O comediante Jerry Seinfeld certa vez definiu seu mega bem sucedido programa de TV como “uma série sobre o nada”. Pode-se dizer o mesmo de Fracasso de Público. E isso não é pouca coisa.

A trilogia de Alex Robinson, publicada no Brasil pela Gal Editora, limita-se a retratar a vida nada excepcional de um grupo de amigos. Assim como em Seinfeld, cada capítulo da HQ – ou mesmo um certo número de páginas – é fechado em si mesmo, sem maiores preocupações com a chamada “continuidade”.

Falar sobre o nada não significa ser superficial. Ao contrário. O autor se vale de situações corriqueiras – uma tarde de patinação, uma noite de Natal, uma rodada no boteco – para adicionar camadas a seus personagens e construir um mosaico do cotidiano.

Há Sherman, escritor frustrado e atendente de livraria; sua namorada perigosamente irresponsável Dorothy; seu amigo Ed, nerd virgem que sonha fazer carreira nos quadrinhos; o casal gente boa Stephen e Jane; uma senhoria megera, uma vizinha roqueira, gatos, cachorros…

E há Irving Flavor, quadrinhista veterano que luta contra a poderosa editora Zoom Comics para receber seu quinhão no megassucesso que ele ajudou a criar, o super-herói Nightstalker – uma clara referência à batalha de Jerry Siegel pelos direitos do Superman.

O drama de Flavor é a única linha narrativa da HQ que poderia ser chamada de “fio condutor”. Neste segundo volume, que a Gal Editora acaba de fazer chegar às livrarias (192 páginas, capa colorida, miolo p&b;, R$ 36,00), a batalha do quadrinhista começa a dar os primeiros resultados e parece caminhar para uma conclusão na última parte da trilogia.

Mas não seria justo dizer que a obra de Robinson seja apenas isso: uma crítica à indústria de quadrinhos. Fracasso de Público, assim sobre Seinfeld, é sobre nada. Considerando o atual mercado de quadrinhos americanos, falar sobre nada, hoje em dia, é muito.

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