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Papo de Quadrinho — O Grito! Blogs – Quadrinhos

Categoria: Artigo

Papo de Quadrinho visitou: Forbidden Planet UK

Imagine um lugar onde é possível encontrar action-figures e afins de todas as franquias famosas da cultura pop, com ênfase nas novidades, mas sem esquecer os clássicos. Imagine que, nesse mesmo lugar, é possível encontrar quadrinhos, mangás e livros de todos os tipos, de todas as editoras, desde os mainstream até os  independentes (incluindo alguns brasileiros). Por fim, nesse mesmo (grande) espaço, encontramos acessórios, estatuetas, brinquedos, merchandising de games, de animações, de séries, camisetas (acompanhe nosso vídeo acima, com mais detalhes mostrando a loja).

Sim, queridos leitores, esse lugar mágico existe. Ele se chama Forbidden Planet, uma loja dos sonhos para qualquer nerd e demais amantes de cultura pop.

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O verdadeiro templo da perdição

Fundada em 1975, a loja está localizada numa grande área – térreo e subsolo – em 179 Shaftesbury Ave, próximo ao metrô Tottenham Court Road Station, na região central de Londres. Para se ter uma ideia do poderio, a rede Forbidden Planet possui dezesseis lojas espalhadas pelo Reino Unido e uma nos Estados Unidos.

Embora o Brasil tenha boas lojas de quadrinhos e o mercado venha crescendo nos últimos anos, não é exagero dizer que nada se compara à Forbidden Planet.

Passado o choque de descobrir uma loja com essa magnitude, trocamos o desejo de comprar TUDO o que havia ali por esse breve registro do que mais nos chamou a atenção.

De cara, temos que destacar que a loja aproveita as febres do momento, e nada por aqui chama mais atenção do que Star Wars (vídeo). No primeiro andar, área dos action figures, há vitrines enormes com a franquia.

Entre os modelos, a febre são os Pop Vynil da Funko, que estão em todas as outras lojas, mas, aqui, ganham destaque. Há, claro, outras figuras de ação bacanas…

Clássicos como esse podem ser econtrados

Clássicos como esse podem ser econtrados

Bem como figuras de ação mais novas

Figuras de ação mais novas, baseadas em filmes

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Releituras do passado como essa de ‘Bátima e a Feira da Fruta’

Figuras de heróis que estão bombando nos quadrinhos atualmente

Figuras com os heróis  e heroínas que estão bombando nos quadrinhos agora

E outros brinquedos e camisetas também, tudo ambientado em um cenário adequado e que evoca o que há de melhor na cultura pop, sobretudo na ficção científica. São as mais variadas franquias das séries de TV, cinema e quadrinhos. 

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Kit revolução, criado na Inglaterra e exportado para o mundo todo

Essa nave ENORME fica na entrada para o andar dos quadrinhos e livros

Essa nave linda é ENORME (arrisco dizer uns 3 metros) e fica na entrada para o subsolo.

No subsolo fica a área de quadrinhos. É possível se perder lá entro. Ampla e repleta de objetos do desejo, vale destacar as vitrines especiais de quadrinhos, livros e afins para todos os gostos, divididas por gêneros: infantil, adulto, adolescente, independentes, autores, mangás etc. Há vitrines especiais para alguns gêneros como steampunk, clássicos, sci-fi e RPG, entre outros.

Ao contrário da Nostalgia & Comics, a loja não tem uma área específica de HQs antigas, dando ênfase aos lançamentos e graphic novels. E vale lembrar que para os ingleses, graphic novel é um eufemismo para gibis encadernados. E aqui tudo que é lançado em revistas avulsas (com 22 páginas e capa simples), será encadernado posteriormente em arcos fechados.

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Tem muita HQ independentes!

Manga

Área de mangá é bem servida, com trabalhos atuais e clássicos

Uma área destacando autores famosos em coleções especiais

Uma área destacando autores famosos e suas coleções especiais

Tem brasileiro em destaque

Tem brasileiro em destaque, sim!

Para quem tem curiosidade sobre questões de gênero, no momento em que essa discussão está tão em voga no Brasil, vale destacar que a maioria dos atendentes da área de quadrinhos é de mulheres que entendem do riscado.

O prédio tem amplo acesso tranquilo para cadeirantes e só não é mais espaçoso porque a loja abarrota nos finais de semana de gente das mais diferentes nacionalidades.

