Para sorte dos leitores, tem sido cada vez mais comum a publicação de HQs vindas de países com pouca tradição neste gênero. É o caso da iraniana O Paraíso de Zahra, que a editora Leya/Barba Negra lançou no Brasil no início deste ano, de autoria de Amir e Khalil.

Os nomes dos autores são fictícios e é fácil entender por quê. Predomina no Irã a censura, o medo, a ameaça – frutos de uma leitura torta do Alcorão, livro sagrado do Islamismo, e do regime teocrático dos aiatolás.

O livro em quadrinhos faz uma denúncia do clima de terror a que a população comum é constantemente submetida. A trama tem inícios com os protestos populares que se seguiram à fraudulenta eleição presidencial de 2009 que manteve Mahmoud Ahmadinejad no cargo.

Mehdi, filho de Zahra, desaparece em meio à onda de repressão às passeatas e tem início uma busca desesperada pelo rapaz. A história é narrada por Hassan, irmão de Mehdi, por meio de um blog.

A partir daí, O Paraíso de Zahra cumpre a função didática, pelo menos para nós, do Ocidente, de revelar o quanto o Irã está tomado pelo aparelho burocrático do Estado, pelo silêncio, pelo desdém das autoridades com a aflição da população, pelo apadrinhamento, pela corrupção.

Zahra e Hassan transitam pelas esferas do poder, de delegacias de polícia à porta da prisão de Edin, de hospitais a necrotérios. Infelizmente, sua jornada termina no cemitério da capital Teerã, conhecido como Zahra’s Paradise.

O Paraíso de Zahra tem sido comparado a obras como Persépolis, Maus e outras de Joe Sacco. Por sua relevância, concordo; por seu conteúdo, não.

O trabalho de Amir e Khalil não tem o caráter autobiográfico dos dois primeiros nem o rigor jornalístico de Sacco. É uma história ficcional, porém baseada em um fato concreto – as eleições de 2009 – e em toda a cultura de terror vigente na Irã.

É um alerta e uma denúncia contra os direitos civis da população daquele país; é, também, um retrato da força da rede mundial para desfazer fronteiras e driblar a rigidez da censura. Antes de virar livro, a HQ foi publicada na Internet em 12 diferentes idiomas.

O livro traz, ainda, um posfácio bastante elucidativo, como glossário dos termos mais comuns, significados dos nomes, contexto das eleições presidenciais e o chocante Memorial Omid, uma lista com quase 17 mil nomes de pessoas assassinadas pela República Islâmica do Irã nas últimas décadas.

O Paraíso de Zahra tem 272 páginas, formato 16 x 23 cm, capa colorida, miolo p&b e preço de R$ 39,90. Vale o investimento.

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