Revista O Grito!

Papo de Quadrinho — O Grito! Blogs – Quadrinhos

Artigo: Liderança equivocada

abrahq

Por Heitor Pitombo

Artigo publicado originalmente na revista Mundo dos Super-Heróis 65 (março/2015) e reproduzido com autorização do autor e da publicação.

Em 30 de janeiro, enquanto se comemorava o Dia do Quadrinho Nacional, foi lançada no Rio de Janeiro a autointitulada Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos (ABRA-HQ). A cerimônia teve direito a hino nacional (ver vídeo abaixo), entrega de medalhas e tudo o mais. Na ocasião, foram anunciados os nomes de 20 artistas que nomeiam as cadeiras da instituição – incluindo o mestre norte-americano Alex Raymond -, assim como os de 20 “imortais” que as ocupam. Entre eles, alguns colecionadores.

Se não bastasse o fato desses nomes não terem passado por nenhuma votação entre a classe de quadrinhistas brasileiros, a presidente e porta-voz da Academia, a atriz e roteirista Agata Desmond, vem usando habilmente a mídia não especializada para divulgar propostas inócuas e espalhar inverdades sobre o mercado brasileiro, como disse numa entrevista para a Rádio Nacional-RJ: “As histórias em quadrinhos no Brasil tiveram seu auge no tempo da Rio Gráfica, da Ebal, da Vecchi e da Bloch, que foi o último império a cair. Agora, não tem mais editora, ninguém faz nada, os artistas estão desempregados”.

Sim, até os anos 1980, houve muitas redações que mantinham grandes equipes produzindo quadrinhos nacionais para as bancas. Mas a crise que tem abalado o mercado de revistas e jornais nas últimas décadas também se estendeu para as HQs – ainda que o estúdio de Mauricio de Sousa continue firme e forte até hoje. Por outro lado, nunca se produziu tantos quadrinhos no país como nos últimos dez anos. Se o segmento perdeu espaço nas bancas, ganhou um recanto nas livrarias.

Mecanismos como o Catarse, os editais do ProAC e o crescimento dos eventos de quadrinhos Brasil afora têm permitido a circulação e a visibilidade dessa produção – que, aliás, ostenta uma qualidade excepcional. Mestres reverenciados pela Academia, como Edmundo Rodrigues (1935-2012), nunca tiveram seus trabalhos lançados com o requinte gráfico que muitos iniciantes conseguem bancar via crowdfunding.

A família de Edmundo, por sinal, designou Agata para ser curadora de sua obra, e esta não mede esforços para frisar que a ideia da ABRA-HQ foi inspirada em uma vontade do mestre de que seu trabalho fosse preservado, e para colocar o nome do finado desenhista em destaque quando fala de seu projeto para a mídia. Curioso que, em seus últimos anos de vida, Edmundo até demonstrava disposição para falar sobre sua carreira, mas sua família rechaçou diversas tentativas que alguns jornalistas fizeram para entrevistá-lo, muitas delas com o intuito de registrar seu legado para a posteridade.

Outra coisa estarrecedora é como grandes veículos (jornais, rádios e até TVs) reverberaram a notícia da fundação da ABRA-HQ sem fazer nenhuma reflexão e dando vacilos de apuração. Muitos colegas chegaram a escrever absurdos, como fez a jornalista de O Globo On Line, Clarissa Pains, ao dizer numa reportagem publicada em 18 de fevereiro que o Tico-Tico era “uma tira nacional da década de 1940”. Até mesmo a repórter da Globo News, Elisabete Pacheco, numa matéria que foi ao ar em 30 de janeiro, entoou a seguinte pérola: “Hoje os desenhistas só publicam quadrinhos no Brasil graças a vaquinhas feitas na internet” (assista aqui).

Apesar de possuir em sua cúpula membros ativos que defendem que autores como Angeli, Laerte, Glauco e os gêmeos Moon e Bá não têm espaço na Academia – e que sustentam absurdos como o fato do mutante Charles Xavier, dos X-Men, ter sido inspirado no nosso Chico Xavier –, há gente bem intencionada por trás da iniciativa. Todos acreditam estar unidos em um projeto para melhorar as condições de quem produz quadrinhos.

Mas a maioria esmagadora da classe vem se manifestando pela internet e tem repudiado uma entidade que, nesses moldes, não tem condições de liderar e unir a classe em todo o país. O mais correto teria sido lançar a ideia do projeto e discuti-lo exaustivamente com todos os segmentos para só depois formalizá-lo com uma liderança democraticamente constituída. Do jeito que está, a ABRA-HQ está se aproveitando de seu espaço na mídia para passar uma imagem equivocada do mercado. E esse modelo de liderança, para muitos, é intolerável.

