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Justiceiro é a melhor série da Marvel-Netflix desde Demolidor

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Depois de algum suspense quanto à data de estreia, a primeira temporada de Justiceiro (The Punisher) finalmente desembarcou na Netflix na última sexta-feira (17).

É a sétima produção conjunta da plataforma de vídeos em parceria com a Marvel e uma das melhores até agora.

Jessica Jones (2015) e Luke Cage (2016) começaram bem, mas cansaram depois da primeira metade. Punho de Ferro (2017) nem isso: mal sobreviveu aos três primeiros episódios – e o fato de a série ser comandada pelo mesmo showrunner de Inumanos, Scott Buck, diz muita coisa a esse respeito.

Defensores, que uniu os quatro heróis urbanos, não é de todo má, mas ficou muito aquém do que poderia ter rendido.

A primeira temporada de Demolidor continua imbatível, com sua violência crua e bom desenvolvimento (sem contar o elemento surpresa), enquanto a segunda foi praticamente salva pela subtrama envolvendo… o Justiceiro!

Marvel's The Punisher

E é justamente nesta posição que a série solo de Frank Castle se posiciona no ranking das melhores produções da Marvel-Netflix até agora: entre a primeira e a segunda temporada de Demolidor.

A trama é bem desenvolvida ao longo dos 13 episódios, sem cansar o espectador nem acelerar em direção ao desfecho. Mesmo as subtramas, como a do jovem que voltou traumatizado do Afeganistão ou a do veterano que montou um grupo de apoio para ex-soldados, trabalham a favor da trama principal.

Justiceiro começa com Frank Castle (Jon Bernthal) ainda limpando a área (eufemismo para exterminando) do que restou dos assassinos de sua família.

Feito isso, ele se transforma num homem sem propósito, um soldado sem missão. Mas como a jornada de todo herói, fatores externos tiram Frank Castle de sua catarse e o jogam no olho do furacão. Pior: ele descobre que no caso da morte de sua mulher e filhos, o buraco é mais embaixo – ou melhor, nas camadas mais acima da hierarquia governamental.

O responsável por essa reviravolta é David Lieberman (o ótimo Ebon Moss-Bachrach), vulgo Micro, um ex-analista da Agência Nacional de Segurança que precisa se fingir de morto para garantir a segurança de sua família. Ele sabe que seus inimigos são os mesmos de Castle e acredita que o ex-fuzileiro é um meio essencial para atingir seus fins.

O difícil é convencer Castle disso, e o rodízio de papéis entre caça e caçador que se forma, a dinâmica entre interesse, identificação e, finalmente, amizade entre eles é uma das melhores coisas de Justiceiro.

Marvel's The Punisher

Pode ser que a série desaponte alguns fãs que esperavam 13 horas de banho de sangue. Sim, há cenas de violência típica dos quadrinhos do anti-herói – algumas bem pesadas – mas o que a série tem de melhor é a forma como desenvolve os personagens e as relações entre eles.

E isso se estende para todo o elenco, da agente da Departamento de Segurança Nacional, Dinah Madami (Amber Rose Revah), até o ex-fuzileiro Billy Russo (Ben Barnes).

A forma como Russo evolui de melhor amigo de Frank Castle a algo mais parecido com sua contraparte nos quadrinhos é primorosa, e boa dose do mérito é de Barnes, que consegue construir um personagem com numerosas camadas.

As aparições de Karen Page são pontuais e certeiras, e a atriz Deborah Ann Woll está cada vez mais à vontade com a personagem.

Se no geral Justiceiro já entrega um produto bom muito, há momentos que são dignos de nota. O 10º episódio é um primor de narrativa, com o recurso de um mesmo fato contado sob diferentes perspectivas, e o 12º não só é um dos mais cruéis como também serve para definir o momento em que Frank Castle aceita em sua alma e em seu coração o encargo do Justiceiro.

