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O livro de Orson Scott Card foi publicado originalmente em 1985 e voltou a ganhar notoriedade com a recente adaptação para o cinema – uma produção milionária estrelada por Harrison Ford e Ben Kingsley.

O Jogo do Exterminador, relançado neste ano pela Devir, acompanha a formação de Ender Wiggin – uma criança superdotada entre tantas outras – no líder que a Humanidade espera para evitar a terceira invasão de uma raça alienígena apelidada de “abelhudos”.

Seus treinadores, em especial o Coronel Graff, vão não só aperfeiçoar seu talento nato para a estratégia e a guerra, mas também desenvolver seu potencial para a bondade, a morte, a autopreservação e a obsessão pela vitória. Para isso, Ender é isolado, humilhado, torturado, tem a vida colocada em risco.

Como uma boa ficção científica, o livro não se atém apenas aos aspectos tecnológicos – viagens espaciais, raças alienígenas, estações futuristas –, mas também ao aspecto humano, à psicologia do homem do futuro. Apesar da narração em terceira pessoa, o leitor está constantemente na cabeça de Ender e conhece suas motivações, dúvidas, raciocínio lógico.

O autor não se esqueceu geopolítica. Elaborou uma ordem mundial de nações unidas sob a Hegemonia após a primeira invasão. Manteve uma nação dentro de outra, chamada de Segundo Pacto de Varsóvia, liderada pelos russos – na época que o livro foi escrito ainda vigorava a Guerra Fria.

Como escritor e mestre em Língua Inglesa, Card dá grande importância à palavra. Muito antes do advento das redes sociais, demonstra como a escrita pode influenciar pessoas, garantir notoriedade, conquistar o poder e até criar uma nova religião.

Por todos estes atributos, O Jogo do Exterminador é uma obra-prima da ficção científica, premiada em vários países e um dos melhores livros do gênero que você lerá na vida.

Obscurantismo

No início do ano passado, Card e sua obra ganharam notoriedade, mas por vias tortas.

Contratado pela DC Comics para escrever o primeiro capítulo de uma série de quadrinhos digitais do Superman, passou a sofrer pressão do grupo de ativistas LGBT All-Out, que em petição online pedia o fim do seu contrato com a editora.

Card é diretor de um grupo que combate a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos.

Num primeiro momento, a DC saiu em sua defesa, dizendo em nota oficial que respeita a liberdade de expressão e que a opinião de seus contratados não reflete a da empresa.

Mas quando o artista Chris Sprouse abandonou o barco por “não se sentir confortável” com a repercussão, a DC aproveitou para engavetar o projeto.

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Por conta da intolerância com a opinião contrária, justamente de um grupo que prega a tolerância, perdemos todos.

Considerando a abordagem científica e humanista que Card imprime a sua ficção, era de se esperar que fizesse um excelente trabalho com o Superman.

Filme

A versão cinematográfica de O Jogo do Exterminador (Ender’s Game) se esforça para fazer uma adaptação honesta. Há vários cortes, saltos, atalhos e mudanças esperados nesse tipo de transição do livro para o cinema.

Apesar do esforço, o resultado é desanimador. Se por um lado é interessante ver a reprodução cheia de efeitos especiais da Sala de Combate e das batalhas especiais, por outro o filme mal arranha a superfície da obscura personalidade de Ender, sua conflituosa relação com a família e as maquinações do Coronel Graff. Para tanto, precisaria, no mínimo, o dobro dos seus 114 minutos.

Sem conseguir cativar os leitores da obra original nem conquistar os não-leitores, O Jogo do Exterminador amargou uma bilheteria mundial de US$ 112 milhões, pouco mais que os US$ milhões investidos na produção.

Em tempo: outro grupo, o Geeks Out, propôs boicote ao filme para atingir Card.

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