Meu primeiro contato, rápido, com o trabalho do mineiro Vitor Cafaggi foi por meio das tirinhas online Punny Parker. Por falta de tempo e de hábito, não acompanhei as publicações da forma que deveria.

Mas foi sua história na primeira edição da coletânea MSP 50, Minha Visão Preferida, que me arrebatou. Em meio a tantos artistas consagrados que prestavam homenagem aos 50 anos dos estúdios de Mauricio de Sousa, o traço delicado e sua visão sensível do Chico Bento gritavam que ali havia algo especial. Foi uma das mais belas histórias em quadrinhos que já li até hoje.

Depois veio outra coletânea, Pequenos Heróis. Amparado pelo singelo roteiro de Estevão Ribeiro, Vitor deu uma graça toda especial ao menino cadeirante que queria ser mais rápido que o Flash!

Eis que finalmente me deparo não com um, mas com dois trabalhos solos deste talentoso artista: Valente para Sempre e Duo.tone, sensação no estande do coletivo mineiro Pandemônio no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte de 2011.

Valente para Sempre é uma compilação das 72 tiras publicadas no jornal O Globo. Num mundo habitado por animais, Valente é o cãozinho apaixonado e idealista, numa busca ansiosa pela garota disposta a receber todo o amor que ele tem para dar.

Apesar do tom de fábula, o mundo de Valente é o mundo real, com sua cota de dissabores, dúvidas, angústias e aquela insegurança típica da pré-adolescência, que o protagonista não sem importa em compartilhar com sua melhor amiga Bu e com todos os leitores.

Ao entrar na cabeça de Valente, torcer por ele, rir dele, cada leitor, a seu modo e de acordo com a própria história de vida, vai fatalmente identificar-se com uma ou outra desventura.

Em Duo.tone, primeiro Vitor Cafaggi nos brinda com um fantástico mundo da fantasia infantil para, em seguida, nos jogar de volta, sem dó, ao mundo real. O nó na garganta é inevitável.

Tim é um garoto da fazenda, um “bichinho do mato”, como diz sua mãe, com uma incrível imaginação. Ele nos faz lembrar nossos próprios amigos imaginários. Quem não os teve?

Trocar tudo isso pela cidade grande e um mundo de concreto funciona como uma analogia para o inevitável amadurecimento – e de tudo que precisamos deixar para trás, literal e metaforicamente, mesmo contra a vontade.

Nos dois trabalhos, impressiona a naturalidade com que Vitor Cafaggi passeia pela mais singela fantasia e a facilidade com que transmite sentimentos por meio de seus personagens de cabeça grande e olhos miúdos. A paleta de cores – no caso de Duo.tone apenas – é aquela mesma da história do Chico Bento e dispensa comentários.

Valente para Sempre e Duo.tone são duas HQs que honram a produção nacional de quadrinhos. Têm uma qualidade que, felizmente, vem se tornando regra por aqui, não exceção.

Valente tem 96 páginas, capa colorida e miolo preto e branco em papel chamois; Duo.tone, 48 páginas, capa e miolo coloridos em papel pólen. Cada uma custa R$ 12 mais despesa de postagem e podem ser adquiridas no site da Pandemônio ou diretamente com o autor pelo e-mail vitorcafaggi@gmail.com – neste último caso, com direito a dedicatória.

Se quiser aproveitar para conhecer outro trabalho do “clã”, recomendo também Mix Tape, de Lu Cafaggi. Suas historietas têm a mesma pegada lúdica e autoral do irmão Vitor – e também usam as lembranças de infância como matéria-prima, só que de forma um pouco mais “onírica”, na falta de palavra melhor. Mix Tape é formado de quatro livretros encartados numa caixinha do tamanho de uma fita cassete (R$ 9,60 mais postagem).

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