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Em respeito aos leitores do blog, este texto não contém spoilers

E não é que a Marvel conseguiu? Pegou uma equipe de super-heróis desconhecida até mesmo de boa parte dos leitores de quadrinhos; escalou um elenco em que os atores mais estrelados, Vin Diesel e Bradley Cooper, apenas emprestam a voz a dois personagens criados por computação gráfica; entregou roteiro e direção nas mãos de um diretor oriundo do cinema independente, James Gunn.

Chamar Guardiões da Galáxia, que estreou no dia 31 de julho no Brasil, de “aposta” é eufemismo. O termo correto é “risco”.

É claro que a Disney colocou sua máquina de propaganda para trabalhar. E a Marvel fez sua parte, voltando a lançar HQs da superequipe depois de pelo menos quatro anos.

Mas nem tanto dinheiro poderia comprar os elogios da crítica e dos exigentes fãs de quadrinhos. Nas redes sociais, é unânime a opinião favorável de quem já assistiu. No agregador de resenhas Rotten Tomatoes, o filme tem 92% de críticas profissionais positivas e 96% de aprovação da audiência.

Papo de Quadrinho faz coro à esmagadora maioria: Guardiões da Galáxia é inteligente, empolgante, divertido, (melo)dramático, cheio de referências. Um filmaço!

A trama

Peter Quill (Chris Pratt) é abduzido da Terra ainda garoto, logo após a morte de sua mãe, e se torna o ladrão espacial Senhor das Estrelas, menos notório do que ele imagina. Sem saber, acaba roubando um artefato desejado pelo ser mais poderoso do universo, Thanos (Josh Brolin).

Com uma mina de ouro na mochila e a cabeça a prêmio, começa mal seu relacionamento com a assassina Gamora (Zoe Saldana) e dois caçadores de recompensa: o guaxinim falante Rocky Raccoon (Cooper) e seu guarda-costas vegetal Groot (Diesel).

A confusão que aprontam em Xandar, planeta patrulhado pela Tropa Nova, leva todos para a cadeia, onde conhecem o irascível Drax, o Destruidor (Dave Bautista). Este inusitado grupo une-se para escapar da prisão levando consigo o artefato roubado. Mais tarde, eles descobrem o poder descomunal do objeto e compreendem por que Thanos, o rebelde kree Ronan (Lee Pace) e sua parceira Nebula (Karen Gillan) o desejam tanto.

Filme-homenagem

A história versa sobre a amizade, e como ela pode florescer nas situações mais improváveis. O fio que os une inicialmente – os propósitos egoístas – é substituído pelo que Senhor das Estrelas, Gamora, Drax, Rocky e Groot têm em comum: a dor da perda e uma sensação de não pertencerem a lugar nenhum.

O elenco afinadíssimo concorre para que essa premissa do roteiro funcione, e o destaque vai para o carisma de Bautista, ex-campeão de MMA e praticamente um estreante no cinema.

Guardiões da Galáxia é um filme-referência, ou melhor: um filme-homenagem. Aos 44 anos (a propósito, completados na próxima terça-feira, 5 de agosto), James Gunn espalhou pelo filme tudo aquilo que faz parte sua bagagem de cultura pop.

Há referências óbvias a Star Wars, em especial nas batalhas espaciais; a Os Suspeitos, na forma como os personagens principais são apresentados à audiência; a Indiana Jones, na “caça ao tesouro” e na cena em que Drax enfrenta Nebula; e também a De Volta para o Futuro e Footloose – uma piada recorrente da trama.

Mas é na trilha sonora que o diretor arrasa. A pretexto de mostrar a ligação de Peter Quill com a Terra, seu walkman (isso mesmo, aquele toca-fitas portátil) enche o filme com as músicas que sua mãe gravava para ele, todos hits dos anos 1970: de Marvin Gaye a Jackson 5.

Universo espacial

Guardiões da Galáxia é o último filme da chamada Fase 2, da Marvel, que vai culminar no segundo filme dos Vingadores no ano que vem. Como parte do coeso universo que o estúdio vem construindo no cinema, o filme dá sua contribuição de forma modesta.

Thanos, visto na cena pós-crédito de Os Vingadores em 2012, recebe mais atenção. O Titã Louco e seu papel no intrincado jogo de poder ficam cada vez mais eveidentes.

Mas a ligação com a mitologia cinematográfica da Marvel até então para por aí. Guardiões serve para inaugurar uma nova era, a era espacial. Comprova que o Universo Marvel, também nos cinemas, se expande além Terra, e que os asgardianos não são a única raça intergaláctica.

No entanto, o filme de Gunn é descompromissado, fechado em si mesmo. Não depende dos outros para existir e nem cria ganchos para as aventuras dos heróis de “primeira linha”. Como e quando estes mundos distintos irão colidir é o grande trunfo da Marvel para os próximos anos.

Senhor das emoções

Se Peter Quill é o Senhor das Estrelas, James Gunn é o Senhor das Emoções. Um diretor que arranca uma lágrima nos primeiros dois minutos de filme e um sorriso largo no terceiro merece toda a atenção.

Na primeira meia hora, Gunn já tem o coração do espectador nas mãos, e o coloca numa gangorra que vai do nó na garganta à gargalhada, tendo no meio a emoção da aventura.

Tudo o que era “risco” virou “acerto”: a equipe desconhecida, o elenco desconhecido, o diretor desconhecido. Como disse Chaplin, o mundo pertence a quem se atreve. Da última vez que a Marvel arriscou-se tanto, saiu o primeiro filme do Homem de Ferro (2008). O resultado daquela ousadia é mais do que conhecido.

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