe desde 1961 e da qual sou fã de carteirinha. Hoje ela parece mais atual do que nunca com os drones americanos de ataque, hoje teleguiados mas com planos para operarem sozinhos no futuro, uma possibilidade assustadora.

No livro Peregrino deve montar uma unidade de operações especiais para evitar que aliens exterminem os habitantes também alienígenas de um planeta duplo. A doutrina dessa unidade militar foi baseada no livro Spec Ops: Case Studies in Special Operations Warfare, de William McRaven, o sujeito que planejou a operação que assassinou o líder da al-Qaeda, Osama bin Laden. Eu certamente li outros livros de história militar, e um punhado de livros recentes de space opera militar de Jack Campbell, Karen Traviss e David Weber, por exemplo, para ter uma ideia das tendências atuais. Mas também para saber do que eu discordo e que desejo abordar na série escrevendo contra – a naturalização do genocídio, por exemplo. Um livro que nos lembra do quão terrível é esse crime, é o romance O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Card, certamente uma influência positiva. Outra, na mesma linha, é o romance de ficção militar de Anton Myrer, Uma Vez uma Águia (1968), um dos meus favoritos. Dele vem a obrigação de tratar de pessoas que sentem as consequências da guerra e dos seus próprios atos.

4) Até que ponto esse fenômeno crossmedia é positivo para a ficção científica?

Glória Sombria faz parte de uma série de narrativas que já existe há algum tempo, como noveletas e contos em revistas e antologias. O artista Vagner Vargas, fundador da Aquart Creative, montou o site GalAxis: Conflito e Intriga no Século 25 para divulgar o projeto e veicular conteúdos exclusivos. Também já existe um pôster com a capa do livro, e estudamos outros produtos para o futuro, como jogos e quadrinhos.

A ficção científica é o gênero narrativo que domina hoje o cinema, a indústria dos games e as HQs. Funciona assim porque a FC é muito visual e de reconhecimento imediato. Essa perspectiva é bem menos exercitada porque exige recursos que não estão disponíveis e porque o material estrangeiro ocupa todos os espaços. Mas nós estamos dispostos a pelo menos ensaiar alguma coisa nesse sentido.

5) Como anda o mercado de ficção científica/fantasia no Brasil?

Houve uma explosão editorial neste começo de século, como nunca vista antes na história local desses gêneros. Especialmente a fantasia, é claro, e a fantasia para jovens em particular.
A ficção científica segue atrás, mas também tem crescido. Autores brasileiros, novos ou veteranos, não encontram grandes dificuldades para publicar. Aos poucos, o mercado também vai se profissionalizando, com sucessos de vendas e autores que estão até sendo publicados no exterior – como Eduardo Spohr e Jacques Barcia. Acho que é um bom momento para apostar em um projeto de ficção científica de características marcantes e dentro de um universo ficcional que pretende se alongar por um tempo e em vários formatos.

 

Papo de Quadrinho é um blog da Revista O Grito!. Todos os direitos reservados. © 2013–2019