Acesso especial para leitores especiais

Acesso especial para leitores especiais

Encerramos o passeio com uma sensação óbvia de incompletude, levando poucos produtos e chorando lágrimas de sangue pelo que não deu para comprar ou levar. Além da histórica falta de grana, há o problema de transportar tudo para o Brasil, ou seja, ficamos babando mas comprar mesmo…

Os preços dos produtos são semelhantes aos de outras lojas do gênero, com algumas promoções e, claro, um pouco maiores nas action figures que são lançamento.

Para os padrões locais, os valores são acessíveis até para quem não é tão abonado, bem diferente do Brasil. Mas se uma ilha pode ter tanto público consumidor e um lugar tão bacana, quem sabe um dia um país de proporções continentais como o nosso não chega lá?

Fica nossa reflexão e mais uma dica de lugar obrigatório para se visitar quando estiver em viagem pelo Reino Unido.

Artigo: Cueca por baixo das calças

por Társis Salvatore, Editor do Papo de Quadrinho

Quando comecei a ler quadrinhos de super-heróis o mundo era bem diferente do que é hoje.

Sei que alguns vão achar que é mentira, mas não existia internet. Videogames, hoje a maior indústria de entretenimento mundial, mal haviam chegado ao Brasil em suas versões pixealizadas.
Restava para um jovem C.D.F (o termo “nerd” não era consolidado) como eu, comprar seu “gibizinho”, jogar bola ou taco na rua, e ver alguma série (dublada) de TV nos cinco ou seis canais de TV que haviam na época.
Era o início do ano de 1987 e eu tinha 12 anos.

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Adquiri o gibi Super-Homem nº 31 – sim, Superman é um termo recente – por módicos Cz$ 7,00, a moeda vigente da época, uma dentre as várias que tivemos antes do real. O amaldiçoado formatinho predominava nas bancas de jornal. O papel de revista de linha era ruim e as cores chapadas. O anúncio da penúltima página era do Rádio Orelinha com uma jovem modelo adolescente chamada Suzy Rêgo.

O gibi do Super-Homem em questão trazia uma novidade que era o novo Brainiac, uma renovação de visual que o deixava alinhado à segunda temporada do desenho dos Superamigos que passava na TV. O argumento da história era de Marv Wolfman e arte de Gil Kane. Na sequencia do gibi, havia a Legião dos Super-heróis com desenhos de Keith Giffen e Paul Levitz. Essa edição também anunciava o que seria um marco da editora, a maxissérie Crise nas Infinitas Terras, que acompanhei logo em seguida e consolidou minha paixão pelos personagens da DC.

Quando eu olho esse gibi na minha coleção e o comparo com o último que comprei esses dias, vejo como a indústria do entretenimento se transformou.

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Se você tem mais de 35 anos e olhar atentamente talvez tenha a mesma impressão.Vivemos um período profícuo e muito interessante nos quadrinhos de super-heróis, ainda que os pessimistas insistam no contrário. A renovação dos super-heróis da DC e da Marvel foram comercialmente bem sucedidas.

A cooptação destes heróis para o cinema e para os games funcionam e atraem cada dia mais fãs. O fenômeno transmídia nas séries de TV, os desenhos animados inspirados nos gibis e outras mudanças apostando no novo, conquistam um público que não se interessa naturalmente por gibis, porque são de uma geração com muitas outras opções: games, tablets, séries, internet como um todo.

Óbvio que nem sempre a indústria acerta. Erros são cometidos, deslizes acontecem. Vão de abordagens ruins, roteiros sem noção, passando pelas distorções exageradas nas concepções de super-heróis consagrados, e escorrem em outras mídias. E como era de se esperar num mundo onde todo mundo pode choramingar, esses problemas as vezes nublam a mente da galera que adora um mimimi. Ainda atrai a ira dos haters, que hoje contam com as mídias sociais para ecoarem sua raiva com a velocidade dos bytes.

Bom, só pra deixar mais dúvidas do que certezas, meu ponto é: quando os produtores devem abandonar o passado, ignorar de ideias consolidadas e começarem uma renovação de seus super-heróis?

Foi pensando nisso que vi que mudar o visual do Brainiac foi um indicativo interessante, deixando de ser um humanoide verde para virar um robô cabeçudo por causa do desenho dos Superamigos.
Essa mudança não me causou nenhuma comoção na época, eu gostava do visual de 1987. Talvez, eu por ter 12 anos. Talvez, por adorar robôs. E hoje, Brainiac voltou a ser um humanoide verde, porque nos quadrinhos – assim como aparentemente na vida – tudo é cíclico.

