causo_foto-prateleiraO paulista Roberto Causo é um escritor de FC (ficção científica) de uma nova geração de bons autores nacionais e recentemente lançou pelo selo Pulsar da Editora Devir.

O Papo de Quadrinho conversou com Causo e perguntou um pouco sobre a obra e suas principais influências. Confira!

1) Fale brevemente sobre tua carreira.

Comecei a escrever ficção científica e fantasia em 1985, e a publicar profissionalmente em 1989. Desde então, nunca deixei de publicar pelo menos um conto por ano. Minhas histórias já apareceram em livros e revistas de 11 países, entre eles, Argentina, China, Cuba, França, Grécia, Portugal, República Checa e Rússia. Já publiquei mais de vinte livros, contando as antologias que organizei e algumas histórias que apareceram como livros virtuais para Kindle, e mais de setenta histórias em vários formatos e veículos.

Também colaborei com a área de cultura da Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e Jornal da Tarde, e das revistas Cult, Isaac Asimov Magazine, Dragão Brasil, Ciência Hoje, Livro Aberto (onde mantive uma coluna sobre FC e fantasia), Locus (dos EUA) e Quark, entre outras. Tenho uma coluna sobre o assunto no Terra Magazine, a revista eletrônica do Portal Terra.

2) Porque escolheu o gênero ficção científica, que historicamente sempre foi considerado menor na literatura?

Justamente por discordar dessa opinião. É preciso enfrentar esse tipo de preconceito escrevendo e produzindo material de qualidade. A ficção científica é um gênero privilegiado para se discutir a realidade em que vivemos, de maneira crítica e levando em conta a ciência e a tecnologia, hoje os condicionais mais fortes das mudanças sociais e políticas. Ao mesmo tempo é uma literatura que fornece um senso do maravilhoso e que faz a gente olhar para situações que vão além do imediato – o universo, o futuro distante, outras possibilidades de existência.

3) Quais foram as principais influências que ajudaram a criar o plot de Glória Sombria?

No romance, o herói Jonas Peregrino enfrenta enxames de naves robôs dos alienígenas conhecidos como tadais. Essa ideia acho que tirei da série alemã Perry Rhodan, que existe desde 1961 e da qual sou fã de carteirinha. Hoje ela parece mais atual do que nunca com os drones americanos de ataque, hoje teleguiados mas com planos para operarem sozinhos no futuro, uma possibilidade assustadora.

No livro Peregrino deve montar uma unidade de operações especiais para evitar que aliens exterminem os habitantes também alienígenas de um planeta duplo. A doutrina dessa unidade militar foi baseada no livro Spec Ops: Case Studies in Special Operations Warfare, de William McRaven, o sujeito que planejou a operação que assassinou o líder da al-Qaeda, Osama bin Laden. Eu certamente li outros livros de história militar, e um punhado de livros recentes de space opera militar de Jack Campbell, Karen Traviss e David Weber, por exemplo, para ter uma ideia das tendências atuais. Mas também para saber do que eu discordo e que desejo abordar na série escrevendo contra – a naturalização do genocídio, por exemplo. Um livro que nos lembra do quão terrível é esse crime, é o romance O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Card, certamente uma influência positiva. Outra, na mesma linha, é o romance de ficção militar de Anton Myrer, Uma Vez uma Águia (1968), um dos meus favoritos. Dele vem a obrigação de tratar de pessoas que sentem as consequências da guerra e dos seus próprios atos.

4) Até que ponto esse fenômeno crossmedia é positivo para a ficção científica?

Glória Sombria faz parte de uma série de narrativas que já existe há algum tempo, como noveletas e contos em revistas e antologias. O artista Vagner Vargas, fundador da Aquart Creative, montou o site GalAxis: Conflito e Intriga no Século 25 para divulgar o projeto e veicular conteúdos exclusivos. Também já existe um pôster com a capa do livro, e estudamos outros produtos para o futuro, como jogos e quadrinhos.

A ficção científica é o gênero narrativo que domina hoje o cinema, a indústria dos games e as HQs. Funciona assim porque a FC é muito visual e de reconhecimento imediato. Essa perspectiva é bem menos exercitada porque exige recursos que não estão disponíveis e porque o material estrangeiro ocupa todos os espaços. Mas nós estamos dispostos a pelo menos ensaiar alguma coisa nesse sentido.

5) Como anda o mercado de ficção científica/fantasia no Brasil?

Houve uma explosão editorial neste começo de século, como nunca vista antes na história local desses gêneros. Especialmente a fantasia, é claro, e a fantasia para jovens em particular.
A ficção científica segue atrás, mas também tem crescido. Autores brasileiros, novos ou veteranos, não encontram grandes dificuldades para publicar. Aos poucos, o mercado também vai se profissionalizando, com sucessos de vendas e autores que estão até sendo publicados no exterior – como Eduardo Spohr e Jacques Barcia. Acho que é um bom momento para apostar em um projeto de ficção científica de características marcantes e dentro de um universo ficcional que pretende se alongar por um tempo e em vários formatos.

 

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