Assim como milhões de pessoas no mundo todo, fui pego de surpresa pela notícia da morte de Stan Lee na tarde de hoje (12). Preferi não escrever um obituário ou biografia. Gente muito mais capacitada que eu já o fez ao longo do dia.

Em vez disso, optei por compartilhar – com quem se interessar – minha relação de leitor com Stan Lee.

Meu primeiro gibi da Marvel que tenho lembrança, cuja capa ilustra este post, foi Capitão América 5 (*), lançado pela Bloch em junho de 1975.

Para além da trama envolvente de Steve Englehart e da arte dinâmica de Sal Buscema, o que primeiro atraiu minha atenção foi a chamada “Stan Lee apresenta…” estampada no topo da primeira página – uma sacada que Roy Thomas adotou em todas HQs da Marvel depois que se tornou editor-chefe.

Ao mesmo tempo em que eu pensava “Quem é esse cara?”, minha imaginação de sete anos de idade criava a figura mental de um chinês misterioso, que comandava todo aquele universo (devo ter associado com Bruce Lee. Vai entender cabeça de criança…).

Não me pergunte qual foi meu segundo gibi da Marvel. Ou o terceiro ou o quarto… não lembro. O que sei é que nesses mais de quarenta anos, li dezenas, talvez centenas, de histórias anteriores àquela do Garra Amarela, muitas delas escritas pelo próprio Stan Lee.

Li centenas, talvez milhares, de histórias, posteriores a ela, escritas por um sem-número de autores que levaram as cocriações de Lee aos mais diferentes mundos, universos, situações.

Estranho… Não dá pra dizer que a morte de Stan Lee era esperada. Nem que era inesperada. Ele estava com 95 anos, idade a que poucas pessoas chegam, ainda mais com tamanha vitalidade e lucidez.

Acontece que o peso da idade se fez sentir nos últimos anos, em especial depois da morte de Joan, sua companheira de toda vida. As notícias que chegavam sobre sua saúde depois disso não eram nada animadoras.

Fico repetindo a mim mesmo que Stan Lee viveu e morreu com dignidade, que atingiu um patamar que poucos artistas alcançaram, que ele viverá para sempre em seus personagens, que viu realizado o sonho de levar suas cocriações para o cinema, um projeto que ele perseguia desde a década de 1970.

Que ele viu a pequena editora que pilotava se transformar numa gigante do entretenimento. Viu seus personagens arrastarem milhões de pessoas para as salas de cinema e conquistar uma nova geração de fãs que, talvez, nunca sequer leram uma de suas HQs. Viu nascer uma geração que se apaixonou pela versão em pixels dos seus heróis da mesma forma que nós nos apaixonamos pela versão deles em papel barato…

Mas aí, lá do fundo, vem a premonição de uma saudade. Aquela angústia de saber que nunca mais veremos o verdadeiro Stan Lee em suas aparições matreiras nos filmes e séries. Nunca mais ouviremos suas frases espirituosas, nunca mais leremos uma entrevista inédita…

O que me confortou na tarde de hoje foi a grande quantidade de depoimentos já saudosos que li nas redes sociais. Roteiristas, artistas e jornalistas que admiro agradecendo a Lee pela inspiração na infância que, anos depois, influenciou na escolha da profissão. Amigos agradecendo a Lee por tê-los iniciado no hábito da leitura e, em alguns casos, até mesmo pela formação do seu caráter.

Então, olho para essa imagem aí de cima, lembro como tudo começou e meu coração fica apertado de novo. É simbólico que eu me despeça de Stan Lee com o mesmo gibi com que nos tornamos amigos…

No final das contas, acho que acabei me estendendo demais nesse adeus. Talvez, uma palavra bastasse… Excelsior!

(*) Há alguns anos, consegui reaver esta revista graças ao diligente esforço do amigo Roberto Guedes que garimpou um fac-símile para mim no Festival Guia dos Quadrinhos, e também ao amigo Ricardo Quartim, que em sua imensa generosidade se ofereceu para trocar minha cópia pela edição original de sua coleção. Aos dois, meu muito e sincero obrigado.

Por falta de tempo e disposição para vasculhar minha coleção atrás dessa HQ, optei por pegar a imagem da capa emprestada do site Guia dos Quadrinhos. Sei que o amigo Edson Diogo vai me perdoar.

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