Devo dizer que fui surpreendido “positivamente” pelo filme, se é que esta é uma boa expressão para o caso. Mas mais do que isso, inesperadamente, algo me atingiu em cheio na história desse homem sem lastro. Importante observar isso, pois por mais que eu tenha me detido sobre determinadas estratégias do filme creio que o texto está especialmente atrelado às emoções que me surgiam durante e ao final da exibição.

Se em Profissão: Repórter (1976), de Michelangelo Antonioni, a tentativa de mudar de identidade é um objeto de busca que desemboca em tragédia, em Manchester À Beira-Mar (2017), de Kenneth Lonnergan, essa mesma tentativa de aniquilar voluntariamente o próprio passado é uma espécie de imposição do destino, uma forma de tentar sobreviver.

O filme apresenta a história de Lee Chandler (Casey Affleck), um zelador destemperado que se vê obrigado a retornar a sua cidade natal para se tornar tutor de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges), cujo pai, Joe Chandler (Kyle Chandler), acaba de morrer. Este retorno, entretanto, coloca-o em confronto com um passado que buscava esquecer.

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Tudo no filme é estruturado em cima de sutilezas. O drama emerge do cotidiano, das banalidades e de um certo “tempo de vida”. E, como na vida, acontece de estarmos diante dos acontecimentos mais mundanos, quase desprezando-os, e quando menos esperamos, acabamos enredados por eles. E assim também foi minha experiência ao ver o filme. No início, a narrativa me parecia pouco elegante, mas logo me vi completamente envolto por ela. Nesse sentido, a opção por atrelar nosso olhar ao de Lee é precisa. Somos apresentados aos fatos em flashback conforme os acontecimentos despertam no protagonista determinadas lembranças. A narrativa em princípio soa objetiva demais, embora às vezes pareça se arrastar em alguns planos contemplativos. Mas, conforme as lembranças estruturam o passado de Lee, esse aparente descompasso passa a fazer sentido, pois ressignificam as atitudes do zelador. Na verdade, de certa maneira, é esse descompasso que emula o “tempo de vida” de que falei.

No começo, a montagem, um pouco mais acelerada, mostra a imposição da rotina que o personagem de Affleck leva. Uma rotina que se torna monótona não pelo tédio ou falta do que fazer, mas pelo excesso de demanda de pequenos serviços de zelador, que o protagonista não quer realizar, sobretudo diante das reclamações pouco razoáveis de alguns moradores. Conforme o filme se aprofunda nas memórias e no drama de Lee, ele adquire também um ar mais contemplativo, dando especial destaque para a dureza do ambiente quase sempre cheio de neve, e para a paisagem marítima dos portos da cidade.

Talvez até fizesse sentido escolher outra forma de contar essa história, que não esta investida psicologizante de Lonnergan, mas haveria uma perda muito grande da potência da obra, que acaba por ser um grande estudo de personagens. Embora o foco seja logicamente o protagonista e seu sobrinho, uma vez que todo o desenrolar do filme se debruça sobre a aproximação e a repulsão que caracteriza a relação deles, personagens como a ex-mulher de Lee, Randi (Michelle Williams), também são apresentados em toda sua complexidade, mesmo possuindo de menor tempo de tela. Muito bem explorada, aliás, é a contradição entre as personalidades do zelador e de seu sobrinho.

Affleck, a imagem do recalque. (Divulgação).

Enquanto Lee vive a olhar a vida de soslaio, como se nada fosse com ele, procurando executar suas tarefas do modo mais eficiente e rápido no intuito de evitar o contato com o outro; Patrick é um jovem vivaz, que joga hockey, toca numa banda, e tem pelo menos duas namoradas. Ainda assim Patrick reconhece a necessidade de uma figura de autoridade, que ele busca ver no tio, embora não consiga ao se deparar com aquele homem desprovido de desejos reais. Ao mesmo tempo, o tio, embora reprove certas decisões do sobrinho, inveja a vitalidade e a esperança que o garoto preserva a despeito da morte de seu pai, de modo que todas as suas tentativas de dar suporte à Patrick acabam se demonstrando bastante canhestras.

O personagem de Affleck é, talvez, a personificação do recalque: ele é incapaz de desejar, pois tudo que uma vez desejou ou estimou, foi-lhe interditado de alguma maneira. É significativo que, por duas vezes, depois de beber um pouco amais, ele dê início a brigas de bar cuja motivação aparente inexiste. Isso é porque a real motivação não é aparente, ela reside sobre seus recalques e sobre sua incapacidade de romper com a bolha que criou para se auto proteger. Ainda assim, a vida se impõe. E é aqui que aquele “tempo de vida” se faz importante. O drama não se constitui pelo exagero das emoções ou por acontecimentos avassaladores, mas sim, como no interior do próprio Lee, através da auto-repressão. O realismo e a valorização do cotidiano servem para demonstrar quão frágil é a aparência de normalidade (no sentido de conjunto de acontecimentos regulares) da vida que levamos, ou buscamos levar.

A determinada altura esse projeto de desmontar o cotidiano atinge seu ápice, que é quando Lee encontra sua ex-esposa. Paradoxalmente a cena é uma das mais perfeitas traduções da dificuldade de traduzir determinados sentimentos, sobretudo quando eles estão soterrados por grossas camadas de neve, em palavras. E aqui se entra mais profundamente num tema que subjaz todo o filme, e que é muito caro ao cinema: o da incomunicabilidade. Não a toa citou-se, ao início do texto, a obra de Antonioni, o cineasta que dedicou a maior parte de sua obra a essa temática. Embora Manchester À Beira-Mar não verse principalmente sobre isso, ele tem muitas coisas a dizer sobre o assunto, mas seria pouco recomendável – e talvez até impossível – tentar traduzir mais detalhadamente como ele o faz.

Devemos então nos limitar a dizer que o começo e o final da narrativa são como duas faces de uma mesma imagem refletida num espelho, o que deixa claro as correspondências entre a paisagem mental do protagonista, e a paisagem física da cidade que dá nome ao filme: A paisagem de Manchester (a cidade norte-americana no caso) não só é a tradução da infértil e gélida personalidade de Lee, como o fato de a cidade estar à beira-mar reflete o sentimento de deriva que conduz a vida dos personagens, e talvez – mas apenas talvez – também as nossas.

MANCHESTER À BEIRA-MAR
De Kenneth Lonnergan
[Manchester By The Sea, EUA, 2016 / Sony Pictures Brasil]
Com Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler

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