Será muito bom se Justiceiro servir de exemplo para as próximas produções da Marvel-Netflix. Os fãs agradecem.

Crítica: Star Wars Episódio VII – O Despertar da Força

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Em respeito ao leitor, nossa crítica não tem SPOILERS

Por Társis Salvatore

Star Wars é a franquia mais importante da cultura pop. Foi essa ópera espacial que mudou o cinema e a forma de fazer cinema. Avançou em diversas mídias, como quadrinhos, livros e videogames. E o mais importante: Star Wars cravou personagens e ideias que estão imortalizados no imaginário popular.

Por isso, quando a Disney adquiriu a Lucasfilm, o anúncio de uma nova trilogia a partir de Star Wars – The Return of the Jedi explodiu a cabeça de milhões de fãs de todas as idades.

Como seria a continuação? Os atores originais estariam presentes? Quem iria dirigir? Será que depois do prelúdio, voltaríamos a assistir a um bom filme?

Não é exagero dizer que, embora tenham tido êxito comercial, Episode I: The Phantom Menace (1999), Episode II: Attack of the Clones (2002) e Episode III: Revenge of the Sith (2005) decepcionaram a maioria dos fãs, com sua ênfase nos efeitos especiais em detrimento às boas atuações e narrativas coesas.

Anunciados o diretor do novo filme (J.J.Abrams) e o elenco, com uma mistura de atores da trilogia clássica (Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Mayhew) e jovens talentos não tão conhecidos do grande público (Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, entre outros) a sensação de que as respostas seriam satisfatórias aumentou.

Assim, com grande expectativa e euforia, estreou nos cinemas, batendo recordes, Star Wars – The Force Awakens, narrando os acontecimentos trinta anos depois do episódio VI.

Finalmente, depois de três filmes frustrantes que fugiam ao espírito da trilogia clássica, temos um filme digno da marca Star Wars.

Mérito dos produtores, que criaram um ambiente real, sem focar apenas em efeitos especiais. Mérito do diretor J.J. Abrams, que fez o que o criador George Lucas não conseguiu com seu prequel: tirar o melhor de seus atores, equilibrar boas atuações e história emocionante, resgatar de forma precisa a nostalgia e beleza que o universo de Star Wars criou décadas atrás.

Mérito também dos novos personagens incríveis da saga, como os protagonistas Rey (Daisy Ridley), Finn (John Boyega) e Kylo Ren (Adam Driver). Todos com carisma suficiente para abrir seu próprio espaço no panteão de grandes heróis e vilões de Star Wars.

Embora o roteiro tenha pontos obscuros – que devem ser preenchidos em outras mídias bem ao estilo Universo Expandido – a história convence e leva os fãs a uma jornada para desvendar os mistérios da Força e da Primeira Ordem, grupo que pretende seguir os passos do destronado Império galáctico.

É uma nova fase, que pretende trilhar o sucesso da trilogia clássica, ou no mínimo, se aproximar dela.

Star Wars – The Force Awakens convence, emociona e diverte. Não fica preso ao passado, mas reverencia o clima e a estética que fizeram de Star Wars a marca número um da Cultura Pop. É comprar a pipoca e curtir o momento. A Força está conosco, mais uma vez.

Crítica: “Jessica Jones” (com spoilers)

A esta altura, quem aderiu ao espírito de “maratona” já terminou de assistir aos 13 episódios da primeira temporada de Jessica Jones, que estreou na Netflix na última sexta-feira (20).

Antes desse dia, deixamos aqui nossa impressão dos 7 primeiros episódios com informações que não estragavam a surpresa. O texto que segue agora contém spoilers; então, se você ainda não assistiu a toda a série, é melhor voltar em outra hora.

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Jessica Jones alarga a via aberta por Demolidor: é ainda mais adulta, realista e violenta.