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Agora a DC anunciou que vai novamente mudar o visual do Superman e fiquei contrariado. Ele já sofreu mudanças recentes de visual. E mais uma vez, a mudança antecede uma nova maxissérie. Vi e achei feio, desnecessário. Daí, no auge da minha indignação nerd, me veio a ideia – mas será que não é uma boa mudar de novo? Será que não vai atrair público, esquentar debates e como quase sempre acontece, a DC vai voltar ao visual mais conhecido e consagrado na memória afetiva dos nerds, logo ali adiante?

Penso também com carinho no Super-Homem e como ele me divertiu, “virou” Superman, mudou de uniforme, de comportamento, morreu, voltou e está ai se renovando e atraindo milhões de fãs. E por algum mistério, mesmo com todas essas mudanças, o Azulão parece que nunca deixou de ser o mesmo.

É com mais dúvidas que certezas que vejo velocidade das mudanças do mundo atual e suas diferenças com 1987. Minha única certeza hoje é que Superman fica muito melhor sem a cueca vermelha por cima das calças.

Artigo: Liderança equivocada

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Por Heitor Pitombo

Artigo publicado originalmente na revista Mundo dos Super-Heróis 65 (março/2015) e reproduzido com autorização do autor e da publicação.

Em 30 de janeiro, enquanto se comemorava o Dia do Quadrinho Nacional, foi lançada no Rio de Janeiro a autointitulada Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos (ABRA-HQ). A cerimônia teve direito a hino nacional (ver vídeo abaixo), entrega de medalhas e tudo o mais. Na ocasião, foram anunciados os nomes de 20 artistas que nomeiam as cadeiras da instituição – incluindo o mestre norte-americano Alex Raymond -, assim como os de 20 “imortais” que as ocupam. Entre eles, alguns colecionadores.

Se não bastasse o fato desses nomes não terem passado por nenhuma votação entre a classe de quadrinhistas brasileiros, a presidente e porta-voz da Academia, a atriz e roteirista Agata Desmond, vem usando habilmente a mídia não especializada para divulgar propostas inócuas e espalhar inverdades sobre o mercado brasileiro, como disse numa entrevista para a Rádio Nacional-RJ: “As histórias em quadrinhos no Brasil tiveram seu auge no tempo da Rio Gráfica, da Ebal, da Vecchi e da Bloch, que foi o último império a cair. Agora, não tem mais editora, ninguém faz nada, os artistas estão desempregados”.

Sim, até os anos 1980, houve muitas redações que mantinham grandes equipes produzindo quadrinhos nacionais para as bancas. Mas a crise que tem abalado o mercado de revistas e jornais nas últimas décadas também se estendeu para as HQs – ainda que o estúdio de Mauricio de Sousa continue firme e forte até hoje. Por outro lado, nunca se produziu tantos quadrinhos no país como nos últimos dez anos. Se o segmento perdeu espaço nas bancas, ganhou um recanto nas livrarias.

Mecanismos como o Catarse, os editais do ProAC e o crescimento dos eventos de quadrinhos Brasil afora têm permitido a circulação e a visibilidade dessa produção – que, aliás, ostenta uma qualidade excepcional. Mestres reverenciados pela Academia, como Edmundo Rodrigues (1935-2012), nunca tiveram seus trabalhos lançados com o requinte gráfico que muitos iniciantes conseguem bancar via crowdfunding.

A família de Edmundo, por sinal, designou Agata para ser curadora de sua obra, e esta não mede esforços para frisar que a ideia da ABRA-HQ foi inspirada em uma vontade do mestre de que seu trabalho fosse preservado, e para colocar o nome do finado desenhista em destaque quando fala de seu projeto para a mídia. Curioso que, em seus últimos anos de vida, Edmundo até demonstrava disposição para falar sobre sua carreira, mas sua família rechaçou diversas tentativas que alguns jornalistas fizeram para entrevistá-lo, muitas delas com o intuito de registrar seu legado para a posteridade.

Outra coisa estarrecedora é como grandes veículos (jornais, rádios e até TVs) reverberaram a notícia da fundação da ABRA-HQ sem fazer nenhuma reflexão e dando vacilos de apuração. Muitos colegas chegaram a escrever absurdos, como fez a jornalista de O Globo On Line, Clarissa Pains, ao dizer numa reportagem publicada em 18 de fevereiro que o Tico-Tico era “uma tira nacional da década de 1940”. Até mesmo a repórter da Globo News, Elisabete Pacheco, numa matéria que foi ao ar em 30 de janeiro, entoou a seguinte pérola: “Hoje os desenhistas só publicam quadrinhos no Brasil graças a vaquinhas feitas na internet” (assista aqui).

