O romance de Oscar Wilde está entre meus livros preferidos. Confesso que meu primeiro contato com a obra não foi dos melhores. Peguei-a para ler ainda muito jovem e o clima homoerótico das primeiras páginas me fez desistir. Só mais tarde voltei a ela e fui perceber seu verdadeiro significado.

Para quem não conhece a trama, trata-se de uma variante do mito de Fausto. O jovem Dorian Gray, belíssimo, rico e aristocrata, apaixona-se de forma febril pelo próprio retrato, pintado pelo amigo e protetor Basil Hallward.

A paixão transforma-se em ciúme da própria imagem e Gray deseja do fundo do coração que ela passa a sofrer em seu lugar não só a passagem do tempo, mas também todas vicissitudes causadas por seus desvios de caráter.

Enquanto Gray mantém a aparência jovem e inocente, o quadro – escondido no sótão de sua mansão, longe da vista de todos – reflete a verdadeira podridão de sua alma. Ainda mais depois que Gray torna-se discípulo do hedonista Lorde Henry Wotton e decide tomar da vida todos os prazeres que ela tem para oferecer.

Em O Retrato de Dorian Gray, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, o escritor e desenhista francês Stanislas Gros faz uma ótima adaptação da obra de Wilde.

A HQ reúne as principais passagens do livro e deixa a leitura agradável tanto para quem conhece como para quem nunca teve contato com o original. Mais que isso: com seu traço simples e narrativa fluida, Gros acrescenta à trama referências literárias e estéticas suas e do próprio Wilde.

Como exemplo, o autor misturou frases de Lorde Henry tiradas do livro com citações niilistas de Nietsche (esta informação foi retirada do posfácio e tendo a acreditar nela, já que nunca li Nietsche). Há referências também a Baudelaire e ao romance Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos.

Gros lança mão de um interessante recurso narrativo para representar o que mais instiga no leitor do livro de Wilde: imaginar a decadência da alma de Dorian Gray refletida no retrato a cada novo crime, infâmia ou vida destroçada.

Na HQ, a partir de determinado ponto, o último quadro de todas as páginas ímpares é dedicado a esta degradação, de forma que o leitor pode acompanhar quem é o verdadeiro Gray – a despeito da imagem angelical que estampa no restante da página.

Curioso notar que, no fundo, O Retrato de Dorian Gray é uma obra conservadora. Em que pese Wilde ser um adepto da beleza e do prazer em detrimento da moral ou das convenções sociais, não permite o mesmo a seu personagem. Ou, se permite, não deixa de alertar o leitor do dano que isto provoca à alma.

O Retrato de Dorian Gray tem 72 páginas, capa e miolo coloridos, formato 20,5 x 27 cm e preço de R$ 34,50. Vale o investimento.

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