A quadrinista e ilustradora Roberta Cirne é uma apaixonada pelo imaginário do Recife. Seu novo livro, Sombras do Recife, que será lançado no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ-BH) é um universo em expansão e explora as histórias de terror tão características da cidade. Mas vai muito além.

Trata-se de uma pesquisa que percorreu extensa bibliografia, museus e arquivos públicos para montar um panorama de um Recife de antigamente. Histórias que hoje seguem “escondidas” em pontes, monumentos, ruas e fachadas. Além das assombrações que cercam a cultura popular recifense, a HQ traz ainda mitos do nosso folclore e detalhes da história local. “As assombrações do Recife foram por muito tempo pouco exploradas, e acredito que este projeto tem um potencial de resgate histórico imenso”, explica.

A HQ surgiu inicialmente na internet e ganhou repercussão no Facebook e Instagram. Mas, segundo Roberta, o projeto remonta ao final dos anos 1990 quando iniciou suas pesquisas sobre as histórias de horror no Recife. Sombras do Recife chega com duas histórias em seu primeiro volume: “Boca de Ouro” trata de um motorista de bonde de burros em 1913 que decide se arriscar no jogo do bicho após ser demitido. Já “A Presença Dela”, se passa em 1860 e fala de um crime que muda o Recife para sempre ao descortinar um mundo sobrenatural até então desconhecido.

Trabalhando com nanquim e aquarela, Roberta Cirne é dona de um desenho bastante detalhista, além de usar a seu favor a estética do horror como forma de criar um clima da época abordada nas histórias.

Após esse primeiro número, a ideia é que a série ganhe novos volumes. Conversamos com Roberta sobre quadrinhos, das dificuldades em lançar trabalhos impressos, do poder da internet e da cena atual de HQs no Recife.

Seu trabalho se apoia em uma tradição do Recife de histórias de terror. Qual a sua relação com esse imaginário local e como surgiu a ideia de fazer a HQ?
Sempre gostei muito da temática de horror, desde criança, e já escrevia contos de suspense com 9 anos, baseados em séries que adorava ver, como Galeria do Terror, ou Além da Imaginação. Cresci, mas sempre tive esta fascinação pelo fantástico. Fiz algumas HQs de vampiro, baseadas nos jogos de RPG da adolescência, então sempre estive, de alguma forma, ligada ao assunto. Terror sempre foi a minha área. História da cidade e terror foram escolhas naturais, e poder apresentar e representar graficamente a cidade nesta forma é algo que sempre tive em mente, contar coisas que muitos recifenses desconhecem, passando pelas ruas, pontes, praças, sem desconfiar de toda a história que elas carregam. Não é apenas as assombrações e o susto pelo susto, é incorporar o medo ao ambiente da cidade, mostrando em cenários ruas que não mais existem, costumes que entraram em desuso.

As assombrações do Recife foram por muito tempo pouco exploradas, e acredito que este projeto tem um potencial de resgate histórico imenso. A ideia da HQ surgiu em 1998, em um formato diferente. Eu queria fazer um quadrinho misturando cultura local com vampiros, pois já tinha personagens e histórias nesta linha de terror mais globalizado. Aos poucos, fui refinando a história, à medida em que lia mais sobre os usos e costumes da cidade, monumentos demolidos e desaparecidos, roupas, personagens pitorescos, doces, usos e costumes, coisas que só Recife tem. Fui juntando o material de referência ao longo dos anos em reportagens de jornais, livros encontrados em sebos, fotos, arquivos. Ainda tenho os manuscritos desta época e a pesquisa histórica que fiz, guardados, pois se trata de material praticamente inédito na internet, de livros que nunca foram reeditados em dezenas de anos.

Suas histórias se passam em um Recife de antigamente e percebo um cuidado muito grande com a ambientação, cenários, etc. Como você produz esses desenhos para conseguir essa fidelidade?
Pesquiso bastante história. É uma pesquisa feita em mais de 100 fontes literárias , e não apenas um livro e adaptação. Quero recriar o passado. Minha bibliografia possui diversos autores, sociólogos, folcloristas e suas diversas obras, tais como Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Mário Sette, Pereira da Costa, Antônio Gonçalves de Mello, alguns com obras esgotadas nas livrarias da cidade, mas que tive acesso por sebos, bibliotecas públicas, arquivos escritos, etc.