Na essência, a série trata do Poder. Não no sentido de força ou superpoder. As habilidades sobre-humanas de Jessica são um mero acessório na trama – o que não deixa de ser uma opção interessante da showrunner Melissa Rosenbenrg em se tratando, em tese, de um programa de super-heróis.

Poder, aqui, é no sentido de Controle, de quem está no comando, quem dá as cartas. Isso se manifesta na constante troca de papéis entre dominador e dominado que alimenta o jogo de gato-e-rato de Jessica (Krysten Ritter) e seu adversário Kilgrave (David Tennant).

É explorado também nos abusos cometidos pela mãe da então celebridade mirim Trish Walker e até mesmo nas cenas de sexo entre Jessica e Luke Cage (Mike Colter) e Trish (Rachel Taylor) e Will Simpson (Wil Traval).

A questão do Poder é tão relevante que, na reta final, a prioridade de Kilgrave é aumentar suas capacidades mentais não para dominar o mundo, como faria qualquer vilão clichê, mas para recuperar o controle perdido sobre Jessica.

O impacto do embate final está no empate: naquele momento, nem Jessica nem Kilgrave nem o espectador sabem quem está realmente no comando.

Mais ação

A série dá uma guinada a partir dos primeiros 7 episódios liberados para a imprensa pela Netflix. Se na primeira metade da temporada o confronto é predominantemente cerebral, a segunda ganha mais cenas de ação – como nas lutas de Jessica com Simpson (que finalmente se revela o psicopata Bazuca dos quadrinhos) e o descontrolado Luke Cage. Até mesmo contra Kilgrave o confronto se torna presencial, tátil.

É aí que Jessica Jones perde um pouco de sua força. Não que seja culpa do roteiro ou da atuação de Tennant, muito pelo contrário. O fato é que Kilgrave era um vilão mais assustador enquanto sujeito oculto, que manipulava nas sombras e conduzia Jessica por um labirinto de sangue.

Os melhores momentos da segunda metade da temporada se dão quando o vilão é apresentado em toda sua magnitude. Assim como no Wilson Fisk de Demolidor, o roteiro acerta ao fazer de Kilgrave um vilão multidimensional.

Nos flashbacks do abuso que sofreu na infância, nos momentos em que transpira sinceridade e até quando se mostra capaz de um ato heroico, é impossível não torcer pela felicidade do casal.

Num momento de fragilidade, ele dá a entender que seu poder é ao mesmo tempo um dom e uma maldição: “Eu preciso tomar cuidado o tempo todo com o que eu falo. Uma vez mandei um cara se ferrar. Adivinhe o que aconteceu?”.

Final convencional

O maior senão de Jessica Jones é o final convencional. Numa série com tantas qualidades que a destacam dentro do gênero, o desfecho “herói derrota o vilão” deixa a desejar. Matar Kilgrave é não só óbvio demais, mas também desperdício de um personagem que teria muito a render na mitologia que Marvel e Netflix estão construindo.

Jessica, por sua vez, está mais viva que nunca. Há uma semana, era uma personagem conhecida apenas pelos leitores de quadrinhos – nem todos, diga-se. Treze episódios depois, conquistou seu espaço na galeria de heróis urbanos da Marvel e no coração dos fãs.

Vai deixar saudade. Quem sabe ela retribua a gentileza e faça uma participação especial na série de Luke Cage, prevista para abril. Do contrário, só voltaremos a vê-la em Defensores, ainda sem data de estreia.

Crítica: “Vingadores – Era de Ultron” tinha a obrigação de ser melhor

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Em respeito aos leitores do blog, o texto abaixo não traz spoilers

Dizem que em time que está ganhando não se mexe. Isso pode ser válido em algumas situações; noutras, é o primeiro passo para a acomodação e o fracasso. Infelizmente, é esta parte do ditado que se aplica a Vingadores – Era de Ultron, que estreia nos cinemas brasileiros amanhã (23), uma semana antes que nos Estados Unidos.

