Daniel Clowes é “o” cara! No início dos anos 1990, então com quase 30 anos, conseguiu captar os anseios (ou a falta deles) de toda uma geração em Mundo Fantasma. Vinte anos depois – portanto, entrando na casa dos 50 –, Clowes pinta o pior retrato possível da meia-idade em Wilson, personagem que dá nome ao livro em quadrinhos lançado neste mês pela Quadrinhos na Cia.

Wilson, o personagem, é uma coleção ambulante dos maiores defeitos do ser humano: egoísta, insensível, intrometido, grosseiro, rancoroso. Fica fácil entender, logo de cara, porque ele é tão solitário.

Ainda assim, é difícil não se identificar com ele nas passagens em que fala, às claras e na cara, aquilo que só temos coragem de dizer pelas costas.

Claro que de sua posição privilegiada, o leitor acaba rindo de cada situação que Wilson cria com quem der o azar de cruzar seu caminho (aqui cabe uma nota pessoal: li quase toda a HQ no metrô, com fones de ouvido, e pelos olhares ao redor acredito que gargalhei uma ou duas vezes sem perceber).

Em seu mais recente trabalho, Clowes inova também no uso da linguagem dos quadrinhos. Cada página de Wilson foi concebida como uma tira cômica, de sentido completo, com meia dúzia de quadros. Isso fica ainda mais evidente na preocupação do autor em dar a cada página/tira um título e um estilo artístico único, como se cada uma tivesse sido produzida por um desenhista diferente.

Porém, no conjunto, as páginas formam uma história completa, uma aparente busca do incorrigível Wilson por redenção. Depois de barbarizar pela vizinhança e testemunhar a morte de seu pai, a sensação de vazio o invade; ele parte em busca da ex-mulher e descobre que, quando ela o deixou, estava grávida e deu a criança para adoção.

Dentro de sua ótica egocêntrica, Wilson acha que pode recomeçar a vida em família – ele só esquece de perguntar se as partes envolvidas estão dispostas a conviver com ele.

Assim como em Mundo Fantasma, ao final Clowes deixa transparecer sua visão pessimista (ou realista) do mundo. Neste sentido, Wilson lembra a rebelde Enid: se você passa a vida inteira afastando as pessoas, seu destino poderá ser bem solitário…

Apesar do grande conhecimento de causa, Clowes parece não padecer do mesmo mal de seu personagem. Pelo menos é o que diz a autobiografia na última página: ele mora com sua mulher, um filho e um cão. Isso só demonstra o alto grau de sensibilidade e percepção do autor, seja para retratar uma geração inteira seja para capturar a vida de uma única pessoa.

Wilson, o livro, é divertido, instigante e inteligente. Tem 80 páginas, capa e miolo coloridos, formato 20 x 27 cm e preço de R$ 39,00. Vale o investimento.

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