Apesar de possuir em sua cúpula membros ativos que defendem que autores como Angeli, Laerte, Glauco e os gêmeos Moon e Bá não têm espaço na Academia – e que sustentam absurdos como o fato do mutante Charles Xavier, dos X-Men, ter sido inspirado no nosso Chico Xavier –, há gente bem intencionada por trás da iniciativa. Todos acreditam estar unidos em um projeto para melhorar as condições de quem produz quadrinhos.

Mas a maioria esmagadora da classe vem se manifestando pela internet e tem repudiado uma entidade que, nesses moldes, não tem condições de liderar e unir a classe em todo o país. O mais correto teria sido lançar a ideia do projeto e discuti-lo exaustivamente com todos os segmentos para só depois formalizá-lo com uma liderança democraticamente constituída. Do jeito que está, a ABRA-HQ está se aproveitando de seu espaço na mídia para passar uma imagem equivocada do mercado. E esse modelo de liderança, para muitos, é intolerável.

Se fica uma lição desse episódio, é que os artistas nacionais precisam acordar e se organizar em torno de uma entidade forte e representativa, que lute pelo que realmente interessa a esse segmento tão vilipendiado.

Heitor Pitombo é jornalista e defende que academias de quadrinhos tenham suas cadeiras ocupadas apenas por artistas.

Quem é o leitor brasileiro de quadrinhos?

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Para responder esta pergunta, Papo de Quadrinho realizou uma pesquisa pela Internet, divulgada através das redes sociais a partir de suas páginas no Facebook e twitter, que ficou no ar entre os dias 20 e 27 de janeiro e foi respondida por 2.273 pessoas.

De acordo com a amostra, o leitor médio de quadrinhos é do sexo masculino, tem entre 25 e 39 anos, e reside na região Sudeste.

Terminou a faculdade, trabalha, mora com os pais e tem renda familiar mensal entre 2 e 5 salários mínimos (R$ 1.576,00 a R$ 3.940,00, pelo piso nacional).

Algumas vezes por mês, este leitor vai a bancas de jornal e livrarias, onde compra um total de 2 a 5 gibis de super-heróis norte-americanos e desembolsa de R$ 10 a R$ 100. Autores e personagens são fatores determinantes na sua escolha.

Ele compra quadrinhos nacionais, mas pouco. Apesar de o Brasil aparecer como o segundo principal país de origem, estas HQs representam menos de 10% do que ele lê. O quadrinho digital ainda não faz parte do seu hábito de consumo.

Veja os gráficos (clique nas imagens se quiser ampliar):

As leitoras ainda são minoria, mas representam uma parcela considerável de quase um terço do total:

Pesquisa - Sexo

 

Depois do Sudeste, Sul e Nordeste são as regiões que mais concentram leitores

Pesquisa - Região

 

A faixa etária em destaque é a dos jovens e adultos. Como a amostragem foi colhida a partir dos perfis do Papo de Quadrinho, cuja faixa etária de seguidores é maior, crianças e adolescentes praticamente não aparecem. 

A divulgação da pesquisa foi feita pela técnica da “bola de neve” (indicações), portanto, para trabalhar com crianças e adolescentes, outras abordagens como “entrevistas” e “grupos focais” seriam mais adequadas. 

Pesquisa - Idade

 

O leitor de quadrinhos tem escolaridade de nível superior. É possível concluir que a maior parte já terminou a faculdade, uma vez que hoje só trabalha. 

A quantidade de leitores com pós graduação, mestrado ou doutorado é a mesma daqueles que cursam o ensino Médio.

Pesquisa - Escolaridade

Pesquisa - Ocupação

 

Ele é solteiro e a renda familiar o posiciona entre as classes C1 e B2, de acordo com o Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), da ABEP

Pesquisa - Mora

Pesquisa - Renda

 

As faixas R$ 10 a R$ 50 e R$ 50 a R$ 100 praticamente se equivalem. Somadas, indicam que dois terços dos leitores gastam entre R$ 10 e R$ 100 por mês em quadrinhos

Pesquisa - Quantas HQs

Pesquisa - Quanto gasta

 

O leitor médio sai para comprar quadrinhos algumas vezes no mês, e prefere as bancas de jornal e livrarias. Grande parte das compras é efetuada também em sites (de livrarias, lojas especializadas, editoras etc)

Pesquisa - Frequência

Pesquisa - Locais

 

Os quadrinhos de super-heróis são seus preferidos, seguidos de Fantasia/Ficção Científica e Ação/Aventura. Aqui, o gênero Infantil pode ter sido prejudicado pela ausência de leitores menores de 12 anos na amostra.