A Marvel decidiu não mexer na fórmula vencedora do primeiro filme, de 2012, e a repetiu – mas sem o mesmo frescor. Dizer que Era de Ultron é “mais do mesmo” é uma meia verdade. Apesar do clima “pipoca”, o roteiro do primeiro Os Vingadores foi competente em construir a equipe e teve a preocupação básica de criar elementos narrativos para justificar a ação dos personagens.

Nesta sequência, o roteiro não é apenas raso, é plano. Não tem reviravoltas nem turning point (como a “morte” do agente Coulson, no primeiro) ou um clímax que não dependa da pura ação. Em algumas passagens, a trama resvala para o sentimentalismo piegas e toma tantos atalhos para solucionar conflitos que soa ilógica.

Era de Ultron mostra uma equipe afinada logo na primeira cena de ação. Pelo menos para os fãs de quadrinhos, são em momentos como este que o filme cresce. Cresce também na interação entre os personagens e nas piadas bem colocadas – em menor número que no filme anterior.

Ainda é legal ver o Capitão América lançar o escudo, e Thor, o martelo, mas os fãs já se acostumaram a isso. A comentada luta de Hulk contra Homem de Ferro na armadura Hulkbuster é de encher os olhos, mas não o suficiente para superar os demais problemas.

Era de Ultron é o ápice da Fase 2 e tinha potencial, e a obrigação, de levar o universo cinematográfico da Marvel a um novo patamar. Não foi o caso. O filme não faz justiça à sua importância estratégica nem ao seu papel de preparar a nova fase. Não causa impacto, não provoca ruptura, não emociona e pouco diverte.

Se o nível de exigência é elevado, isso se deve á própria Marvel, não só pelo primeiro filme dos Vingadores – que chamamos neste mesmo espaço de “O melhor filme de super-heróis de todos os tempos” – mas também por Capitão América 2 – O Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia, estes, sim, exemplos da ousadia que o estúdio vinha demonstrando até agora.

É bastante provável que Era de Ultron seja um enorme sucesso comercial. O filme deve alcançar, e até mesmo ultrapassar, o US$ 1,5 bilhão de bilheteria do seu antecessor. Que isso não seja motivo para a Marvel se acomodar. O estúdio já provou que sabe fazer mais e melhor.

Crítica: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

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Atenção: contém doses leves de spoilers

A decisão do diretor Bryan Singer de unir duas gerações de heróis mutantes do cinema – os da primeira trilogia e os da franquia iniciada em 2011 em X-Men: Primeira Classe – foi, no mínimo, inusitada. E acertada, como os fãs poderão comprovar nesta sequência que entrou em cartaz na última sexta-feira (23) no Brasil.

O roteiro é adaptado da HQ homônima produzida por Chris Claremont e John Byrne nos anos 1980: num futuro sombrio dominado por robôs caçadores de mutantes, os Sentinelas, os poucos sobreviventes dos X-Men mandam um dos seus integrantes ao passado a fim de remodelar a História.

Neste futuro estão os personagens mais conhecidos do público – as versões mais velhas do Professor Xavier (Patrick Stewart), Tempestade, Homem de Gelo, Kitty Pride, Colossus e Magneto (Ian McKellen) – e também alguns rostos novos: Bishop, Blink, Mancha Solar e Apache.

É a época em que têm lugar as melhores cenas de ação. As batalhas contra os Sentinelas, avançadas máquinas de extermínio capazes de replicar qualquer poder mutante, são pura narrativa de quadrinhos.

No passado, vive o que sobrou do elenco de Primeira Classe: a versão jovem de Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender), Fera e Mística. Aqui fica concentrada a parte mais dramática do filme. A pouca ação é compensada pela breve, porém marcante, participação do velocista Mercúrio.

Hugh Jackman é o único ator a interpretar o mesmo personagem, Wolverine, nas épocas distintas. É ele quem faz a viagem mental no tempo e tem a missão de impedir o assassinato que vai desencadear a supremacia dos Sentinelas.

