por Társis Salvatore, Editor do Papo de Quadrinho

Quando comecei a ler quadrinhos de super-heróis o mundo era bem diferente do que é hoje.

Sei que alguns vão achar que é mentira, mas não existia internet. Videogames, hoje a maior indústria de entretenimento mundial, mal haviam chegado ao Brasil em suas versões pixealizadas.
Restava para um jovem C.D.F (o termo “nerd” não era consolidado) como eu, comprar seu “gibizinho”, jogar bola ou taco na rua, e ver alguma série (dublada) de TV nos cinco ou seis canais de TV que haviam na época.
Era o início do ano de 1987 e eu tinha 12 anos.

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Adquiri o gibi Super-Homem nº 31 – sim, Superman é um termo recente – por módicos Cz$ 7,00, a moeda vigente da época, uma dentre as várias que tivemos antes do real. O amaldiçoado formatinho predominava nas bancas de jornal. O papel de revista de linha era ruim e as cores chapadas. O anúncio da penúltima página era do Rádio Orelinha com uma jovem modelo adolescente chamada Suzy Rêgo.

O gibi do Super-Homem em questão trazia uma novidade que era o novo Brainiac, uma renovação de visual que o deixava alinhado à segunda temporada do desenho dos Superamigos que passava na TV. O argumento da história era de Marv Wolfman e arte de Gil Kane. Na sequencia do gibi, havia a Legião dos Super-heróis com desenhos de Keith Giffen e Paul Levitz. Essa edição também anunciava o que seria um marco da editora, a maxissérie Crise nas Infinitas Terras, que acompanhei logo em seguida e consolidou minha paixão pelos personagens da DC.

Quando eu olho esse gibi na minha coleção e o comparo com o último que comprei esses dias, vejo como a indústria do entretenimento se transformou.

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Se você tem mais de 35 anos e olhar atentamente talvez tenha a mesma impressão.Vivemos um período profícuo e muito interessante nos quadrinhos de super-heróis, ainda que os pessimistas insistam no contrário. A renovação dos super-heróis da DC e da Marvel foram comercialmente bem sucedidas.

A cooptação destes heróis para o cinema e para os games funcionam e atraem cada dia mais fãs. O fenômeno transmídia nas séries de TV, os desenhos animados inspirados nos gibis e outras mudanças apostando no novo, conquistam um público que não se interessa naturalmente por gibis, porque são de uma geração com muitas outras opções: games, tablets, séries, internet como um todo.

Óbvio que nem sempre a indústria acerta. Erros são cometidos, deslizes acontecem. Vão de abordagens ruins, roteiros sem noção, passando pelas distorções exageradas nas concepções de super-heróis consagrados, e escorrem em outras mídias. E como era de se esperar num mundo onde todo mundo pode choramingar, esses problemas as vezes nublam a mente da galera que adora um mimimi. Ainda atrai a ira dos haters, que hoje contam com as mídias sociais para ecoarem sua raiva com a velocidade dos bytes.

Bom, só pra deixar mais dúvidas do que certezas, meu ponto é: quando os produtores devem abandonar o passado, ignorar de ideias consolidadas e começarem uma renovação de seus super-heróis?

Foi pensando nisso que vi que mudar o visual do Brainiac foi um indicativo interessante, deixando de ser um humanoide verde para virar um robô cabeçudo por causa do desenho dos Superamigos.
Essa mudança não me causou nenhuma comoção na época, eu gostava do visual de 1987. Talvez, eu por ter 12 anos. Talvez, por adorar robôs. E hoje, Brainiac voltou a ser um humanoide verde, porque nos quadrinhos – assim como aparentemente na vida – tudo é cíclico.

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Agora a DC anunciou que vai novamente mudar o visual do Superman e fiquei contrariado. Ele já sofreu mudanças recentes de visual. E mais uma vez, a mudança antecede uma nova maxissérie. Vi e achei feio, desnecessário. Daí, no auge da minha indignação nerd, me veio a ideia – mas será que não é uma boa mudar de novo? Será que não vai atrair público, esquentar debates e como quase sempre acontece, a DC vai voltar ao visual mais conhecido e consagrado na memória afetiva dos nerds, logo ali adiante?

Penso também com carinho no Super-Homem e como ele me divertiu, “virou” Superman, mudou de uniforme, de comportamento, morreu, voltou e está ai se renovando e atraindo milhões de fãs. E por algum mistério, mesmo com todas essas mudanças, o Azulão parece que nunca deixou de ser o mesmo.

É com mais dúvidas que certezas que vejo velocidade das mudanças do mundo atual e suas diferenças com 1987. Minha única certeza hoje é que Superman fica muito melhor sem a cueca vermelha por cima das calças.

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