Em princípio, pelo menos para mim, foi difícil compreender o sentido de Mundo Fantasma, que a Gal Editora acaba de trazer ao Brasil depois de um hiato inexplicável de mais de duas décadas.

Nas primeiras páginas, parece mais uma “série sobre o nada” – a forma como o comediante Jerry Seinfeld definiu seu próprio programa na TV e à qual me referi sobre Fracasso de Público, outro lançamento da Gal.

Enid e Becky são duas adolescentes tentando parecer descoladas num mundo que consideram medíocre e que, de fato, é povoado por umas figuras bem bizarras. A dupla vive de andar por aí comentando a vida alheia e botando defeito e apelido em qualquer um que dê o azar de cruzar seu caminho.

O autor Daniel Clowes, um astuto observador de seu tempo (Mundo Fantasma foi concebida no final dos anos 1980), faz de suas protagonistas um retrato em preto, branco e sépia dos jovens de então, armados de todo niilismo e descompromisso que pudessem carregar para enfrentar um mundo que não compreendiam.

Neste sentido, Clowes é um visionário. Hoje, deve estar rindo ao constatar o quão maduras eram Enid e Becky se comparadas à atual Geração Z.

Mas Clowes também é um pragmático. Com 30 anos incompletos à época da primeira publicação de Mundo Fastama, ele sabia que a fase adulta chega para todos, inexoravelmente e sem distinção.

É a partir desta percepção que as personagens de Clowes ganham profundidade e Mundo Fantasma se agiganta. Um fato simples na vida de qualquer jovem, o ingresso na faculdade, abre a primeira fenda na amizade de Enid e Beck e abre espaço para o mundo real se impor.

A isto, somam-se outros fatos corriqueiros, como o primeiro emprego, o namoro sério. Tudo isso vem num turbilhão, na última terça parte do livro, mas ainda assim de forma sutil, natural. É aquele momento em que nos damos conta de que o tempo passou e os sonhos ficaram perdidos em algum lugar no passado.

Ao final das 80 páginas, fica fácil compreender o sentido de Mundo Fantasma: é uma obra sobre a transição, sobre a inevitável maioridade e a compreensão de que aquele mundo não era assim tão medíocre;  era apenas desconhecido.

Melhor se acostumar. Para o bem o para o mal, ele é tudo que resta daí para frente.

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