Uma vez que a trama se desenrola quase toda no passado, o resultado de Dias de um Futuro Esquecido é muito mais um drama sobre pessoas do que uma aventura de super-heróis.

Mudança de foco

Pela primeira vez, um filme dos X-Men não coloca a intolerância como tema principal. Claro, a questão continua lá; a criação dos Sentinelas pelo cientista Bolivar Trask (Peter Drinklage) e sua aceitação por parte do governo têm como base o preconceito contra os mutantes e o temor de que venham a se tornar a raça dominante.

Mas X-Men: Dias de um Futuro Esquecido prefere concentrar-se numa questão mais humana: as escolhas que pessoas fazem todos os dias, e que modelam seu futuro e o de outras. Os protagonistas – Wolverine, Xavier, Magneto e Mística – precisam fazer suas escolhas, e sobre esta última recai a maior responsabilidade em relação ao futuro.

Paradoxo

Viagens no tempo sempre criam paradoxos. Ao final, muitos fãs podem se perguntar quanto da trilogia anterior ainda vale, o que se repetiu e o que deixou de acontecer na nova linha temporal.

Esse parece um nó difícil de desatar, e é provável que não se resolva. Ao corrigir o futuro, Bryan Singer aproveitou para consertar também a cronologia dos X-Men no cinema. Não foi 100% bem sucedido, mas amarrou algumas pontas soltas.

Ao que tudo indica, o diretor passa agora a olhar para frente e não deve investir mais energia em questões antigas. A cena pós-credito confirma o que ele revelou meses atrás: o próximo filme da franquia terá como focos o vilão Apocalipse e a origem da raça mutante.

A nova aventura dos X-Men no cinema deve agradar e desagradar partes iguais de fãs. Nesta última categoria estão os desapontados com a ação comedida, os que não aceitam as mudanças em relação à HQ original ou os que se incomodam com o protagonismo de Wolverine.

Bobagem. Dias de um Futuro Esquecido é um filmaço. Está mais alinhado com Primeira Classe do que com a primeira trilogia, tanto em termos de densidade do roteiro, quanto nas pequenas doses de humor. Mais alinhado com a proposta de Capitão América 2 – O Soldado Invernal do que com a de Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro. E isso diz muito sobre o tipo de fã que deseja agradar.

Crítica: “Minutemen” é uma dos melhores HQs da série Antes de Watchmen

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Esta edição conclui a publicação Antes de Watchmen no Brasil. Pena que ficou para o final. Muitos leitores que abandonaram a coleção no meio do caminho podem não ter a oportunidade de chegar a um dos melhores volumes.

Pela mediocridade da série como um todo (com exceção do brilhante Doutor Manhattan), o trabalho de Darwyn Cooke se destaca. E não é só porque seu traço cartunesco encaixa-se perfeitamente em histórias de época (vide DC: A Nova Fronteira e The Spirit).

Antes de Watchmen: Minutemen é uma tentativa honesta e esforçada de criar a mitologia dos primeiros heróis mascarados do universo de Watchmen. A trama é narrada por Hollis Mason, o Coruja original, no que seria a primeira versão de seu livro “Sob o Capuz”.

O relato funciona como uma confissão dos pecados que Hollis acredita ter cometido. Expõe muito mais erros seus e de seus colegas do que é evidenciado em Watchmen.

A pressão dos amigos, a consciência de que pode prejudicar inocentes e a revelação de uma “verdade” por ele desconhecida faz com que mude de ideia e refaça seu livro, chegando à versão que ficou conhecida.

Cooke incorre no mesmo erro de seus colegas roteiristas: explica ou amplia fatos insinuados por Alan Moore e Dave Gibbons na obra original. Como dissemos lá atrás, na crítica de Antes de Watchmen: Coruja, explicar uma piada faz com que ela perca a graça.

A favor do autor conta seu esforço em criar um background completo e complexo dos Minutemen.

