A palavra redemoinho inevitavelmente nos remete a imagem de coisas presas a um movimento giratório provocado pela água ou pelo vento. É uma metáfora também para descrever momentos da vida das pessoas mergulhadas em dramas que as empurram para o fundo de suas almas e, ao mesmo tempo, podem arremessá-las para fora de si. Esse é o espírito dominante do livro Inferno Provisório, do escritor mineiro Luiz Ruffato, e que agora chega às telas pelas mãos do diretor José Luiz Villamarim, um nome que ganhou destaque pela condução das séries Justiça e Amores Roubados, da TV Globo.

Redemoinho é o primeiro longa do mineiro Villamarim para o cinema. A história contada no filme se passa em Cataguases, no interior de Minas Gerais, um lugar caro aos admiradores do cinema brasileiro. Foi lá onde ocorreu um dos famosos ciclos regionais do cinema mudo nacional e também cidade que revelou o cineasta Humberto Mauro. A Cataguases de Villamarim, nesse contexto, torna-se simbólica, pois leva para ela uma experiência fílmica que aposta numa narrativa despojada e esteticamente bem cuidada, ancorada na pureza e força dos enquadramentos precisos, nas tomadas longas, nos tons sombrios da fotografia e nos silêncios.

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Esse olhar duro é essencial para o que vemos transcorrer diante de nós. Redemoinho é um projeto fílmico que traz de volta para a tela brasileira a classe operária. A mesma classe que já foi observada de perto por Leon Hirszman em Eles Não Usam Black-tie, em 1981. Mas enquanto a obra de Hirszman abordava o conflito sociopolítico da vida operária no seio de uma família, os operários de Villamarim se confrontam com seus fantasmas, tensões e medos em um mundo que parece não ter muita escolha para quem pertence à classe média baixa.

O ponto de partida da trama é o reencontro de dois amigos de infância, Luzimar (Irandhis Santos), trabalhador de uma tecelagem, e Gildo (Júlio Andrade), que foi morar em São Paulo e está de volta para passar o Natal com dona Marta (Cássia Kiss), sua mãe. Desde o primeiro momento há uma tensão velada entre os dois rapazes e, aos poucos, o encontro amistoso se transforma numa jornada confusa onde, lentamente, emergem episódios traumáticos do passado e um embate alimentado pela desconfiança mútua e uma certa disputa para demonstrar quem tomou a melhor decisão entre partir e ficar no lugar de origem.

O êxito do filme pode ser abalizado pelo feliz encontro entre a concepção de Villamarim, o roteiro de George Moura e a fotografia de Walter Carvalho. As situações dramáticas e os diálogos são bem costurados e vão envolvendo o espectador no universo retratado. Mas, não é apenas o dito que tem relevância. As imagens recorrentes girando em torno dos personagens constroem o clima da história e reforçam a sensação de enclausuramento a qual eles estão submetidos: o trem de carga desfilando sucessivamente diante do agrupamento de casas onde boa parte da ação transcorre, a ponte sobre o rio evocando uma tragédia no passado, as frestas de portas e janelas estabelecendo a relação com o extracampo denotam uma articulação sofisticada que nos encanta e nos deixa perplexo.

Vale ressaltar também o excelente desempenho do elenco cuja força interpretativa foi fundamental para não tornar monótona e apática a proposta do filme. A observação é o motor principal da narrativa e por isso os pequenos gestos, os olhares e os movimentos dos corpos ganham importância, algo que Julio Andrade, Irandhir Santos, Cássia Kiss, Dira Paes conseguem dar conta com perfeição. Para os que estavam ansiosos para saber se Villamarim conseguiria dar o salto da telinha para a telona, o belo Redemoinho é a resposta.

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