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Antes de começar a crítica em si, gostaria de dizer que dois dos parágrafos da crítica possuem spoilers. E eles estão apontados no corpo do texto. O primeiro parágrafo, nomeado Pequeno Parágrafo com Pequenos Spoilers, apresenta uma breve análise de uma sequência do filme. Embora eu ache que lê-la não vá comprometer a experiência de ver o filme, mas um pouco a de ler este texto, prefiro avisar. O segundo parágrafo, nomeado Pequeno Parágrafo com Grandes Spoilers, ele… bem, conta o fim do filme. Então, você decide o quanto liga para isso ou não.

Parece-nos um exagero que La La Land – Cantando Estações (2016), de Damien Chazelle, tenha vencido tantos prêmios numa única noite, ou mesmo que boa parte da crítica o aclame como o maior filme lançado em tantos (insira aqui a quantidade que parecer melhor a cada crítico) anos. O hype, porém, é compreensível. Se Chazelle compartilha alguma característica com seus personagens, esta característica é a obsessão pelo rigor e pelo virtuosismo. E isso, de fato, o diretor e roteirista entrega em La La Land, mas não sem aquilo que pede um musical aos moldes clássicos: emoção e envolvimento do público.

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Caso alguém ainda não saiba de que se trata o filme, aqui vai uma breve sinopse: a aspirante a atriz, Mia (Emma Stone), tenta a sorte em Hollywood e, depois de esbarrar algumas vezes com o tradicionalista e obcecado pianista de jazz, Sebastian (Ryan Gosling), apaixona-se por ele. Juntos, eles perseguem seus sonhos: ela quer ganhar projeção como atriz, e ele quer abrir um clube de jazz tradicional, para “salvar” o gênero musical. A trama é conhecida, mas consegue-se extrair muita novidade daí.

Se o filme será um clássico, não sei. Talvez ele fique datado de alguma maneira, talvez seu vigor se imponha no tempo, mas o que me parece mais provável é que a crítica já tenha erigido um mito que, este sim, perdurará, independente da vocação do filme por si só. Não digo isto por antipatia ao filme, e sim porque creio que nossa época é pouco hábil em criar clássicos de fato (embora os crie evidentemente). Mas é muito mais perspicaz em fazer algo que La La Land realiza com o já comentado virtuosismo, que é remixar clássicos. Não vou me deter sobre os filmes citados na obra de Chazelle, mas é importante dizer que paga-se tributo em especial à obra do diretor francês Jacques Demy, sobretudo aos filmes Les Parapluies de Cherbourg (1964) Les Demoiselles de Rochefort (1967). E isso, da abertura do filme ao roteiro, recheado de encontros e desencontros entre os protagonistas, que se aproximam e se repelem mutuamente, até aceitarem-se em definitivo.

Aquele dom de remixar clássicos. (Divulgação).

Aquele dom de remixar clássicos. (Divulgação).

Aliás, é dessa atmosfera de casualidade, de certo acaso regendo a vida de todos, além da franca pindura em que os protagonistas vivem, que surge o trunfo de La La Land. O filme não é apenas um musical, ele é também um drama realista sobre um casal que entra em crise. Essa balança entre o drama realista e o musical colorido, charmoso e, de maneira geral, ‘pra cima’, é o ponto em que se atinge, entre as partes, um equilíbrio, que podemos chamar, agora sem medo, de clássico. Toda a sensibilidade desta obra, e sem dúvida boa parte da dificuldade em realiza-la, está no equilíbrio que se atingiu entre as proporções destes dois aspectos. Sob esta ótica, a cena de abertura do filme parece ser um resumo deste projeto: numa autoestrada de Los Angeles, um trânsito infernal prevalece, cada um permanece em seu monótono mundo particular (os carros), até que irrompe uma celebração coletiva, obviamente cantada e dançada, aos amores e acasos da vida. Este é todo o sentimento que perpassa La La Land, talvez com uma nota mais agridoce ao final, pendendo, inesperadamente, para uma perspectiva realista.

Durante todo o filme prevalece, como de fato ocorre na cidade lendária, uma Los Angeles integralmente ensolarada, um fenômeno climático ironicamente incorporado pelo filme, que é dividido através das quatro estações (daí o simpático subtítulo aqui no Brasil). Junto a esta LA ensolarada, os cenários charmosos, plásticos, até mesmo irreais, ajudam a compor aquela atmosfera de sonho e/ou conto de fadas tão típica de musicais, e novamente se evoca a obra de Demy. Disto resulta uma sensação de atemporalidade (tão afeita ao remix empreendido pelo filme), em que confluem a era de ouro dos musicais e a contemporaneidade. Mas esta divisão em estações, bem como o sentimento onírico, são mais do que gracejos simpáticos, eles servem para reforçar a imposição inevitável do drama que se seguirá, como quem diz: até mesmo nessa cidade feita de sonhos, e talvez sobretudo nela, o drama humano prevalece.

Até mais ou menos a metade do filme eu achei que o clima ‘pra cima’ estava se tornando um tanto insuportável, uma espécie de alegria boba, ingênua. Principalmente quando os dramas já não muito convincentes dos artistas frustrados pareciam resolvidos. É então que Chazelle prega uma pequena peça. Sebastian, após ter ‘se vendido’ para uma banda que funde jazz e pop (liderada pela personagem de John Legend), ingressa em turnês constantes, e Mia passa a se confrontar com sua própria solidão, ao mesmo tempo em que prepara a estreia de seu monólogo autoral. É então que Sebastian, buscando se redimir pela ausência, prepara uma refeição à luz de velas, antes que tenha de partir novamente. Entretanto, é a partir desta singela tentativa de reaproximação que as expectativas e frustrações de cada um são colocadas na mesa, numa cena econômica e sensível, digna de Linklater em Antes do Pôr-do-Sol ou em Antes da Meia-Noite. De fato, para mim, este é o ponto alto do filme.