Os  formatos mais comuns (séries simples ou especiais, edições únicas com capa cartonada ou de luxo) praticamente se equivalem

Pesquisa - Gênero

Pesquisa - Tipo

 

O autor (roteirista/desenhista) desponta como o principal motivo que leva o leitor brasileiro a comprar uma HQ, pouco à frente dos personagens.

Este é um indicativo para as editoras trabalharem melhor o nome dos autores nas capas das publicações

Pesquisa - Motivo

 

O Brasil aparece como segundo principal país de origem das HQs, atrás dos Estados Unidos e à frente do Japão – o que  chama a atenção, dada a oferta de mangás nas bancas.

Porém, a maioria dos leitores ainda compra poucos quadrinhos nacionais (menos de 10% do que consome), por razões que merecem ser debatidas

Pesquisa - País

Pesquisa - Nacional

 

Os quadrinhos digitais ainda não caíram no gosto do leitor brasileiro. A maioria não compra; para os que compram, representa menos de 10%.

A pesquisa não aferiu a leitura de scans (quadrinhos baixados na internet, com ou sem a autorização dos produtores) ou de leitura de HQs online

Pesquisa - Digital

 

Mesmo com o financiamento coletivo se consolidando como uma das modalidades mais procuradas pelos autores independentes, a maioria dos leitores nunca contribuiu com um projeto. 

A boa notícia é que não há rejeição a esta modalidade e eles podem vir a colaborar no futuro

Pesquisa - Financiamento

 

 
Considerações finais:
 
– Das 2.273 respostas, foram eliminadas apenas 8 duplicidades e 2 imbecis (menos de 0,5%);

– 36 e-mails (1,5%) não puderam ser validados;

– Nas próximas semanas, vamos publicar outros resultados da pesquisa, com as preferências por sexo, faixa etária etc;

– Essa é uma pesquisa quantitativa, cujos resultados abrem caminho para aprofundar as questões com pesquisas qualitativas (entrevistas, grupos focais, observação participante).

 

Livro: Das pinturas rupestres de Lascaux: uma viagem pelo universo dos quadrinhos

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A Marca de Fantasia foi criada em 1995 e está ligada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB. A editora se especializou na publicação de livros, revistas, e-books e estudos acadêmicos com temas sobre HQs, Artes, Comunicação, Linguística e à Cultura Pop (expressões da Indústria Cultural, como séries televisivas, ficção científica, rádio, música popular etc.).

Mas em 2013 foi criada a Associação Marca de Fantasia que além de publicações, também promove seminários, exposições, produções audiovisuais, o Memorial da História em Quadrinhos da Paraíba (www.memorialhqpb.org) e outros eventos afins.

A editora possui um extenso catálogo de bons livros lançados que merecem atenção.

O mais recente é “Das pinturas rupestres de Lascaux: uma viagem pelo universo dos quadrinhos” (Marca de Fantasia, 218 páginas, R$ 5,00 ebook em formato pdf).

Com a organização de Arnaldo Pinheiro Mont’Alvão Júnior e Edgar Cézar Nolasco, o livro reúne uma gama diversificada de pesquisadores que analisam temas variados sobre as HQs. A coletânea é muito boa e três textos se destacam:

Caracterizando o “estilo mangá” no contexto brasileiro: hibridização cultural na Turma da Mônica Jovem de Adriana Amaral e Giovana S. Carlos; A quinta história: três versões de As metamorfoses de Edgar Cézar Nolasco, discutindo uma aproximação entre o livro A metamorfose (1913), de Franz Kafka, e sua adaptação em quadrinhos recriada pelo artista gráfico Peter Kuper (2003); e Quadrinhos em The Big Bang Theory: a construção de um imaginário nerd de Arnaldo Pinheiro Mont’Alvão Júnior.

O livro pretende contribuir com futuras pesquisas acadêmicas sobre cultura pop e dar um novo olhar aos fãs e estudiosos do universo das HQs.

 

Papo de Quadrinho viu: “Deep Breath” de Doctor Who

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Em respeito aos leitores do blog, este texto não contém spoilers

Rodeado de expectativa, estreou ontem na BBC o primeiro episódio da nova temporada de Doctor Who, apresentando o ator Peter Capaldi que interpretará o Doutor.

Para quem não conhece ou apenas ouviu falar da série, Doctor Who é um dos seriados mais bacanas já produzidos, um verdadeiro ícone da TV inglesa, que figura no Guinness World Records como a série de ficção científica televisiva de mais longa duração no mundo, embora seja relativamente nova para o público brasileiro.

