A convite da produtora Espaço/Z, este editor assistiu ao filme numa exibição exclusiva para jornalistas. Em respeito aos nossos leitores e seguidores nas redes sociais, essa resenha NÃO TEM SPOILERS.

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Para falar sobre este novo filme do diretor  Denis Villeneuve (A Chegada) é preciso voltar momentaneamente aos anos 1980.

Blade Runner – O Caçador de Androides (1982) de Ridley Scott, com o astro Harrison Ford no papel principal, é um filme de ficção científica distópica com raízes do cinema noir, muito mais preocupado com questões filosóficas do que em ser um filme de ação.

O roteiro foi inspirado no conto do escritor Philip K. Dick chamado Do Androids Dream of Electric Sheep? (Androides sonham com ovelhas elétricas?) mostra o trabalho de um caçador de androides (ou blade runner), em uma Los Angeles distópica que procura androides assassinos renegados (chamados de Replicantes). Essa história funciona como alegoria para pensar nas grandes questões sobre a existência humana; vida, morte e propósito, além de tantas outras perguntinhas que evitamos questionar.

Remendado pela Warner a contragosto de Scott e talvez por sua proposta vanguardista, o filme foi fracasso de público (e crítica) na época. Mas ninguém imaginaria que poucos anos depois, impulsionado pelo aluguel de fitas VHS, essa obra-prima visionária alcançasse o merecido sucesso e hoje fosse considerada um dos mais importantes filmes de todos os tempos.

Com isso em mente, sabíamos que esse seria o primeiro obstáculo para o novo Blade Runner 2049: avançar sob esse legado, nos levando de volta ao universo ficcional que marcou gerações de fãs e admiradores. O diretor Denis Villeneuve revela que impôs uma condição antes de concordar em dirigir o filme. “Eu precisava da benção de Ridley Scott. Essa foi a minha única condição”. Mais do que dar a sua benção, Scott se tornou produtor executivo desta continuação. “(…) se por acaso precisasse dele, eu poderia ligar; ele estaria ao meu dispor a qualquer hora. E, de fato, toda vez que eu precisei, ele estava lá. Eu sempre serei grato a ele”- concluiu Villeneuve.

Uma nova história

Com a bênção de Ridley Scott na produção, o novo Blade Runner começa na internet. Villeneuve criou três curtas para situar o público sobre as mudanças do mundo ficcional de Blade Runner neste período entre os filmes: Black Out 2022 – anime de Shinichiro Watanabe (de Cowboy Bebop) mostrando os acontecimentos depois do filme clássico; 2036: Nexus Dawn apresentou o cientista Niander Wallace (Jared Leto), um magnata que recriou os replicantes e por fim, 2048: Nowhere To Run, que se passa um ano antes da história do filme ocorrer e mostra um acontecimento na vida de Sapper Morton (Dave Bautista).

Para fugir de SPOILERS e tentar falar sobre a história da melhor maneira possível, vamos focar no que faz deste filme um bom filme, e sobretudo, uma continuação honesta (embora desnecessária).

Primeiro, Blade Runner 2049 parte do “clima” original para construir uma nova história e recompõe elementos que fizeram de Blade Runner um clássico. Esse respeito é um acerto e começa na cidade/cenário. Para o cyberpunk, a cidade é um personagem fundamental. Nesta versão L.A. é reapresentada e expandida. Villeneuve procura ser fiel ao espírito do filme original para homenagear a estética do cinema noir, mas não fica preso a isso e apresenta outros cenários de forma atraente – pronto também para Roger Deakins, diretor de fotografia que fez um trabalho excelente. A lista de acertos avança para os figurinos, bons diálogos, a tecnologia mostrada e o que importa: uma história redonda.

O filme tem seu ritmo, com boas cenas de ação, embora nem todas as cenas sejam realmente úteis e o trailer (Ah! O trailer!) simplesmente entrega um pouco mais do que precisa. Por fim, fecha com boas atuações, ou pelo menos uma boa direção.

“Eu tive seu emprego…” (Decker)

RYAN GOSLING as K in Alcon EntertainmentÕs sci fi thriller BLADE RUNNER 2049 in association with Columbia Pictures, domestic distribution by Warner Bros. Pictures and international distribution by Sony Pictures Releasing International.

Ryan Gosling é K, um detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles, cujo trabalho ainda é encontrar, investigar e “aposentar” replicantes antigos, remanescentes do período antes do grande black out. Já os Replicantes atuais estão totalmente sob controle e  coexistem com humanos, ainda que com desconfiança. Ambas as questões são tratadas nos curtas disponíveis no Youtube – os links estão ali no texto. Não é obrigatório para entender a história mas é legal conferir.

É neste cenário que K, o novo blade runner, esbarra em uma trama que pode definir o futuro da humanidade, cujas conexões vão levá-lo a procurar sua própria origem e de quebra, reencontrar Decker (Harrison Ford), o ex-blade runner original, enquanto é vigiado por Luv (Sylvia Hoeks), uma vilã convincente.

Mais uma vez os valores da humanidade são questionados durante a procura de K e trazem novamente à tona questões como: O que nos faz humanos? Qual nosso propósito?

Talvez o maior mérito desta continuação (de novo – boa, porém desnecessária) não seja apenas respeitar o clima do filme clássico, ter boas atuações e uma história ok. Talvez as dúvidas de K por respostas sobre sobre sua existência nos dêem a oportunidade de revirar questões em nossa própria cabeça, uma boa ideia exatamente no momento em que a humanidade parece estar cheia de certezas, incapaz de formular grandes perguntas, com preguiça de rever seus próprios atos.

Ponto para Villeneuve que acertou o tom e nos deu um Blade Runner novo para curtir – ou no caso dos fãs mais xiitas, um novo para odiar.  Fica nossa torcida para que seu novo projeto, uma nova adaptação do romance clássico de ficção científica de Frank Herbert Duna, também tenha sucesso.

 

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