_______ Pequeno Parágrafo com Pequenos Spoilers _______

O que surpreende nesta sequência é a economia de recursos, em paralelo a uma construção dramática profunda, que são as chaves para seu funcionamento. No auge da discussão, somos levados de um Primeiro Plano de Gosling a um Primeiro Plano de Emma Stone, durante longo período de tempo. Vamos de um lado a outro como se de fato estivéssemos contemplando a briga, num terceiro lugar à mesa, e sendo obrigados a nos virar de um para o outro, mas com o privilégio de uma proximidade, reveladora de expressões e trejeitos, que só a câmera poderia nos dar. Além disso, a sequência demonstra um estudo de personagem aprofundado, e é principalmente a isso que se deve a comparação com os filmes de Linklater. A troca de acusações entre o casal é poderosa porque temos a sensação de que se aquelas pessoas existissem, não poderiam dizer outra coisa senão aquilo que os personagens estão dizendo. Para finalizar, surge um som de fonte desconhecida (ou, um off-sound), muito insistente e incômodo, que aumenta progressivamente a tensão da cena, uma vez que o casal, envolvido na discussão, deixa de dar atenção a ele. Quando finalmente, Gosling se levanta para dar um fim ao barulho irritante, Emma Stone se vai. Ele, por sua vez, entende que deixou um dos pratos do jantar queimar e dá de cara com a imagem perfeita de sua noite e de seu relacionamento: algo belo, construído com carinho, mas arruinado pelo tempo.

_______ Pequeno Parágrafo com Grandes Spoilers _______

Porém eu, ingênuo quanto aos rumos do filme, achei que essa pequena, mas bem aplicada dose de drama, estava ali apenas para preparar o futuro glorioso dos protagonistas, mas é então Chazelle prega sua peça final: separados pelas eventualidades da vida, Sebastian e Mia realizam seus respectivos sonhos separadamente, ela vai para a França realizar a personagem que lhe dará projeção internacional, e ele fica em LA para abrir seu bar de jazz tradicional, sob o nome de Seb’s, sugerido por Mia, e ostentando o logotipo desenhado também por ela, quando ambos ainda formavam um casal feliz. Ela, aliás, casou-se e teve filhos, e, uma vez de volta a Los Angeles, resolve passear com seu marido, mas, novamente por uma casualidade (o trânsito infernal de LA), eles desviam sua rota e entram num bar qualquer – ledo engano. O bar qualquer era o Seb’s. E nele, Sebastian, ao ver Mia, resolve executar a música que os uniu. Somos, então, levados a um delírio compartilhado entre Mia e Seb, no qual eles contemplam tudo que a história deles podia ter sido, mas não foi. O delírio, é claro, tem a forma de um grande número musical, virtuosístico, e cheio de referências aos musicais clássicos. Essa alegria delirante, que ignora o destino que já se impôs, acaba por reforçar a melancolia, a nostalgia pelo que não foi, a nota agridoce que o filme traz em seu bojo. O que é interessante aqui é que o número musical é usado para denunciar seu próprio universo de fantasia e redenção artificial. Ele é o avesso da fantasia, porque é sonho reprimido e não realizado.

_______ Fim do Parágrafo com Grandes Spoilers _______

A ponte entre o realismo e a atmosfera onírica do musical é tão forte que creio que até aqueles que não têm, pelo menos usualmente, uma propensão natural a gostar de musicais, como eu, consegue entrar no filme por inteiro. La La Land cria um pacto entre público e obra muito coeso. As músicas surgem sempre como delírios ou devaneios, grande parte das vezes individuais, e algumas vezes compartilhados. A música é sempre um derramar lírico e intimista de emoções, muito pontuais. Temos como exceção a essa regra a sequência inicial, mas, podemos dizer sem nenhum exagero, a abertura é um delírio do próprio Chazelle, que começa com uma brincadeira metalinguística, mostrando-nos que ele filmou em Cinemascope, o formato de tela utilizado em muitos dos grandes musicais. Alguma dúvida de que o autor está nos dizendo “sejam bem-vindos ao meu grande delírio.”?

(Divulgação).

O diretor parece dizer: sejam bem-vindos ao meu grande delírio. (Divulgação).

Ainda assim, mesmo com de todas essas qualidades, penso que a reação geral ao filme é exagerada. Como eu disse ela é compreensível, não é todo dia que se esbarra num filme com tamanho apelo pop e qualidade técnica e narrativa. O filme é bem feito, e é um interessante resgate de uma tradição quase perdida, mas não mais do que isso. A meu ver o La La Land é um remix virtuoso, e não propriamente a realização de um projeto de cinema consistente, tal como faz parecer as críticas e as premiações.

A verdade é que o filme ganha muito pelo apelo nostálgico puro e simples. Embora essa seja talvez uma contradição interna de muitas obras cinematográficas, e, sobretudo das do gênero musical, o fato é que por vezes o fascínio pela obra vem antes do reconhecimento de suas qualidades inerentes, o que dizer, então, quando a obra aponta para um passado glorioso? Além disso, o tom de autossuperação, e o clamor à reunião dos sonhadores que perpassa boa parte das músicas (embora não todas) e o discurso final do filme, é uma ameaça constante ao tom agridoce que a obra atinge em seus melhores momentos.

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES
De Damian Chazelle
[La La Land, EUA, 2016 / Paris Filmes]
Com Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend

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