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A polêmica história que revelou a homossexualidade do super-herói Lanterna Verde (Alan Scott) no Restart da DC acaba de chegar ao Brasil. Quando foi lançada, em agosto do ano passado, a segunda edição de Earth-2 ganhou destaque na grande mídia tanto de fora como daqui.

A história foi publicada pela Panini neste mês no mix da revista Universo DC número 10. Como adiantado quando do lançamento dos Novos 52 no Brasil, a editora não fez menção ao conteúdo ou indicou a classificação etária na capa.

Nos Estados Unidos, Earth-2, recebe classificação T (Teen), que significa “conteúdo normalmente indicado para idade de 13 anos ou mais. Pode conter violência, temas sugestivos, humor grosseiro, pouco sangue, jogos de azar e/ou linguagem inadequada”.

Papo de Quadrinho pediu a opinião de dois colecionadores e estudiosos dos quadrinhos sobre a classificação etária em revistas de super-heróis com cenas de relacionamento gay. Veja as opiniões:

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CONTRA

Antonio dos Santos, editor do blog de cultura pop Popground.

Acredito que um sistema que classifique histórias que lidam com violência e morte, elementos claramente danosos para leitores mais jovens, é de fato interessante. Mas quando se levanta esse questionamento logo após a representação de um simples beijo, um gesto consensual de afeto entre dois personagens adultos saudáveis, vemos um claro teor de preconceito aí.

Qualquer classificação etária deve seguir preceitos estabelecidos por profissionais de psicologia infanto-juvenil, não o posicionamento reacionário de certos setores da sociedade ou preceitos religiosos que não são partilhados por todos.

Relacionamentos humanos são por natureza complexos, multifacetados, e obras voltadas para diferentes idades devem, por necessidade, focar de forma diferente cada um desses elementos. Mas dizer que um tipo de relação não deve sequer ser citada em uma obra de livre classificação é invalidar essa relação no sentido social.

Se todos temos os mesmos direitos, então todos devem ser livres para manifestar suas inclinações sem represálias ou censura. E a representação dessas manifestações como algo normal é importante nesse processo de aceitação.

Apresentar uma relação homossexual como algo impróprio mesmo quando o foco não está na sexualidade é alegar diretamente que os homossexuais não devem ser representados. É ser, sim, preconceituoso.

Todo pai tem o direito de criar os filhos como quer, discutindo os assuntos que quiser quando quiser, mas esse pai não pode exigir que uma empresa ou o governo faça esse trabalho por ele; esse pai não pode exigir que entidades que não partilham de seu ponto de vista obedeçam às mesmas regras que ele segue em sua casa.

 

A FAVOR

Clayton Godinho, editor do blog Chamando Superamigos e colaborador da revista Mundo dos Super-Heróis

Livros, filmes, jogos eletrônicos, desenhos animados, todos eles possuem classificação indicando o conteúdo. Porque os quadrinhos não? Com a liberdade que os roteiristas estão tendo hoje para criarem situações que anos atrás seriam evitadas, vale a pena pensar nisso.

No caso em questão fica claro que mesmo com toda abertura, o assunto ainda é passível de discussão. Quando defendo isso, não faço como forma de censura; pelo contrário: quadrinhos como esse vão parar na mão de crianças, seja comprado por algum responsável ou até mesmo em uma biblioteca pública.

E aí entram vários aspectos legais que regem a obrigação da informação, atribuição do Estado através da Constituição, do direito familiar garantido no Código Civil e do Estatuto da Criança e Adolescente que dá acesso à cultura e arte sempre levando em conta o indivíduo em formação intelectual.

Ao dizer o que vai ser encontrado nas páginas de uma HQ, dá-se aos pais e responsáveis o direito de decidir se isso é adequado para seus filhos, sempre garantindo a liberdade de expressão criativa. Nada mais justo numa sociedade democrática.

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