O mais novo lançamento editorial do premiado editor do Blog dos Quadrinhos vai sair pela editora Zarabatana.

O livro nasceu a partir de viagens de Paulo Ramos à Argentina e faz um retrato da indústria de quadrinhos daquele país e de seus principais criadores por meio de análises, entrevistas e depoimentos.

A capa foi produzida exclusivamente pelo artista Liniers, autor das tiras de humor Macanudo, publicado no Brasil também pela Zarabatana.

Faltando cerca de um mês para a chegada de Bienvenido – Um passeios pelos quadrinhos argentinos às lojas, Paulo Ramos gentilmente adiantou um pouco do conteúdo da obra nesta entrevista exclusiva para o Papo de Quadrinho:

O livro é resultado de viagens que você fez para a Argentina, certo?
A ideia surgiu a partir das viagens, sim, mesmo que isso não estivesse claro para mim na época. Foram quatro viagens entre 2007 e o fim de 2008. Sempre que voltava de lá, achava que valeria contar como são os quadrinhos argentinos, ainda tão desconhecidos do leitor brasileiro.
Desse primeiro contato, surgiu a série de reportagens “Muito Além de Mafalda”, veiculadas no Blog dos Quadrinhos no primeiro semestre do ano passado. O projeto do livro surgiu depois disso. Reiniciei a pesquisa e a escrita do zero. Aprofundei muito mais, entrevistei autores, fiz duas outras viagens a Buenos Aires, em agosto e dezembro de 2009, para contatos, checagem de dados e atualização de informações.

O livro se propõe a ser um Raio-X da atual produção de quadrinhos naquele país?
Bienvenido faz o que o subtítulo sugere: um passeio pelos quadrinhos argentinos, tanto de hoje como de ontem. Dividi a obra em dez capítulos, que enxergo como dez reportagens sobre diferentes aspectos da produção de lá. Em cada uma dessas matérias, exploro os temas ao longo do tempo e mostro o contexto histórico do país, que exerce influência direta na produção.
Um exemplo: no capítulo dedicado à revista
Fierro, abordo tanto a nova fase da publicação quanto a versão anterior, das décadas de 1980 e 90, bem como as raízes do surgimento dela, ligadas ao fim do período militar e ao processo de redemocratização do país. Os capítulos vão construindo aos poucos a estrutura de como são os quadrinhos argentinos.

De tudo que você encontrou por lá, o que mais chamou sua atenção?
Muita coisa. De momento, me ocorrem duas. A primeira é o fato de haver essa muralha editorial entre as produções daqui e a de lá. Quando olhamos além dessa barreira, podemos ver uma vasta produção, de muita qualidade. O que também me chamou muita atenção foi o papel do escritor Héctor Germán Oesterheld no país. Expoente do gênero, ele foi sequestrado e assassinado pelos militares na segunda metade da década de 1970. Ele, as quatro filhas – duas delas grávidas – e dois genros. Entrevistei a viúva do roteirista, Elsa Oesterheld. É um relato impressionante, um dos mais marcantes que tive a oportunidade de reportar em mais de 15 anos como jornalista.

Foi possível identificar a existência de uma “escola” argentina de quadrinhos?
Talvez não uma escola propriamente dita, mas há alguns autores que influenciaram muito a produção de lá. Héctor Germán Oesterheld definiu muito do modo como os roteiros de aventuras foram criados a partir de 1950. Papel semelhante ao que Francisco Solano López, Alberto Breccia e Hugo Pratt – que trabalhou na Argentina entre 1950 e 60 – exerceram na parte gráfica. Quino também foi um divisor de águas. As tiras se tornaram mais críticas e sociais após Mafalda. Muito do que se lê hoje encontra raízes nesses autores.

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