Se fica uma lição desse episódio, é que os artistas nacionais precisam acordar e se organizar em torno de uma entidade forte e representativa, que lute pelo que realmente interessa a esse segmento tão vilipendiado.

Heitor Pitombo é jornalista e defende que academias de quadrinhos tenham suas cadeiras ocupadas apenas por artistas.

Comentários

Previous

“L’Amour 12: oz”: A difícil arte de Luciano Salles

Next

Humor incorreto de “Cianeto & Felicidade” chega ao Brasil pela Leya

5 Comments

  1. Olá. Heitor. Talvez não se lembre de mim, mas nos conhecemos no FIQ 2003. Bom, primeiro parabéns pelo artigo, corajoso e direto.

    Gostaria de ressaltar um ponto que frequentemente é mal interpretado e até mal explicado mesmo entre profissionais da área. Realmente, há muita coisa boa sendo publicada. Há o Catarse, os programas de incentivo e etc, mas um ponto que sempre aponto é a falta de um mercado de trabalho.

    Claro que falo de uma situação que provavelmente não volta nunca mais, que é a de estúdios de HQ produzindo material – e empregando artistas – pra revistas mensais de banca.

    Somente MSP não faz um mercado. E os que produzem para o exterior estão inseridos no mercado de trabalho de outro país, com outra realidade. Editais e financiamento coletivo, por sua natureza, também não fazem mercado de trabalho, o que iria pressupor ganhos com regularidade.

    Uma coisa que acho ruim é ver gente dizendo que o mercado está ótimo porque se publica muito. Se quem produz não está ganhando bem, como o mercado está ótimo? Contradições à parte, também fico irritado com gente dizendo que está tudo uma porcaria.

    Essa de dizer que quadrinhista está desempregado é dose. Parece uma turma de coitadinhos pedindo ajuda. O que acontece é que muitos que faziam HQ de banca numa base regular foram se dedicar ao mercado de livros didáticos, publicidade, ilustração editorial, etc…

    Desde que vi o anúncio dessa Academia achei estranho, fora de realidade… Espero que corrijam o rumo, ouçam muitas pessoas e deem uma real contribuição à HQ nacional.

    Abraços!!

  2. Heitor

    Claro que me lembro de ti, Nagado, como não?

    Só ressaltando um ponto que vc abordou. Sim, é claro que não existe um mercado para quadrinhos onde haja muitos artistas e profissionais assalariados. O que eu quis dizer no artigo é que, em certos aspectos, o cenário das HQs no Brasil teve avanços.

    Reestruturar a cena para que possa ser considerada um mercado é tarefa árdua, mas é uma missão para qual a Academia HQ não está talhada. Isso me parece bem claro.

    Bração, camarada! Quem sabe nos esbarramos no Festival Guia dos Quadrinhos… Estou rachando uma mesa com o Dario Chaves.

  3. Fala, Heitor. Pena que estou morando longe de São Paulo e não tenho como ficar viajando, por estar com um trabalho fixo.

    O cenário atual da HQ é interessante do ponto de vista criativo. O que falta é alguém com um faro comercial conseguir emplacar algo. Eu vejo o mercado de animação brasileira. Anos atrás, nem o Mauricio conseguia produzir uma série pra TV. Hoje, além dele, tem várias séries criadas aqui, como Peixonauta, Show da Luna, Escola pra Cachorro, Meu Amigãozão e muitos outros. O pessoal de animação descobriu um jeito de se popularizar. Parece o caminho inverso da maior parte do pessoal de HQ. A HQ ficou mais sofisticada, elitizada, especializada. Isso é ótimo como maturidade artística de uma mídia, mas está faltando aquele equilíbrio comercial. Até hoje, somente o Mauricio conseguiu esse feito de forma duradoura. Bom, já me alonguei demais. :-P

    De qualquer forma, boa sorte e mande lembranças ao Dario.

    Abraço!

  4. Heitor

    Uma ideia pro pessoal dos quadrinhos seria verter essas séries de animação para os gibis, né? Mas concordo contigo, é premente que nossos autores produzam material para outros tipos de público que não o adulto. Mas acho que coisas como o Valente, do Vitor Cafaggi, apontam para um caminho diferente, por exemplo.

    Bração,
    H

  5. Edno Rodrigues

    Concordo com o que disse o Alexandre Nagado. Braga, essa edição da MSH esta chegando, fresquinha, Abril de 2015! Heitor Pitombo, estive no Festival Guia dos Quadrinhos, do amigão Edson Diogo, ano passado, pena que agora, neste mês, não poderei ir, por motivos profissionais… Vou perder uma grande oportunidade de conhecê-lo e batermos um papo pessoalmente! Tínhamos muito o que conversar…abraços! E sucesso, para o Festival!

Deixe uma resposta

Papo de Quadrinho é um blog da Revista O Grito!. Todos os direitos reservados. © 2013–2018