O Doutor é um Senhor do Tempo, um alienígena capaz de viajar através do tempo e do espaço em sua nave chamada TARDIS (Time and Relative Dimensions in Space), nave com a curiosa forma de uma cabine telefônica britânica da década de 1960.

Para manter a série, toda vez que é necessário trocar o ator que interpreta o personagem principal, ele sofre uma regeneração,  poder fictício que permite ao Doutor mudar a aparência, atitude, gosto, mas manter a memória – na prática, uma desculpa para trocar o ator e refrescar a série. Na última temporada, o ator Matt Smith deu lugar a Peter Capaldi.

Deep Breath é o episódio que abre a oitava temporada moderna da série e mantem a tradição de brincar com essa mudança e explorar os atributos do novo ator. A principal mudança desta vez diz respeito a idade dos atores, já que o anterior era bem mais novo: Matt Smith, tinha 28 anos quando se tornou o Doutor, Peter Capaldi tem 56.

dw1Tudo começa com a Tardis sendo cuspida por um dinossauro em pleno centro de uma Londres vitoriana. O novo-velho Doutor aparece desorientado e vai sendo reapresentado ao público, apoiado por personagens já conhecidos da série como a reptiliana Madame Vastra e sua esposa humana, Jenny Flint, além de seu criado atarracado, o sontariano Strax.

Brincadeiras de roteiro com a aparência, sotaque (Capaldi é escocês) e idade, são a tônica do episódio. Enquanto o Doutor tenta entender seu novo corpo, precisa investigar e desvendar uma série de assassinatos. Ao mesmo tempo, procura recuperar a confiança de sua parceira, Clara Oswald (Jenna-Louise Coleman), que após a regeneração não o reconhece física e emocionalmente.

dw2O episódio mantem a fórmula que faz de Doctor Who um sucesso entre os nerds: equilibra boa ação, fantasia, terror, piadas e citações que remetem à própria série e claro, personagens carismáticos.

Pelo que percebemos, teremos um Doutor um pouco diferente do anterior, mais agressivo, talvez mais durão. Outro destaque é a bela abertura que foi criada Billy Hanshaw, fã da série que trabalha com design de animação e caiu nas graças dos produtores.

Para conhecer melhor, conheça o canal oficial de Doctor Who na BBC e o site de fã Doctor Who Brasil.

 

Revista Mundo Nerd 3 está nas bancas

Capa Mundo Nerd 3a

Após o sucesso das edições anteriores, a revista Mundo Nerd 3 traz as curiosidades e os bastidores daquela que é considerada a melhor série de TV de todos os tempos. A reportagem conta como Vince Gilligan bolou a química dos personagens, explica as mensagens ocultas nos episódios e mostra incríveis e divertidas curiosidades dos bastidores

>> E ainda na Mundo Nerd 3

Tudo sobre Game of Thrones
Uma reportagem de Jota Silvestre com os detalhes e a história por trás da série de TV mais bem-sucedida da atualidade. E o melhor: sem risco de spoilers.

Entrevista com Mark Gatiss
Em uma conversa exclusiva, o ator e roteirista de Sherlock e Doctor Who fala sobre sua paixão por filmes de terror e conta curiosidades sobre as duas séries.

De Volta para o Futuro
Descubra como foi criado o filme que encantou gerações, várias curiosidades sobre o elenco e os bastidores de produção.

Godzilla
A trajetória do monstro gigante nos cinemas e detalhes de seu retorno no novo filme.

Sandman
Conheça mais sobre a HQ que foi uma marco no mercado de quadrinhos adultos e transformou o inglês Neil Gaiman em um dos maiores nomes da fantasia.

Blade Runner
Descubra a trajetória complicada do filme mais cult da década de 1980.

Mestre dos pesadelos
A vida e a obra de H.P. Lovecraft, criador do mito de Cthulhu e um dos nomes mais influentes da fantasia e do terror.

Senhor da estratégia
Conheça o jogo de tabuleiro Guerra do Anel, que mistura a estratégia dos RPGs com o mundo fantástico criado por J.R.R. Tolkien.

Para…
Garimpamos várias dicas do que assistir, ler, ouvir e jogar até a próxima Mundo Nerd chegar. Társis Salvatore e um time de nerds dá dicas de livros de FC e Fantasia, bandas, jogos e HQs.

