Quando Diomedes Chinaski e Baco Exú do Blues lançaram “Sulicídio” no ano retrasado a cena do rap no Brasil sofreu um abalo sísmico e precisou olhar para si mesma por conta de suas contradições. A dupla denunciava o preconceito e a exclusão social que viviam os rappers nordestinos. Era também um chamado à atenção para uma renovação que já tinha se iniciado no hip hop fora do eixo Rio e São Paulo.

Corta para 2018 quando Chinaski é um dos destaques do festival Rec-Beat, que acontece no Carnaval, que traz ainda o cearense Don L, dono de um dos discos mais elogiados do rap brasileiro no ano passado. Para celebrar ainda mais esse bom momento do rap no NE o evento traz ainda o trio Arrete, formado por três mulheres MCs e duas dançarinas, hoje uma das principais promessas do gênero.

O rap sempre foi parte do projeto eclético do Rec-Beat, que costuma dar holofotes para estrelas em ascensão ou ainda celebrar nomes importantes da cena muito antes de outros festivais de grande porte. Até hoje é memorável o show que Emicida fez no palco do festival em 2014, lançado o disco O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui.

Para este ano o festival traz nomes que foram destaques no rap feito no Nordeste no ano passado. Em comum esses nomes trazem, além de questões bastante locais e com referências bem próximas do público, uma busca por uma inovação tanto nas rimas quanto nas batidas.

Diomedes Chinaski é um dos nomes dessa nova safra. Suas músicas abordam desde questões sociais até debates mais existenciais. Mas seu discurso mais direto é falar o quanto o Brasil sempre fechou as portas para os rappers nordestinos. Foi um dos fundadores do coletivo Chave Mestra, que trouxe ainda MCs como Faraó, Moral, Zaca de Chagas e Louco do Texas na formação.

Ele esteve bem atuante no ano passado com dois EPs lançados, além de participação em trabalhos de Don L e Rodrigo Ogi. Seu trabalho mais novo é o single “Compassas in Copacabana”, com Luiz Lins e Matheus Mt.

Arrete se apresenta no Rec-Beat. / Foto: Divulgação

Diomedes sempre se pautou na instiga por um sotaque nordestino, sem aquela necessidade de emular os rappers americanos. Mas nenhum grupo ou artista de rap milita tanto por uma personalidade original nordestina quanto as Arrete. O grupo de Jaboatão dos Guararapes formado por três MCs e duas dançarinas lançou no ano passado o disco Sempre Com a Frota, onde elas experimentam rimas sobre questões como misoginia, preconceito de classe e região, tudo isso misturado aos arranjos que trazem referências a ritmos locais, como arrasta-pé, forró e baião. Nas rimas elas falam de empoteciamento feminino, uma proposta que busca fortalecer e unir mulheres contra todos as barreiras que ainda se impõe, sobretudo no rap.

“O meio em que vivemos, nossa sociedade, é cheia de protecionismo à figura masculina. Afora figuras fortes de mulheres nordestinas que existem na nossa história e outras em nosso convívio, ficamos bastante tempo à margem por sermos mulheres”, explicam. “Hoje, então, a luta pelo feminino explode e nós ousamos ser o que somos: mulheres. Mas não apenas mulheres com a feminilidade aflorando, porém mulheres bravas, guerreiras, determinadas a provar nossa capacidade criativa e nossa independência rompendo grilhões que nos mantinham fora da questão.”

Outro destaque deste ano é Don L, rapper cearense que lançou ano passado um dos mais elogiados discos brasileiros, Roteiro Pra Aïnouz Vol 3. Hoje radicado em São Paulo, o músico fez parte do grupo Costa a Costa e hoje, solo, é um dos principais rappers em atividade. Seu flow é bem inovador para a cena BR, com muito fluxo de consciência. E há, claro, denúncias ao preconceito contra o Nordeste.

O Rec-Beat traz ainda o Rimas e Melodias, um grupo formado só por mulheres e que tem na sua formação nomes como Tássia Reis, Stefanie, Alt Niss e Drik Barbosa, que já possuem carreiras solo bem interessantes. No ano passado elas lançaram o primeiro EP que traz ainda a participação da filósofa Djamila Ribeiro.

Para todos os apreciadores de rap (sobretudo do que há de mais novo e instigante) esse Rec-Beat tem tudo pra ser histórico.

Veja a programação completa:

Sábado, dia 10/02/18
* DJ Rafoso Seletor (PE) nos intervalos entre as bandas
19h30 – DJ Ipek (Alemanha/Turquia)
21h00 – Anna Mulller (ES)
22h00 – Daniel Peixoto (CE)
23H10 – Diomedes Chinaski & Luiz Lins (PE)
00H30 – MC Tocha (PE)

Domingo, dia 11/02/18
19h30 – DJ Flavya (Estados Unidos)**
20h00 – Arrete (PE)
21h00 – Lucas Estrela (PA)
22h00 – Javier Diez-Ena (Espanha)
23h10 – Don L (CE)
00h30 – Larissa Luz (BA)

Segunda, dia 12/02/18
19h30 – DJ Grace Kelly (Brasil/Alemanha)**
20h00 – João do Pife e Banda Dois Irmãos (PE)
21h00 – Carne Doce (GO)
22h00 – Fémina (Argentina)
23h10 – Xenia França (BA)
00h30 – Johnny Hooker (PE)

Terça, dia 13/02/18
19h30 – Worm Disco Club (Inglaterra)**
20h00 – Frevália (PE)
21h00 – Rimas & Melodias (SP)
22h00 – Black Devil Disco Club (Live) (França)
23h10 – Otto (PE)
00h30 – Erasmo Carlos (RJ)

** Os Djs que fazem a abertura da noite e os intervalos entre as bandas.

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