por Antonio Santos, especial para o Papo de Quadrinho

A grande notícia no mundo do entretenimento na semana passada foi a compra da LucasArts pela Disney. Assim como aconteceu quando a empresa do Mickey Mouse adquiriu a Marvel em 2009, as preocupações dos fãs se manifestaram imediatamente internet afora, com alegações de que agora o universo Star Wars iria pro buraco mesmo, que as histórias do universo seriam infantilizadas e todos os outros argumentos pré-prontos que aparecem toda vez que uma novidade é anunciada.

Mas a realidade é que essa é provavelmente a melhor coisa que poderia ter acontecido com o universo Star Wars – e o universo do Indiana Jones também, além de todas as outras propriedades intelectuais menores da LucasArts.

Em primeiro lugar, vamos tirar o preconceito do caminho. Embora o nome Disney seja amplamente associado a produtos e personagens infantis, a realidade é que as empresas Disney são o maior conglomerado de entretenimento do planeta, atendendo os públicos mais diversos em todo o mundo. Assiste esportes na ESPN? Disney. Lê quadrinhos ou vê filmes Marvel? Disney. Se emociona com as obras de arte cinematográfica da Pixar (que são muito mais que filmes infantis)? Disney.

Graças a todo esse poder (e a grana que ele gera) a Disney tem entre seus funcionários alguns dos melhores contadores de histórias da cultura pop atual. Além disso, a empresa possui uma forma de administração muito eficiente, permitindo quase total independência para as empresas que adquire e inserindo os principais executivos destas empresas em seu conselho de diretores. Uma empresa adquirida pela Disney não só continua livre para fazer o que faz melhor: ela também ganha voz ativa nas decisões que afetam a empresa-mãe. E ainda ganha apoio em áreas como marketing, TV e licenciamento, o que não faz mal algum, pelo contrário.

Não que a LucasArts precise de ajuda com esses campos. Star Wars é uma franquia que abrange alguns dos jogos, animações e livros mais populares do mundo, alcançando um sucesso enorme por todo o planeta. Mas a realidade é que mesmo assim, o universo não alcança todo o seu potencial porque o carro-chefe da franquia – os filmes – permanecem presos à estrutura definida pelo criador, George Lucas.

Aí vem aquele fato incômodo que quase todo fã de Star Wars tem que encarar: George Lucas perdeu o contato com seus fãs. Antes um criador certeiro e profundamente conectado com seu público, Lucas se tornou um obcecado por novas tecnologias e por corrigir “erros” em suas obras que só ele mesmo vê. Embora a franquia possua muitos produtos diferentes, coordenados por diversas mentes criativas, a realidade é que Lucas sempre foi centralizador. Sendo assim, muitas das ideias geniais do Universo Expandido, o grande pano de fundo que abrange jogos, quadrinhos e livros fica relegado a esses produtos, sem jamais chegar aos cinemas e ao grande público. O universo Star Wars cresceu e foi muito além de George Lucas, mas era a voz dele que filtrava o que o grande público via desse universo.

Se o Batman ainda fosse limitado apenas pela visão de Bob Kane, nunca teríamos Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, ou os filmes da trilogia de Chris Nolan. Se os X-Men ainda tivessem a formação inicial de Stan Lee e Jack Kirby, nunca teríamos lido sobre o fascinante Magneto de Chris Claremont, ou personagens como Wolverine e Noturno. É mais ou menos o que ocorre com Star Wars no cinema. Acompanhamos com prazer a saga dos Skywalker por seis filmes e numerosos produtos, mas já é hora de ir além, acompanhando tudo que foi explorado nos livros e jogos. E, depois, ir ainda mais além. Esse universo é infinito em potencial. Isso é uma raridade no mundo do entretenimento e merece ser explorado plenamente. Nós, fãs, agradecemos.

Com a compra, a Disney ganha o poder de explorar todo esse arsenal criativo sem as limitações impostas por Lucas. Ao mesmo tempo, a empresa já tem uma ampla experiência em administrar novos materiais sem descaracterizar o que os faz únicos (afinal, o Pateta ainda não entrou para os X-Men). O universo Star Wars é tão amplo e tão cheio de potencial que ele precisa de mais vozes e pontos de vista diferentes para crescer. George Lucas não permitia isso. Já a Disney não tem outra opção a não ser permitir isso, já que o melhor para a empresa é explorar o potencial criativo de todos os seus funcionários.

Nada garante, claro, que o Universo Expandido será realmente a base dessa nova fase, mas quer saber? Isso não importa realmente. O importante é a inovação, algo que a direção de Lucas já não oferecia. As novas histórias que surgirem muito provavelmente não vão se opor ao background que foi estabelecido, já que não é do interesse da Disney alienar os fãs, mas serão histórias novas e diferentes. Novamente: nós, fãs, agradecemos.

Antonio Santos escreve para o Popground, o mais novo site sobre cultura pop.

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