Avenida Paulista é provavelmente uma das histórias menos lidas e mais aclamadas da história dos quadrinhos brasileiros. Em boa parte porque, originalmente, foi uma encomenda para a Revista Goodyear, de circulação restrita a clientes, revendedores, distribuidores e outros públicos ligados à empresa.

Publicada em 1991 com o nome Fragmentos Completos, esta edição lançada pela Quadrinhos na Cia. é, portanto, a primeira vez em que a história chega ao público em geral. E que história!

Luiz Gê dispensa apresentações. Ao lado de Laerte, Angeli, Glauco e outros, foi um dos expoentes no novo quadrinho brasileiro surgido nos anos 1980. Seu estilo característico é um espetáculo visual, principalmente na construção de grandes cenários.

Avenida Paulista é resultado de uma ampla pesquisa história e iconográfica, e conta a história dos primeiros 100 anos da avenida-símbolo de São Paulo. Seu nascimento é resultado direto do crescimento econômico da cidade com a cafeicultura e a chegada das ferrovias. E, assim, Gê vai narrando sua evolução desde uma travessia de bois, passando pela transformação em point da aristocracia paulistana, com seus bulevares e casarões, até o atual estágio de centro nervoso do capitalismo financeiro.

Toda essa trajetória, Luiz Gê o faz com um misto de ficção e realidade, de cenários e situações surrealistas. Um dos recursos mais bem empregados para ilustrar a velocidade das transformações se dá no descolamento de alguns personagens no tempo, como se a avenida tivesse vida própria e pudesse mudar toda sua paisagem num atravessar de ruas. Textos intercalados aos quadrinhos vão completando o entendimento do leitor com o pano de fundo histórico e social.

O único ponto negativo é que, na penúltima parte, a narrativa assume um tom panfletário desnecessário. O neoliberalismo é apontado como o culpado pela deterioração da avenida. Gê cita o aumento das dívidas pública e externa no início dos anos 1990, mas não lembra que a inflação era superior a 1.000% ao ano; lamenta a privatização das empresas de telecomunicação, mas não menciona a universalização da telefonia no País; afirma que “por sorte” o Brasil se desvencilhou do neoliberalismo, mas não assume que sem a estabilidade do Plano Real os governos seguintes não teriam nem base sobre a qual crescer.

Felizmente, na última parte o autor retoma o tom otimista e prevê um mundo mais humano, participativo, de tecnologia voltada ao bem-estar – e traduz tudo isso num visual quase bucólico de morros retomando o lugar dos edifícios envidraçados. Um futuro melhor, sem dúvida.

Avenida Paulista tem 88 páginas, capa e miolo coloridos, formato 21 x 27 cm e preço de R$ 39. Vale o investimento.

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