Conta, também, seu domínio da narrativa, com vários planos sequência, a repetição de elementos gráficos em diferentes quadrinhos – recurso bastante visto em Watchmen –, a narração simultânea de momentos distintos que convergem adiante, o uso de muitas técnicas de desenho para contar a história.

O problema é que, nessa tentativa, Cooke inventou situações que vão na contramão de Watchmen, como, por exemplo, a revelação do verdadeiro assassino do Justiça Encapuzada.

Antes de Watchmen: Minutemen também pode ser lido como uma metáfora da Era de Ouro dos quadrinhos. Por trás das páginas coloridas e heróis de colantes berrantes, havia toda uma indústria mentirosa e exploradora.

Por suas muitas qualidades e também pelos muitos defeitos dos anteriores, este último volume é um dos melhores da série – perde apenas para o já citado Doutor Manhattan, em que J.M. Straczynski pensou literalmente “fora da caixa”.

Leia as críticas anteriores:

Coruja

Espectral

Rorschach

Doutor Manhattan

Comediante

Ozymandias

Dollar Bill & Molloch

Crítica: “Marvel Comics – A História Secreta”: Ídolos com pés de barro

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Os cidadãos não poderiam dormir tranqüilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis. A frase e suas muitas variações são atribuídas ao primeiro chanceler alemão, Otto Von Bismark.

Depois de ler Marvel Comics: A História Secreta, de Sean Howe, é grande a tentação de incluir mais um elemento à frase original: Os cidadãos não poderiam dormir tranqüilos se soubessem como são feitas as salsichas, as leis e as histórias em quadrinhos.

O livro de Howe faz uma radiografia da Marvel, maior editora de quadrinhos de super-heróis do mundo, desde sua gênese no final dos anos 1930 até próximo aos dias atuais.

Ao longo das páginas, o autor vai destruindo mitos. Um exemplo é a imagem lúdica do Bullpen, apelido carinhoso dado por Stan Lee à redação da Marvel nos anos 1960.

Lee perpetuou a ideia de uma sala animada, cheia de gente criativa e boa praça. Nada disso! Segundo Howe, era mais um conjunto de freelancers trabalhando nos próprios estúdios ou nos porões de suas casas, que apareciam na Marvel vez ou outra para entregar as páginas desenhadas.

E por aí vai. Nos anos 1970, à medida que os medalhões – Lee, Kirby, Ditko – saíram da editora ou se afastaram do o dia a dia, a redação foi tomada por guetos que se autoprotegiam para publicarem o que bem entendessem.

Revistas e personagens viraram instrumentos de crenças pessoais e vinganças mesquinhas. As puxadas de tapete eram uma constante. Tempos depois, a mão de ferro do editor-chefe Jim Shooter foi um mal necessário. Mas até ele sucumbiu à egolatria a partir do sucesso da saga Guerras Secretas.

Passa a impressão que Howe selecionou os piores trechos das numerosas entrevistas que realizou. Não há motivos para duvidar da seriedade de sua pesquisa nem de suas boas intenções. Em entrevista à revista Mundo dos Super-Heróis, o autor declara-se um fã da Marvel e coloca a paixão por gibis como motivação para escrever a obra.

Não é culpa Howe se nossos ídolos têm pés de barro.

A escrita fica um pouco corrida no final. Enquanto são dedicadas muitas páginas para tentar explicar as manobras que salvaram a Marvel da falência nos anos 1990, a recente compra pela Disney – um negócio de mais de US$ 4 bilhões – recebe pouquíssima atenção.

Nada disso tira o brilho do complexo trabalho de Sean Howe. Marvel Comics – A História Secreta é daqueles livros que não dá para parar de ler, e material indispensável tanto para fãs quanto para profissionais e pesquisadores.

O livro é um adorável tijolo com 560 páginas e preço de R$ 49,90. Vale o investimento de tempo e dinheiro.

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