Imagine que suas lembranças sejam fotografias guardadas num álbum; imagine, também, que você coleciona fotografias de outras pessoas numa caixa. E que, num dado momento da vida, já velho, você embaralhe o conteúdo do álbum e da caixa a ponto de não mais distinguir quais lembranças são suas e quais são dos outros.

Esta metáfora é o coração de Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, que marca a volta de Lourenço Mutarelli a um dos gêneros que o consagrou: os quadrinhos.

A mistura das imagens-lembranças não só faz parte da história do protagonista como também define todo o estilo narrativo do livro.

O único elemento mais ou menos linear é o texto. De resto, ele se mistura ou é intercalado com cenas fora de ordem, de contexto, de diferentes personagens. Da mesma forma que fotografias misturadas.

Mutarelli criou uma história composta com quadrinhos de um quadro só, cada qual numa página. Não há conexão, continuidade ou relação de causa e efeito entre eles.

Este opção estilística é essencial para destacar a arte gráfica primorosa Mutarelli e, ao mesmo tempo, aumenta o clima surreal da história: um aposentado que leva uma vida regrada perde a esposa num acidente banal e dias depois tem um contato imediato de primeiro grau!

O próprio narrador, filho do casal, já não é tão jovem – ele relata os fatos dez anos depois da morte do pai – e mal presenciou os presenciou. Então, é provável que também ele esteja misturando versões e lembranças (dele, do pai e de outros).

Uma imagem recorrente no livro lembra um retrato do velho pai. À medida que ela se repete, o homem envelhece, ganha novas texturas, perde a nitidez. Seu olhar fixo desconcerta o leitor, o coloca no camarote para assistir à sua degradação física e mental.

Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente é retorno de Mutarelli em grande estilo. A Companhia das Letras fez justiça à sua relevância numa edição caprichada formato landscape (27,5 x 21 cm), capa dura, colorida e impressa papel pólen bold. O preço é R$ 44,50.

É um livro para ler e reler muitas vezes, tentando descobrir conexões entre imagem e texto que não existem. Essas tentativas vãs colocam o leitor num papel ativo na história, ao tentar, ele próprio, encontrar uma lógica nas fotos embaralhadas.

Nesta sexta-feira (16), tem sessão de autógrafos de Mutarelli na loja O Cara dos Quadrinhos, na Galeria do Rock, em São Paulo.

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