É verdade que toda lista é polêmica. Se há uma unanimidade este ano, pelo menos entre os jornalistas que cobrem quadrinhos, é a dificuldade em escolher as “melhores HQs”, tamanha a quantidade, qualidade e diversidade de lançamentos – inclusive de nacionais e independentes.

É verdade que toda lista tem limitações. Na nossa, a primeira é autoimposta: escolher apenas 10 títulos. Por isso, tiveram que ficar de fora e merecem menção honrosa livros como Um Sábado Qualquer, de Carlos Ruas; Dreadstar, de Jim Starlin; Valente para Sempre, de Vitor Cafaggi; Histórias do Clube da Esquina e Auto da Barca do Inferno, de Laudo Ferreira e Omar Viñole; 3 Tiros e 2 Otários, de Daniel Esteves e Caio Majado, e os encadernados de Jonah Hex, de Jimmy Palmioti – só para citar alguns.

Curiosamente, o gênero que domina as bancas, o de super-heróis, não teve nenhum grande destaque neste ano. O que saiu de melhor foram os encadernados Thor, o Despertar dos Deuses e Lanterna Verde – Origem Secreta. Mas em razão de outra limitação da lista – não entram relançamentos –, também ficaram de fora.

A terceira limitação é que a lista contempla apenas as HQs lidas pelos editores deste blog. Foram muitas, mas não chegam nem perto de cobrir 100% dos lançamentos do ano.

Com tantas falhas, esta lista de Melhores HQs de 2011 não se pretende unânime nem definitiva. Mas que sirva, ao menos, como um bom guia de leitura para aqueles que desejam conhecer parte do que de mais interessante o mercado ofereceu no ano que termina.

Vamos a ela:

As Melhores HQs de 2011, por Jota Silvestre

1) Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá (Panini): A morte vive a flertar conosco, mas quando ela vem dar seu abraço fatal? Num dia simples de brincadeira infantil? No dia em que descobrimos o verdadeiro amor? Daytripper apresenta as muitas possíveis vidas do escritor Brás Domingos e mostra que o dia mais importante da vida é o hoje, pois nunca há a certeza do amanhã (leia resenha completa aqui).

2) Asterios Polyp, de David Mazzucchelli (Quadrinhos na Cia): Uma HQ em que todos os recursos da narrativa gráfica estão a serviço da epopeia pessoal de Asterios Polyp, o arquiteto aposentado que embarca numa viagem de autoconhecimento depois que seu apartamento pega fogo. Nascimento, carreira, casamento, divórcio e uma estranha obsessão por duplos opostos são narrados pelo irmão gêmeo natimorto de Asterios (leia resenha completa aqui).

3) Mundo Fantasma, de Daniel Clowes (Gal Editora): Retrato da juventude norte-americana dos anos 1980, em que duas amigas se valem das armas que têm – sarcasmo, crueldade, egoísmo – para lidar com um mundo que não conseguem compreender. Mundo Fantasma é uma obra sobre a transição para a inexorável chegada da vida adulta e a conseqüente morte dos sonhos (leia resenha completa aqui).

4) Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli (Quadrinhos na Cia): Mutarelli volta aos quadrinhos, depois de anos afastado do gênero, em grande estilo. A história surreal do viúvo que manteve um contato imediato de primeiro grau é acentuada pela confusão de suas memórias com a de outros desconhecidos, refletida na disposição desconexa dos vários quadros que compõem o livro. (leia resenha completa aqui).

5) Duo.Tone, de Vitor Cafaggi (independente): Poucos artistas conseguem representar a visão de mundo de uma criança com tanta sensibilidade como o mineiro Vitor Cafaggi. Duo.Tone versa sobre as brincadeiras de super-heróis, os amigos imaginários e a dor de abandonar tudo isso em troca de um suposto amadurecimento. O traço, as expressões e as cores reforçam o caráter lúdico da obra (leia resenha completa aqui).

6) Zoo 2 – Jogos de Predadores, de Nestablo Ramos (HQM Editora): Segunda parte da fábula moderna em que animais e humanos trocam de papéis: estes são os oprimidos e aqueles, os opressores. Os animais carregam todos os vícios da humanidade, inclusive o gosto pela violência e pela fama passageira. Mas nada é o que parece em Zoo, e um grupo de defensores de humanos está prestes a decifrar seus segredos. Este segundo volume começa a desvendar o mistério, inclusive por meio da história de vida de Sims, o herói chimpanzé.

7) Combate Inglório, de Archie Goodwin e vários autores (Gal Editora): Obra antológica e pacifista, publicada em plena guerra do Vietnã, reúne consagrados artistas. A série sofreu censura e boicote à época de seu lançamento até ser cancelada, e chegou pela primeira vez ao Brasil reunida em edição única. As histórias, ambientadas em diferentes conflitos armados da história, demonstram a estupidez das guerras.

8) Três Sombras, de Cyril Pedrosa (Quadrinhos na Cia): Um casal e seu filho levam uma vida simples até que passam a ser assombrados pelas três sombras do título. Espanto, revolta, fuga e resignação se sucedem no enfrentamento da única certeza da vida: a morte. Uma bela história, uma arte precisa e sensível e uma amostra do tipo de sacrifício que o amor de um pai por seu filho é capaz. Uma demonstração, também, de que a vida segue, para os que ficam e os que se vão.

9) Saino a Percurá – Ôtra Vez, de Lelis (Zarabatana Books): Apanhado de “causos”, a maioria inédita, sobre a vida nem sempre pacata nos rincões do Brasil. As tramas têm traços da literatura de Cordel, amparadas pelos tipos retratados pelo traço e aquarelas de Lelis. As tramas retratam a inocência e a malícia do matuto em confronto com a chamada “modernidade”. Embutidos nos contos, há a crítica social, de costumes, da suposta superioridade do cidadão típico das grandes cidades.

10) Birds, de Gustavo Duarte (independente): A arte expressiva de Gustavo Duarte dispensa qualquer texto, sejam legendas, balões ou onomatopeias. Birds apresenta a manhã tumultuada de dois pássaros-homens num encontro inesperado com a morte. Quanto mais eles se esforçam para escapar de seu destino, mais caminham em direção a ele (leia resenha completa aqui).

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