Há uma razão bastante simples para a HQ dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá ter sido ovacionada pela crítica, conquistado a maior premiação dos quadrinhos americanos (o Eisner Awards) e esgotado as duas edições brasileiras em tão pouco tempo.

A razão é uma só: a HQ é sensacional. É um daqueles trabalhos que deveria encher de orgulho todos os brasileiros que lidam com quadrinhos, leitores e produtores.

A trama sobre os vários momentos da vida do escritor Brás de Oliva Domingos presta-se a uma reflexão sobre a morte, os sonhos não realizados, os momentos que realmente importam.

Em qual momento a morte nos dará seu abraço fatal? No dia mais importante da nossa vida, como o nascimento de um filho ou a descoberta do amor verdadeiro? Num instante frugal de brincadeira de criança? Estaremos perto ou longe de nossos entes queridos?

Daytripper, que poderia chamar-se também “As Muitas Vidas de Brás Domingos”, levanta mais perguntas que respostas. É uma HQ adulta sem deixar de ser lúdica. É uma história realista, uma sequência de crônicas, sem deixar de ser onírica. O traço firme, porém sublime, de Fábio Moon reforça essa sensação dúbia.

Cada capítulo funciona como uma realidade alternativa da vida de Brás, um “o que aconteceria se…?” a Dona Morte não viesse assaltá-lo. Não à toa, a escolha do nome machadiano do protagonista remete ao narrador desencarnado de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Ainda assim, cada capítulo amarra-se perfeitamente aos demais, criando uma cronologia do que é e do que poderia ser.

O capítulo final faz uma reflexão à parte do papel dos filhos e dos pais, e o papel transformador que a troca de um pelo outro representa na vida de um homem. Difícil não se emocionar.

Daytripper tinha apenas um defeito: o preço quase proibitivo de R$ 62. Não é que o trabalho não mereça o acabamento de luxo dado pela Panini. Não é que a edição caprichada, capa dura e papel de qualidade não valham os R$ 62. Mas um trabalho de tamanha qualidade feito por artistas brasileiros deveria chegar de forma mais acessível ao maior número possível de leitores brasileiros.

Como eu disse, “tinha” um defeito. Segundo o Universo HQ, a terceira edição ganhará também uma versão com capa cartonada, distribuição setorizada em bancas e preço de R$ 24,90.

Vai por mim, vale cada centavo. Daytripper é uma das melhores HQs do ano e o trabalho mais maduro de Gabriel Bá e Fábio Moon. Uma pequena obra de arte, um retrato do amadurecimento artístico da dupla. Fico ansioso para saber o que eles vão aprontar daqui em diante.

Um depoimento pessoal

Encontrei os gêmeos Moon e Bá pela primeira vez há mais ou menos dez anos, durante o trabalho num evento no Parque Ibirapuera. Eles passaram uma tarde de sábado fazendo caricaturas dos visitantes. O tal evento, chamado Movimento GNT, era bimestral e soube depois que eles pediram para voltar à edição seguinte e repetir a maratona de caricaturas.

Apesar de exaustivo, dava para perceber que ambos se divertiam naquele trabalho. Fico imaginando a quantidade de personagens que eles não vislumbraram naquelas dezenas de pequenas histórias de vida que se sentavam em frente a eles.

Daytripper é apenas um dos muitos exemplos de que o quadrinho brasileiro prescinde de protecionismo estatal oferecido pelo sistema de cotas. Precisa, sim, de talento e perseverança. Coisas que, acredito, nossos artistas têm de sobra.

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