Também mapas livros de móveis e vestimentas de época e mesmo o tipo de linguajar usado. Mesmo com pouco material , ainda é possível encontrar no YouTube, por exemplo, os filmes de Ugo Falangola, que mostram muitas cenas do passado. Além disso, fotos da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), museus, etc. É um garimpo.

Como surgiu seu envolvimento com quadrinhos? Qual a sua lembrança mais remota com HQs?
Eu sempre adorei desenhar. Na minha casa ninguém era artista, com exceção de uma tia por parte de pai. O nome dela era Alba, e costumava fazer bonequinhas de papel desenhadas para mim. Com o tempo, eu mesma comecei a desenhar minhas próprias bonequinhas, e descobri sozinha, por observação, como projetar em perspectiva, usando distâncias de objetos. Mas foi esta minha tia, que admirei por toda a vida, que me mostrou os primeiros passos nas artes. Assim que comecei a demonstrar interesse pela arte, meus pais deram o maior apoio. Incentivavam, davam materiais de arte para mim. As minhas melhores lembranças são as de receber todo Natal livros, caixas de lápis de 48 cores da Faber-Castell e papéis para desenho.

Quadrinhos, eu colecionava. Era fã das revistas da Luluzinha, Bolinha, mas também adorava ler Almanaque Disney, principalmente as sagas da família pato, de Carl Barks. Tio Patinhas, os sobrinhos e as aventuras no Klondike e Escócia me faziam viajar na aventura. Eu mesma fazia minhas histórias em quadrinhos também. Lembro que criei aos 7 anos uma HQ de uma menina que tinha uma boneca que ganhava vida. Fora isso, eu “quadrinizei “ filmes que gostei, antes dos 10 anos. Tenho até hoje a HQ de Annie e de Peter Pan que fiz.

Sombras do Recife surgiu inicialmente na internet e depois ganhou essa versão impressa. O que você mudou nessa passagem dos pixels para o papel? Como chegou a esse formato final?
Eu já pensei previamente em fazer para imprimir, inclusive a arte foi criada no papel e escaneada. Preciso trabalhar com papel, pois gosto do processo do lápis e nanquim e aquarela no papel, Então tudo já nasceu meio que preparado para imprimir. A internet teve papel fundamental. Tudo o que produzi para o Sombras do Recife foi lançado na net. Isto fez com que o projeto chegasse a todo o país, de um jeito que ainda me surpreende. Se ficasse apenas na dependência da indústria, do quadrinho tradicional impresso, talvez não tivesse toda esta repercussão. Estamos para lançar a revista em dezembro por apoio da Prefeitura do Recife e Secretaria de Turismo da Cidade, mas o alcance do site é de milhares de pessoas. A revista, pode atingir 1000, 2000 leitores. Por isso reitero o valor de se lançar na mídia online. Tudo que estou conseguindo começou com a publicação na internet.

Você gosta de ler literatura de horror? Que autores/as mais te influenciam?
Edgar Alan Poe, Stephen King , Anne Rice , sempre. Alan Moore, Neil Gaiman também estão no meu mapa de influências. Leio muito para poder roteirizar de forma segura.

Recife passou um tempo sem uma produção regular de quadrinhos, com exceções, claro. Mas agora vemos muitos eventos e lançamentos. E você faz parte dessa cena? Como vê isso?
Na medida do possível, sim. Comecei em uma época em que não havia muito incentivo nem espaço, década de 90. Hoje vemos também uma facilidade para o autoral independente, e me inseri neste contexto. Acho incrível estas possibilidades, que só dependem da garra do autor em relação ao que quer. Há espaço para todos.

Como é trabalhar com quadrinhos por aqui? Você ainda segue totalmente independente, certo? Como foi a produção dessas HQs?
A gente sabe que quadrinhos não dá dinheiro, então é amor mesmo. Parei por um tempo por motivos familiares, e mesmo quase desisti. É árduo, muitos eventos não geram vendas ou mesmo até prejuízos. Mas acredito que isso é temporário, que o mercado está em metamorfose. Tenho outras formas de me manter, e dedico meu tempo à aprimorar o trabalho. Penso assim: se é para não ganhar dinheiro, vou fazer do jeito que quero, para mim mesma primeiro. E assim encontrei meu nicho e público.

Sombras do Recife chegou agora com duas histórias. Quais serão os próximos passos?
Estou finalizando o romance, que espero publicar em breve. E com os valores gerados da venda da primeira edição vou publicar a segunda, que pretendo que tenha também duas HQs, uma sobre o papa figo e a outra ainda em estudo.

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