doutrinador

O Doutrinador é mais um exemplo, entre muitos, da relevância da internet para a produção independente de quadrinhos.

O designer gráfico Luciano Cunha percorreu a via crucis de todo quadrinhista talentoso com uma ideia na cabeça e um pincel na mão. Bateu à porta de várias editoras e recebeu as negativas de praxe.

No seu caso, há uma agravante. O Doutrinador é protagonizado por um tipo específico de justiceiro: um assassino a sangue-frio de políticos corruptos e daqueles que se empoleiram no poder para benefício próprio.

No primeiro tratamento da obra, lembra Luciano no posfácio, ele manteve não só a aparência das vítimas, conhecidos políticos brasileiros, mas também seus nomes verdadeiros. Não é mesmo o tipo de trabalho que uma editora aceitaria.

A saída foi publicar na internet, já com mudanças, primeiro na linha do tempo do autor no Facebook, depois numa fanpage (que conta hoje com mais de 34 mil seguidores), e finalmente num site próprio.

Os primeiros capítulos de O Doutrinador começaram a ser postados em abril de 2013. Dois meses depois, as manifestações de rua que se espalharam por todo o país potencializaram a audiência do personagem.

Nem dá para chamar de “golpe de sorte”. À sua maneira, tanto a obra de Luciano quanto os protestos têm a mesma origem: o descontentamento com seguidos desmandos da classe política.

Com a popularidade crescente e a história concluída – e ainda sem uma editora interessada – Luciano partiu para a produção independente e lançou seu personagem em versão impressa, uma edição caprichada com 84 páginas, papel de qualidade, capa e miolo coloridos.

Nossa opinião

O Doutrinador é uma obra de ficção e, como tal, deve ser analisada pelo seu caráter simbólico. A obra expressa o justo sentimento de revolta contra o Estado burocrático, corrupto e injusto, que cobra altos impostos e não oferece a contrapartida adequada em saúde, educação, segurança e bem-estar.

Expressa, também, a dificuldade de certos grupos e pessoas em conviver no ambiente democrático. Ao assumir o papel de juiz, júri e carrasco, por conta própria e sem legitimidade, o Doutrinador adquire ares de fascismo e age da mesma forma, ou pior, do que aqueles que combate.

O Doutrinador é o terrorista V num regime democrático; é o Justiceiro que mata corruptos, mas ignora o bandido comum. Com o personagem da Marvel, guarda mais uma coincidência: sua motivação política nasce da perda pessoal; sem ela, talvez continuasse cego às injustiças sociais.

Luciano tem traço preciso e domínio narrativo. Ousa na diagramação, nos ângulos e faz bom uso dos recordatórios. O Doutrinador é uma obra que merece ser lida, conhecida, não só pelo esforço do autor em publicá-la, mas também por suas qualidades como narrativa gráfica.

O personagem tem o direito de ser julgado pelos leitores. Um julgamento que o próprio Doutrinador nem sempre garante às suas vítimas.

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