Documentário dirigido por Maria Augusta Ramos é um retrato minucioso da trama política que culminou com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e a prisão do ex-presidente Lula

Quando tem início a exibição de ‘O Processo’ (2018) e o espectador pode assistir, agora nas dimensões da tela cinematográfica e já com uma pequena perspectiva histórica, o voto exaltado do deputado federal João Rodrigues (PSD-SC) bradando “por minha família, pela minha guerreira Chapecó, pelo meu Estado de Santa Catarina e para quebrar a espinha dorsal dessa quadrilha, eu voto sim, senhor Presidente”, toda a espetacularização do golpe de 2016, que culminou com o impedimento da presidenta eleita Dilma Rousseff (PT) retorna com força e tintas fortes à memória. O filme foi exibido em pré-estreia nacional na reabertura do Cinema São Luiz nesta quinta (10) depois da estreia no Festival de Berlim e no É Tudo Verdade, em São Paulo. Aviso: exige do público na mesma medida estômago forte e boa intenção de reter todo o material histórico ali contido.

No cenário político atual, o mesmo deputado João Rodrigues encontra-se preso, após ter sido condenado a 5 anos e 3 meses de reclusão pelos crimes de dispensa e fraude em licitação quando foi prefeito de Pinhalzinho (SC). Mas ele não é mais do que um mero figurante como os demais que aparecem tecendo discursos em prol da família e dos bons costumes para argumentar o voto. Ele é apenas um dos condenados por improbidade administrativa, corrupção, lavagem de dinheiro, entre outros crimes correlatos, que estavam no Congresso naquele 17 de abril de 2016, que votaram sim para o afastamento de Dilma, que fizeram da exposição circunstancial um circo vergonhosos e neste documentário vemos entrar para a história como personagens de uma trama política putrefata, a despeito de bem elaborada e recheada de personagens controversos.

Em quase três horas de filme, Dilma, reeleita em 2014 através do voto de mais de 55 milhões de eleitores, assiste seu lugar na presidência ser ocupado num “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo” pelo seu vice e atual presidente, Michel Temer. E simultaneamente começa a experimentar a tal absolvição histórica que o tempo todo, correligionários e mesmo algozes, lhe fiaram.

Foram mais de 450 horas de gravação entre votações, reuniões, bastidores, trechos de conversas cotidianas agora alçadas a frames de momentos históricos, tudo costurado por um roteiro que de tão ficcional, demoramos a aceitar como crível.

O longa é o primeiro e necessário documento com este nível de detalhamento e contundência para avaliarmos a dimensão do afastamento da presidenta e as consequências imediatas e a longo prazo para o país da ameaça de uma democracia ainda jovem e decididamente frágil. Em um único fôlego, com uma edição precisa e escrutinadora dos bastidores do poder em Brasília, acompanhamos desde a polarização Vermelho X Amarelo na Esplanada dos Ministérios (onde os movimentos sociais, sindicais, a mobilização da esquerda e aqueles alinhados ao governo contrastavam com uma massa irascível de camisa da CBF e longneck em punho que dirigiram-se até a capital federal para gritar Fora Dilma), passando pelos arroubos cênicos da advogada Janaína Paschoal, até a firmeza do núcleo duro do PT (com ênfase nas figuras dos senadores Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias).

A defesa de Dilma Rousseff, representada com afinco por José Eduardo Cardozo, ex-Ministro da Justiça e Advogado Geral da União, não haveria de ter chance. As cartas marcadas deste golpe estavam postas desde a recusa da presidenta em frear os avanços da Operação Lava Jato, a maior investigação da Polícia Federal brasileira empreendida até hoje, e pioneira na investigação de políticos e funcionários do alto escalão da Petrobras.

Todos os esforços jurídicos para se provar que os crimes de responsabilidade fiscais atribuídos à primeira mulher que ocupou o cargo máximo do poder Legislativo no país não foram suficientes para livrá-la do golpe sofrido. Enquanto isso, é descortinado aos nossos olhos uma estrutura política alheia às determinações da própria constituição e afeita a conchavos, recursos obtusos e associações criminosas. As velhas raposas nunca ficaram tão expostas sob a lente de aumento da posteridade.

Algumas conjunturas adiantadas em trechos do filme durante a captação de imagens por alguns personagens já vemos serem concretizadas: o plano em curso do PMDB (hoje MDB) de congelar investimentos em educação e saúde pelos próximos 20 anos, assim como o desmantelo dos direitos do trabalhador. As acusações ao ex-presidente Lula, a fim de incriminá-lo de maneira que sua participação no pleito deste ano seja inviável. A entrega pela privatização de riquezas e recursos públicos. O avanço de um conservadorismo perigoso e sem memória.

Vemos também o enfraquecimento do PT enquanto sigla e enquanto símbolo de um projeto de governo que ousou uma mudança profunda na estrutura social do país. No entanto, o partido não soube instrumentalizar com informação idônea o povo, seu capital amealhado inestimável, que continuou tendo como fonte de notícia e formação de opinião os mesmos veículos que detém concessões de rádio, televisão e jornal há décadas no país.

Assistir O Processo faz parte de um dever que precisaremos cumprir: se não para entender a fundo este complexo recorte histórico que atravessamos, pelo menos para não repetir sazonalmente e com tanto empenho o script de 1964.

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