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Antes de Watchmen: Dr. Manhattan – O gato de Schrodinger em quadrinhos

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Segundo a Física Quântica, infinitos universos coexistem ao mesmo tempo, no mesmo espaço. O que define aquele que vale daquele que não vale para o que chamamos “realidade” é o olhar do observador.

Para ilustrar esta teoria foi formulado o experimento fictício conhecido como “o gato de Schrodinger”. O animal é colocado dentro de uma caixa junto com uma ampola de veneno que pode se partir por qualquer motivo.

A tese diz que, enquanto a caixa estiver fechada, o gato pode estar vivo E morto ao mesmo tempo. Quando alguém abre a caixa os dois universos entram em colapso, e apenas um – aquele de quem olha, chamado de observador quântico – passa a existir.

O que tudo isso tem a ver com Antes de Watchmen: Dr. Manhattan? Tudo, literalmente!

A série, como se sabe, inventa (ou detalha) um passado para os protagonistas de Watchmen. Mas como fazê-lo com alguém capaz de manipular átomos e de viajar no tempo e no espaço?

Havia dois caminhos: o óbvio (“vamos mostrar como a infância difícil influenciou suas atitudes no futuro, etc e tal”) ou o inteligente.

Felizmente para os leitores, Michael Straczynski optou pelo segundo. O roteirista entrou fundo na psique do personagem, fez direitinho a lição de casa sobre Física Quântica e escreveu a melhor história de Antes de Watchmen até agora (leia aqui as resenhas de Coruja, Espectral e Rorschach).

A tal “caixa” transforma-se numa metáfora de como nossas escolhas – ou, no caso do Dr. Manhattan, a manipulação das probabilidades – abrem um leque infinito de universos possíveis.

Para o personagem, toda caixa contém mistérios: o embrulho de presente de aniversário aos nove anos; o caixão em que seu alterego humano, Jon Osterman, foi simbolicamente enterrado; a câmara de campo intrínseco que o transformou num superser; a caixa em que Capitão Metrópolis sorteia os nomes dos combatentes do crime que se tornariam os Watchmen.

Essas idas e vindas no fluxo temporal de universos possíveis são intercaladas, aí sim, com o passado do personagem: a infância na Alemanha, a morte da mãe judia nas mãos dos nazistas, a obsessão do pai por relógios e, obviamente, o envolvimento em alguns fatos vistos em Watchmen.

Straczynski misturou todos esses elementos de forma orgânica. Cada cena tem sua razão de ser, cada uma delas é um pedaço do quebra-cabeça que o Dr. Manhattan tenta montar para entender quem ele é, o que ele é, por que ele é.

O desenhista Adam Hughes dispensa comentários, mas em Antes de Watchmen: Dr. Manhattan ele cria soluções tão brilhantes para a narrativa de Straczynski que não é exagero dizer que se trata de um de seus melhores trabalhos. A título de exemplo, parte da história é contada de ponta cabeça – e, por incrível que pareça, faz todo o sentido.

Merece destaque também o trabalho de Laura Martin; a escolha das cores, além do bom gosto, é fundamental para o desenvolvimento do enredo.

Não é todo dia que se lê uma obra como Antes de Watchmen: Dr. Manhattan. Apesar da complexidade, não é “quadrinho-cabeça”. A HQ pode até desapontar leitores que estão atrás de ação – não há. Mas aqueles que se interessam minimamente por temas do universo nerd certamente vão saber apreciá-la.

Um aviso: quem nunca tiver ouvido falar do gato de Schrodinger não vai perder o prazer da leitura. A experiência é explicada de forma bem didática no meio da história.

Comentários

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2 Comments

  1. Humberto

    Ótima crítica, a edicao do Dr Manhattan é a única que merecia fazer parte do universo Watchmen, até agora. Dá para erceber o cuidado com a qual foi escrita, respeitando e entendendo profundamente o peronagem. Pena que isso não ocorreu com as edições do Rorschach e Comediante, as piores na minha opinião. Abs!

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