Serviço:
A Mundo Nerd 3 chega às bancas em 23/5 em São Paulo capital e Rio de Janeiro capital. No restante do país, a revista será lançada nos dias seguintes.
Para mais detalhes sobre nosso sistema de assinatura, ligue (11) 3038-5050 ou 0800 8888 508 ou acesse www.europanet.com.br/superheroi
Todo o conteúdo da Mundo Nerd está a venda também no site www.europadigital.com.br. Assinantes têm acesso gratuito ao material.

 

Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Neil-Gaiman-Reading-Agency-LecturexxxNeil Gaiman fez uma magnífica palestra à Reading Agency, sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. A palestra foi publicada recentemente no jornal inglês The Guardian. Apesar de um pouco extenso, selecionamos as melhores partes. Vale muito a pena a leitura e a reflexão:

(…) Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: eu sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos eu tenho ganhado a vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E eu sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Neil GaimanUma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças de 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. As pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma uma porta entrada viciante para leitura. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave.

Neil Gaiman, New Reading(…) Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo. É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, por que cada criança é diferente. (…) Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

(…) E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

(…)  Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto: O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

chinaEu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google, e eles perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E eles descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve.  (…)

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler, e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série, eles ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

BibliotecaxxxMas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

(…)  Nos últimos anos, mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em ser livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

(…) As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

(…) Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Roedores Reforma 09Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

(…) Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

(…) Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

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Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

Artigo: Por que a compra pela Disney é a melhor coisa que poderia acontecer para o universo Star Wars?

por Antonio Santos, especial para o Papo de Quadrinho

A grande notícia no mundo do entretenimento na semana passada foi a compra da LucasArts pela Disney. Assim como aconteceu quando a empresa do Mickey Mouse adquiriu a Marvel em 2009, as preocupações dos fãs se manifestaram imediatamente internet afora, com alegações de que agora o universo Star Wars iria pro buraco mesmo, que as histórias do universo seriam infantilizadas e todos os outros argumentos pré-prontos que aparecem toda vez que uma novidade é anunciada.

Mas a realidade é que essa é provavelmente a melhor coisa que poderia ter acontecido com o universo Star Wars – e o universo do Indiana Jones também, além de todas as outras propriedades intelectuais menores da LucasArts.

Em primeiro lugar, vamos tirar o preconceito do caminho. Embora o nome Disney seja amplamente associado a produtos e personagens infantis, a realidade é que as empresas Disney são o maior conglomerado de entretenimento do planeta, atendendo os públicos mais diversos em todo o mundo. Assiste esportes na ESPN? Disney. Lê quadrinhos ou vê filmes Marvel? Disney. Se emociona com as obras de arte cinematográfica da Pixar (que são muito mais que filmes infantis)? Disney.

Graças a todo esse poder (e a grana que ele gera) a Disney tem entre seus funcionários alguns dos melhores contadores de histórias da cultura pop atual. Além disso, a empresa possui uma forma de administração muito eficiente, permitindo quase total independência para as empresas que adquire e inserindo os principais executivos destas empresas em seu conselho de diretores. Uma empresa adquirida pela Disney não só continua livre para fazer o que faz melhor: ela também ganha voz ativa nas decisões que afetam a empresa-mãe. E ainda ganha apoio em áreas como marketing, TV e licenciamento, o que não faz mal algum, pelo contrário.

Não que a LucasArts precise de ajuda com esses campos. Star Wars é uma franquia que abrange alguns dos jogos, animações e livros mais populares do mundo, alcançando um sucesso enorme por todo o planeta. Mas a realidade é que mesmo assim, o universo não alcança todo o seu potencial porque o carro-chefe da franquia – os filmes – permanecem presos à estrutura definida pelo criador, George Lucas.

Aí vem aquele fato incômodo que quase todo fã de Star Wars tem que encarar: George Lucas perdeu o contato com seus fãs. Antes um criador certeiro e profundamente conectado com seu público, Lucas se tornou um obcecado por novas tecnologias e por corrigir “erros” em suas obras que só ele mesmo vê. Embora a franquia possua muitos produtos diferentes, coordenados por diversas mentes criativas, a realidade é que Lucas sempre foi centralizador. Sendo assim, muitas das ideias geniais do Universo Expandido, o grande pano de fundo que abrange jogos, quadrinhos e livros fica relegado a esses produtos, sem jamais chegar aos cinemas e ao grande público. O universo Star Wars cresceu e foi muito além de George Lucas, mas era a voz dele que filtrava o que o grande público via desse universo.

