As melhores biografias são aquelas que não tratam o objeto de estudo como um ser autônomo, dissociado da época e local em que vive e que influencia a História movido sabe-se lá por que tipo de inspiração heróica ou criativa.

Em vez disso, retratam o biografado como fruto do seu meio, que reage aos fatos e pessoas que o cercam com tamanha inventividade que acaba por influenciar este próprio meio. É o que se convém chamar de contexto.

E quanto mais detalhada a contextualização, mais clara a fica a compreensão de seus atos e motivações.

É neste quesito que Gilberto Maringoni acerta em cheio na ótima biografia do patrono do quadrinho brasileiro, Angelo Agostini – A Imprensa Ilustrada da Corte á Capital Federal, 1864-1910, lançado pela Devir.

O livro adapta a tese de doutorado de História Social de Maringoni defendida em 2006 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP. Mistura o rigor da apuração acadêmica com uma prosa fluente e agradável.

Por meio da trajetória profissional de Angelo Agostini – do início no semanário Diabo Coxo, em 1864, até os últimos anos como colaborador de O Malho, em 1910 -, o autor vai descrevendo não só os costumes da época como também as mudanças por que passa a imprensa e o próprio País num dos períodos mais conturbados de sua História: a abolição da escravatura, o fim do Segundo Império e os primeiros anos da República.

Como não poderia deixar de ser, Angelo Agostini aborda a relevância do trabalho pelo qual talvez o artista seja mais conhecido pelas gerações atuais: as histórias em quadrinhos (atualmente há uma premiação com seu nome para prestigiar os profissionais brasileiros de quadrinhos e o dia 30 de janeiro – quando em 1869 foi publicada a primeira tira de Zhô Quim – é comemorado como o Dia do Quadrinho Nacional).

Porém, na obra de Maringoni, este aspecto do trabalho de Agostini não recebe nem mais nem menos importância que os demais; é apenas mais um exemplo de seu extremo talento como artista e cronista dos homens e costumes do seu tempo.

Se há uma fase da trajetória de Agostini que, com justiça, ganha mais destaque no livro é a de seu engajamento na luta pela abolição da escravatura. O período como editor da Revista Illustrada (1876-1888) representa o auge de sua carreira.

De forma corajosa – e até onde esse editor sabe, inédita – Maringoni aborda outro aspecto do trabalho de Agostini, a aparente contradição entre abolicionismo e racismo.

“Aparente” porque, com muita propriedade, o autor situa Agostini como um retrato de sua época e condição social, integrante de uma elite urbana que, em que pese sua solidariedade humana aos cativos, via na escravidão um modelo econômico ultrapassado e cujo fim deveria se dar pela via institucional e conduzido por esta mesma elite, sem participação ativa dos africanos.

Mesmo entre os abolicionistas, havia muitas correntes de pensamento, e poucas delas, ou nenhuma, visualizava um projeto de integração social do negro após a libertação. Com a assinatura da Lei Áurea, em 1888, os ex-escravos são entregues à própria sorte; o trabalho assalariado privilegia os imigrantes europeus e a leva de desocupados resulta no aumento da violência e do caos urbano no Rio de Janeiro, então capital federal.

São estes últimos aspectos que Agostini vai criticar dão duramente em seu retorno à imprensa brasileira, depois de seis anos de afastamento na Itália, evidenciando um viés racista.

Por tudo isso, Angelo Agostini merece ser lido não apenas pelos fãs e estudiosos de quadrinhos, mas por estudantes e profissionais de Jornalismo e todo interessado em rever, sob um outro ponto de vista, um importante momento da História do Brasil.

Angelo Agostini – A Imprensa Ilustrada da Corte á Capital Federal, 1864-1910 tem 256 páginas e preço de R$ 39,50. Vale o investimento.

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