O-Homem-de-Aço-Pôster

Aviso de spoiler: o texto abaixo revela situações que podem estragar a surpresa de quem ainda não assistiu ao filme.

O Homem de Aço, que estreou no Brasil no último dia 12, tem tudo que um orçamento declarado de US$ 225 milhões pode comprar: renomados roteiristas (David Goyer e Christopher Nolan) e diretor (Zack Snyder), elenco estrelado (Russell Crowe, Kevin Costner, Laurence Fishburne) e efeitos especiais de primeira.

Os primeiros 18 minutos quebram qualquer resistência que se pode ter contra o filme. Ambientados no planeta Krypton, misturam ação, conspiração e a luta de um pai para salvar seu filho – sem contar o espetáculo visual.

A partir daí, O Homem de Aço caminha mais duas horas entre acertos, tropeços e exageros.

Entre os muitos acertos estão as cenas de luta, bem dosadas e coreografadas, e a discussão sobre o efeito que a existência de um extraterrestre teria sobre a humanidade. Daí deriva o cuidado extremo que o pai terrestre do Superman, Jonathan Kent (Kevin Costner), tem em manter ocultos os poderes do garoto – ao ponto de pagar com a vida essa convicção.

No capítulo dos erros estão algumas soluções simplistas do roteiro. A forma como Lois Lane encontra a nave kryptoniana é pueril; sua presença na nave de Zod, sem sentido; e a transição do jovem perturbado Kal-El num super-herói plenamente consciente de seus poderes (incluindo aí a aparição do uniforme) é um atropelo.

O Homem de Aço exagera nas cenas de destruição. Não me lembro de um filme-catástrofe que tenha sido mais catastrófico que a destruição de Metrópolis. Extrapola também na presença de Jor-El (Russell Crowe): sua “consciência” é mais que um registro holográfico, mais que um mentor do filho exilado; é um ser onisciente, uma entidade que interage e interfere na trama muito mais do que o aceitável. É uma muleta narrativa.

Mais importante, porém, que contar de forma competente uma boa história, o papel de O Homem de Aço para a indústria do entretenimento está em redefinir o primeiro e maior super-herói de todos os tempos.

Nisso, o filme tem uma vantagem. A última vez que a origem do Superman foi contada nos cinemas data mais de 30 anos. Assim, foi possível manter fidelidade à mitologia do personagem sem soar repetitivo. Os poucos ajustes não comprometem nem desvirtuam o conhecimento prévio dos fãs.

O Superman que surge ao final de O Homem de Aço não é muito diferente daquele que os fãs estão acostumados – com a exceção óbvia do novo visual. Henry Cavill conseguiu imprimir carisma, jovialidade e hombridade ao personagem – todos estes atributos arraigados à imagem construída ao longo de 75 anos. Construiu um Superman muito menos sisudo e sombrio do que davam a entender os trailers.

A questão de fundo está na batalha final. Muito bem arquitetada, convence a audiência que o herói não tinha outra opção a não ser matar o General Zod (o ótimo Michael Shannon). Porém, trata-se de uma quebra de paradigma que pode ou não influenciar o novo Superman nas próximas décadas.

Nos quadrinhos (pelo menos nas histórias significativas), quando Superman matou alguém ele saiu de cena: morreu (em A Morte do Superman) ou se aposentou (em O que aconteceu ao Homem de Aço).

No cinema, Superman reinicia a carreira já fazendo esta opção definitiva. Em entrevista exclusiva ao site Omelete, o diretor Zack Snyder é taxativo: “Ele tinha que matar porque o mundo não é mais o mesmo que era quando ele foi criado – ou quando o primeiro filme saiu. A inocência acabou“.

O pensamento de Snyder sintetiza o que vem acontecendo com os quadrinhos do gênero nas últimas décadas: super-heróis têm que ranger os dentes e fazer cara de mau para que sejam identificados como “reais”.

Há quem diga que é isto que os jovens leitores de hoje, mais informados e acostumados à violência, desejam. Se fosse verdade, o filme Os Vingadores não teria sido um retumbante sucesso, e HQs como Demolidor, de Mark Waid, não ganhariam prêmios.

O Homem de Aço pode não ter conquistado bilheterias estratosféricas, mas foram suficientes para animar a Warner a dar continuidade à franquia e, quem sabe, ao tão sonhado filme da Liga da Justiça.

Para o bem ou para o mal, este Superman veio para ficar. Este é o Superman dos novos tempos.

NOTA: 8

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