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A Mão e a Luva em Quadrinhos: Tradução competente

maoealuva

A editora Peirópolis vem fazendo um ótimo trabalho com sua coleção Clássicos em HQ, em que obras da literatura universal são adaptadas por artistas nacionais. Dom Quixote (de Cervantes, por Caco Galhardo), Auto da Barca do Inferno (de Gil Vicente, por Laudo Ferreira e Omar Viñole) e O Corvo, (de Poe, por Luciano Irrithum) são alguns bons exemplos.

O título mais recente da coleção é A Mão e a Luva em Quadrinhos, de Machado de Assis, com roteiro de Alex Mir e arte de Alex Genaro. A obra original foi publicada em capítulos no ano de 1874 e faz parte da fase romântica do autor.

Guiomar, jovem de bela figura e espírito independente, de origem humilde e adotada pela baronesa quando esta perdeu uma filha da sua idade, precisa administrar três pretendentes à sua mão.

Apesar de nesta fase já ficarem evidentes algumas das características mais conhecidas do Machado “realista” – o sarcasmo, a crítica social –, é curioso lembrar como no Romantismo a pureza do amor e as boas intenções superam até as mesmo as rígidas convenções sociais da época.

Alex Mir faz uma tradução (como defendem alguns teóricos, no lugar de “adaptação”) competente, sem cortes abruptos nem sobressaltos no roteiro – o que por si só já é um grande feito. O texto machadiano é tão coeso que dificulta achar o ponto de corte.

Justamente por conta dessa dificuldade, alguns quadros e mesmo páginas inteiras de A Mão e a Luva em Quadrinhos acabam sofrendo com o excesso de palavras. Mas nisso o autor original sai em socorro do roteirista: o estilo de Machado é tão instigante, especialmente nos diálogos, que mesmo a grande quantidade de texto não torna a leitura maçante.

A arte de Alex Genaro é limpa e precisa, como convém a uma obra que tem como alvo prioritário o púbico infanto-juvenil. Não sou especialista em século XIX, mas a reconstituição de época nos cenários, figurinos e gestuais parece bastante correta.

O único senão é o uso frequente de setas para indicar a sequência de leitura dos quadros. Este recurso era bastante utilizado em meados do século passado, quando os artistas começaram a romper a estrutura rígida de nove quadros por página e a inovar na diagramação.

Como ainda não tinham pleno domínio da narrativa em quadrinhos, usavam o artifício de “guiar” os olhos do leitor (da esquerda para a direita, de cima para baixo) por meio destas setas. Hoje em dia, é um recurso que empobrece a narrativa. Intencionalmente ou não, de certa forma este artifício confere um ar “retrô” à Mão e a Luva em Quadrinhos.

O livro tem 64 páginas, capa e miolo coloridos, formato 20,5 x 27 cm e preço de R$ 35.

Para quem já leu o livro de Machado, é bastante curioso visualizar a forma como os autores do quadrinho imaginaram os personagens e cenários; para quem nunca leu, é uma boa oportunidade de entrar em contato com uma das grandes obras da literatura brasileira.

Comentários

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3 Comments

  1. Alex

    Mais uma porcaria feita apenas para tirar dinheiro do governo. (isso será vendido em peso para diversas bibliotecas de escolas públicas pelo Brasil à fora…)

  2. Ao contrário do Alex, acredito que essas iniciativas de transformar em quadrinhos os clássicos da Literatura são uma boa pedida para incentivar a leitura entre os adolescentes e talvez até conquistas alguns jovens, transformando-os em leitores. Todos nós que começamos com gibis e seguimos literatura adentro, sabemos que um gibi é uma enorme fornte de prazer e aprendizado.
    Parabéns ao Mir e ao Genaro pelo resultado.

  3. Maria da Glória Souza Benevides

    Acho viável esse tipo de literatura em quadrinhos, principalmente por falar em uma linguagem mais clara e de fácil entendimento, o que já incentiva o uso por parte dos adolescentes. Parabéns pelo belíssimo trabalho, tanto do roteirista como da arte impecável do talentoso Alex Genaro. Parabéns aos Alex, e que venham outros clássicos!!!!

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