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A principal crítica que se faz à produção de quadrinhos de super-heróis no Brasil é a tentativa de emular a bem-sucedida fórmula norte-americana, em especial das majors Marvel e DC. De fato, o resultado nem sempre é o desejado.

Não é o caso de Quem Matou João Ninguém?, de Zé Wellington, Wagner Nogueira e vários artistas, que a editora Draco acaba de lançar com apoio da Secretaria de Cultura do Ceará.

Claro que é possível identificar alguns elementos conhecidos: o garoto transformado em herói após a morte, o espírito da vingança pessoal que se engaja numa causa maior, o reconhecimento paulatino da sua nova condição. Mas todas essas são questões arquetípicas e estão longe de soar como plágio ou mesmo inspiração.

Sujeito-Homem, o codinome assumido por João depois do seu misterioso assassinato, recebe da Morte uma segunda chance. Sua missão é enfrentar uma força maligna e supostamente sobrenatural que tomou conta do Morro de Santa Edivirges, onde ele e seus amigos convivem desde a infância.

Esta é a deixa para o roteiro de Wellington e Nogueira intercalarem fatos do presente com aqueles em flashback que levaram cada um dos garotos – João, Roberto, Sandro e Nina – a seguirem caminhos tão diferentes. A história tem uma estrutura não-linear em que os acontecimentos vão se justificando à medida que a leitura avança.

Apesar de guardar algumas surpresas (a identidade do vilão Tavão) e do final inconclusivo (João é mesmo um herói ou só um garoto viciado em gibis?), a última parte da história perde um pouco o fôlego. Mas não é nada que comprometa ou desmereça a narrativa como um todo.

Quem matou João Ninguém? é original em diversos sentidos: utiliza a estética mangá sem os excessos típicos do gênero; ambienta a ação num contexto de carência material, a favela; faz a transição competente entre o mundo lúdico das crianças e o mundo cão delas próprias, agora adultas; tem várias referências aos quadrinhos de super-heróis e usa, sem abusar, da metalinguagem (João é desenhista de HQs, estudos de personagem da obra vão parar em sua prancheta).

O mais importante é que esta HQ cria um novo super-herói nacional com enorme potencial de desenvolvimento. Tomara que os autores não venham a continuar dependendo de recursos públicos e possam dar continuidade ao trabalho. Superada a etapa de contar sua origem, Sujeito-Homem, parece, tem ainda muitas aventuras para viver – mesmo estando morto.

Quem matou João Ninguém? tem 120 páginas, capa colorida e miolo em preto e branco. Pode ser adquirida diretamente no site da editora Draco ou da livraria Saraiva por R$ 29,90. Em breve, será lançada a versão em digital por R$ 14,90. Vale o investimento.

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