Sonia Luyten é a maior especialista brasileira em mangás. Mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, tem mais de três décadas dedicadas ao estudo, docência e pesquisa dos quadrinhos no Brasil, Oriente e Europa. É autora de vários artigos e livros sobre o tema, com destaque para o livro: “Mangá: o poder dos Quadrinhos Japoneses”.

Sônia responde as 5 Perguntas do Papo de Quadrinho:

1) Quem foi o grande responsável pelo interesse dos jovens nos animes e mangás no Brasil? Existe algum marco: filme, desenho ou gibi?
Embora já houvesse algumas publicações de mangá e algumas TVs  mostrando animes no Brasil, o grande boom aconteceu de forma global (e o Brasil entrou neste contexto no final dos anos 1990), com Cavaleiros do Zodíaco, e a Cultura Pop japonesa – como um todo – passou a fazer parte do universo dos jovens brasileiros. Algumas editoras comerciais como a Conrad, JBC e Panini iniciaram a tradução e publicação de mangás que já haviam sido sucesso no Japão. Isto somou-se à febre dos animes, concursos de cosplays e os megaencontros em todo Brasil.

2) A que você atribui esse interesse dos jovens brasileiros pelo mangá, em vez dos tradicionais super-heróis Marvel/DC?
Os motivos são vários. Em primeiro lugar, sempre houve um vazio editorial para o segmento dos adolescentes, que era preenchido com publicações estrangeiras. O Mauricio de Sousa, hoje em dia, faz sucesso com a Turma da Mônica Jovem exatamente por sua boa qualidade e deu continuidade aos fãs fiéis da infância.
Outro fator foi a globalização da Cultura Pop japonesa que – com a difusão pela internet – entrou de cheio no Brasil. Estes jovens, mais do que depressa, passaram a “ver” o que estava acontecendo no mundo. No final dos anos 1990 e início do novo milênio, os super heróis americanos já estavam desgastados. O mangá e anime entraram no gosto do jovem brasileiro (e também de outras partes do mundo) em função de vários fatores: os heróis não são eternos. Eles duram enquanto são publicados. A indústria japonesa sabe fazer seu marketing e eles estão presentes em todo lugar – merchandising, objetos, itens de coleção etc. Os heróis japoneses também são mais humanos. Eles sofrem, são persistentes e lutam por seu ideal. Tem muito a ver com a cultura oriental, de origem confucionista. Por fim, a estética do mangá e anime é muito atraente, vibrante e entrou no gosto internacional.

3) O sucesso comercial de Turma da Mônica Jovem no estilo mangá é uma prova de que para se ter sucesso editorial aqui no Brasil é preciso pensar em desenhar nesse estilo?
Não necessariamente. Não sou contra o desenho em estilo mangá pois o mangá não é propriedade do Japão. Sempre digo que a arte não tem fronteiras.
Os japoneses, no início de sua produção, copiaram o modelo ocidental. Logo perceberam que tanto o conteúdo como o desenho não iam ao encontro do gosto japonês. O próprio criador da palavra mangá, o famoso xilogravurista Hokusai, teve muita influência da Europa, dos gravuristas holandeses.
Acredito que, no Brasil, muitos jovens gostam de fazer HQ  em estilo mangá. Mas não basta. É preciso ter um bom roteiro. Com um bom roteiro pode-se fazer histórias em qualquer estilo. Temos, portanto, que olhar para dentro, procurar algo que o público se identifique. E não ter vergonha de nós mesmos: tanto no estilo como no roteiro. Os japoneses conseguiram isto. Por que não a gente?

4) Os tablets afetam (ou não) o mercado de mangás?
Nenhum meio de comunicação ou inovação tecnológica atrapalha o outro. Com o advento do rádio, o jornal impresso modificou-se, com o advento da TV, o rádio idem. Com a internet, os outros meios de comunicação adaptaram-se a ela. Os tablets vieram para somar e não atrapalhar.

5) Quando nós editores do Papo de Quadrinho conhecemos o mangá, havia basicamente o Akira, o Lobo Solitário, além de uma minissérie, Crying Freeman. Hoje existem centenas de mangás nas bancas brasileiras. Como escolher um entre tantas opções? Você tem alguma dica para facilitar a vida de quem não conhece os títulos e inúmeros subgêneros do mangá?
Se alguém quer se iniciar no mundo dos mangás, deve começar com Osamu Tezuka. Tem várias histórias deles traduzidas no Brasil e também sua vida e obra (da Conrad, da qual fiz a introdução).
Uma obra belíssima é Buda. Vale a pena ler, recomendado para todas as idades.
O básico para anime é também Tezuka (Astro Boy) e  Miyazaki, com inúmeros títulos: La PiutaA viagem de Chihiro, Naushika e Totoro.
No Brasil, editorialmente, não há um segmento definido para o público masculino e feminino como no Japão, mas pode-se escolher entre Sakurai, Dragonball, Samurai X, Death Note (que foi muito bem adaptado no Brasil para uma peça de teatro) Naruto e One Piece.
Para um público mais cult recomendo o mangá Mulheres, de Yoshihiro Tatsumi. Ele inventou o termo “gekigá”, que significa drama (geki) ilustrado (gá), para designar uma nova maneira de se fazer mangá, com temas adultos, desconcertantes e até cruéis. Fiz também a introdução deste belíssmo exemplar falando de Tatsumi e a retratação das mulheres numa época de pobreza no Japão.