Se o Batman ainda fosse limitado apenas pela visão de Bob Kane, nunca teríamos Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, ou os filmes da trilogia de Chris Nolan. Se os X-Men ainda tivessem a formação inicial de Stan Lee e Jack Kirby, nunca teríamos lido sobre o fascinante Magneto de Chris Claremont, ou personagens como Wolverine e Noturno. É mais ou menos o que ocorre com Star Wars no cinema. Acompanhamos com prazer a saga dos Skywalker por seis filmes e numerosos produtos, mas já é hora de ir além, acompanhando tudo que foi explorado nos livros e jogos. E, depois, ir ainda mais além. Esse universo é infinito em potencial. Isso é uma raridade no mundo do entretenimento e merece ser explorado plenamente. Nós, fãs, agradecemos.

Com a compra, a Disney ganha o poder de explorar todo esse arsenal criativo sem as limitações impostas por Lucas. Ao mesmo tempo, a empresa já tem uma ampla experiência em administrar novos materiais sem descaracterizar o que os faz únicos (afinal, o Pateta ainda não entrou para os X-Men). O universo Star Wars é tão amplo e tão cheio de potencial que ele precisa de mais vozes e pontos de vista diferentes para crescer. George Lucas não permitia isso. Já a Disney não tem outra opção a não ser permitir isso, já que o melhor para a empresa é explorar o potencial criativo de todos os seus funcionários.

Nada garante, claro, que o Universo Expandido será realmente a base dessa nova fase, mas quer saber? Isso não importa realmente. O importante é a inovação, algo que a direção de Lucas já não oferecia. As novas histórias que surgirem muito provavelmente não vão se opor ao background que foi estabelecido, já que não é do interesse da Disney alienar os fãs, mas serão histórias novas e diferentes. Novamente: nós, fãs, agradecemos.

Antonio Santos escreve para o Popground, o mais novo site sobre cultura pop.

ARTIGO: JAL comenta nova lei brasileira dos quadrinhos

Conforme anunciado, hoje o Papo de Quadrinho publica a opinião do cartunista JAL, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, sobre a lei que vem dividindo as opiniões dos profissionais dos quadrinhos.

 

“Editores e desenhistas poderão cobrar do governo as propostas dos incentivos”

Por JAL

 O debate acontecido no último dia 4 de fevereiro na entrega do troféu Angelo Agostini foi muito bom. O Jota Silvestre, dono da ideia de chamar alguns interessados para a mesa e com a participação do público de desenhistas e editores independentes, fez com que se mostrasse ao vivo o que já vem sendo discutido pela Internet e que esse blog tem participação importante.

Há falta de informação sobre o que é o mercado de quadrinhos no País e no mundo. Por isso, as ideias andam só ao redor de um projeto de lei que é apenas uma das partes para se montar o mercado. Depende mais de nós do que de uma lei. Depende de sempre procurarmos fazer o melhor e conquistarmos editores e público.

Mas a lei vai sair e temos que analisar como ela pode ajudar ao invés de escrachá-la. A lei tem mais pontos positivos que negativos, vistos de todos os lados (de quem apoia e quem não apoia). Basta ver os depoimentos na abertura desse blog. Enquanto os desenhistas andam tão preocupados em como as editoras vão se adaptar, os próprios editores estão aceitando essa lei e até uma junção com os desenhistas para modelar o mercado a partir da proposta de incentivos que a mesma comporta.

Saindo do legislativo e indo para o executivo, nos próximos meses vai haver a regulamentação, e editores e desenhistas poderão cobrar do governo as propostas dos incentivos. JUSTAMNETE PORQUE TEM O LADO DA OBRIGATORIEDADE QUE O GOVERNO PEDE AOS EDITORES. Agora, alguns não percebem que a lei já está dando certo e nunca se discutiu tanto sobre mercado de trabalho junto aos editores como nesses últimos meses. Se isso não é uma evolução, então me desculpem.

Eu acredito que nunca estivemos tão preparados para ganhar mais mercado do que hoje. Podemos não ter muitos leitores ainda para os novos talentos, mas Mauricio de Sousa e Ziraldo um dia foram jovens talentos. As editoras podem cumprir os 20% na área digital, que um dia vai dominar, e também a aplicação dos 20% subiu de três anos para seis anos.

Na análise anterior que fiz sobre as editoras que lançam para o mercado, a Abril estava em defasagem, mas acaba de lançar três autores nacionais nas bancas. Os 20% não são o problema. O problema é o investimento que os quadrinhos estrangeiros têm quando chegam ao Brasil já com mídia garantida e o pouco caso com os brasileiros. Se não houver uma lei, como todo país tem suas leis de proteção, ficaremos só com os estrangeiros, e os nacionais continuarão choramingando pelos cantos sem alternativa.

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